5 de junho de 2026

Clarisse da Costa: “Quando um livro toca fundo na sua alma”

São tantos livros que eu não sei o que fazer. Me desfazer? Não, eu tenho apreço por eles. Terminar de ler os que ainda não terminei? Uma boa ideia. E foi nessa indagação de começo de ano, exatamente em janeiro, que enxerguei com profundidade a importância dos livros. Eu sei, já falei muito sobre esse assunto, mas sempre tenho uma percepção diferente sobre os livros, esse é um vasto mundo onde podemos explorar diversas sensações.

Existe um vasto mundo a ser descoberto e eu não me refiro aos planetas ou os extraterrestres, falo sobre o vasto mundo literário e suas escritas capazes de tocarem fundo na alma.

Um livro guarda ideias que atravessam gerações, abriga perguntas que ainda não têm resposta e oferece companhia a quem aprende a escutar. São poucas as pessoas que enxergam a sua importância.

Eu particularmente tenho essa conexão com os livros. O livro de Bianca Santana, “Quando me descobri negra”, me trouxe a lembrança e o resgate sobre a minha identidade com o cabelo crespo. Foi muito relevante esse momento que eu tive comigo mesma. Meses após a perda de minha mãe soltei os cachos e senti dentro de mim a libertação de uma mulher. Ao ler o livro me enxerguei em alguns trechos daquelas páginas tocantes, foi então que me veio essa lembrança e a certeza que posso vencer mais.

O livro Meu país inventado, de Isabel Allende, me desperta a ideia da criação e da invenção humana. O ser humano tem a capacidade de criar coisas e inventar histórias; portanto, não seria incomum imaginar um país novo. Mas quem somos dentro dessas criações?

A escritora me conduz pelos carnavais de Nova Orleans e pelos gelos da Islândia — que ela descreve como radiante. Esses passeios me fazem questionar até onde iremos com tantas invenções e como elas moldam nossa forma de ver o mundo.

Para Allende, inventar é também sobreviver.

E ela reconhece que lembrar é sempre reconstruir. Toda memória é um ato criativo — às vezes involuntário. Cada vez que recordamos algo, relatamos a cena, mudamos o foco, acrescentamos cor, retiramos sombras. Por isso, ela escreve: seu país “inventado” é aquele que existe dentro dela, não necessariamente o que existiu.

E se você parar para pensar um livro toca fundo na alma quando ele encontra algo seu — uma lembrança, um medo, um desejo, uma ferida ou uma esperança — e o nomeia de um jeito que você nunca tinha conseguido formular. É assim também com os filmes, músicas e seriados.

Artigo escrito por Clarisse da Costa em fevereiro de 2026

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