29 de setembro de 2026

Sarah: a paz do branco e a empatia do amarelo proclamam o silêncio

        
 E esta ânsia de viver, que nada acalma,
E a chama da tua alma a esbrasear
As apagadascinzas da minha alma!

Florbela Espanca

1.

Sarah

Sarah (Natal, RN, 1986). Quem sabe ela poderá falar por si, já que seu domínio da língua portuguesa é de grande elegância. Plena de ideias, desenvolve de maneira escorreita: “Na minha vivência, não separo o fazer artístico do próprio movimento da vida. Acredito, inclusive, que a maioria das infâncias evidencia pequenos artistas e cientistas. No entanto, o desenvolvimento da arte a partir de uma perspectiva técnica começou mais recentemente, quando passei a aquarelar em busca de novos resultados, por volta de 2015”.

Nada mais tangível do que a assertiva sobre determinadas crianças que já nascem assinaladas para percorrer as veredas do dom artístico ou mesmo a capacidade face às ciências naturais, engendrando a posteriori pesquisadores de múltiplas áreas. É como se o germe, desde a mais tenra infância, buscasse o despertar de determinadas veredas, como se não houvesse outro caminho. Para tanto, o espírito se organiza paulatinamente até fechar ciclos vinculados a certas áreas do conhecimento.

Assim também vigoram os vetores da arte, da mesma maneira que os cientistas, como se fora uma obrigação, diferente de outros indivíduos que seguem uma linearidade do viver, limitando-se a nascer, crescer, se reproduzir e, finalmente, falecer. Outros buscam certos caminhos que os fazem inventar, descobrir ou se expressar através da arte e dos seus meios, enriquecendo a realidade por meio de um acréscimo ao qual outorga outra forma, outra maneira de ser, outra maneira de retratar aquilo que seria bastante diferente do real presente na sua rotina e na sua entrega de vivenciar aquilo todos repetem, como se fosse um refrão mais do que tedioso.

2.

Sarah

Vejamos como isso se expressa na obra da artista visual Sarah. Ela traduz para o papel ou para as telas sempre os mesmos temas, os mesmos referentes, com um discreto hieratismo: vasos com flores e folhagens, pássaros solitários, ladeados por delicados arbustos. Ou seja, mantém suas preferências em um vocabulário que nada inova, mas também não se permite se repetir, se imitar. Torna-se diferente por uma paleta de tons com nuances delicadas, de bege, creme ou marfim.

Imprime na tela ou no papel uma delicadeza que suspende o retratado a uma planície na qual hiberna e ressurge depois de muito tempo. A cor creme é o resultado da fusão da cor branca com a cor amarela, detendo uma simbólica que resguarda a pureza e a placidez quando límpido. De outra parte, se achega a cor amarela com seu viés de empatia e receptividade. Essa mescla só pode resguardar algo suave e de grande preciosidade

A artista manuseia várias técnicas — lápis de cor, aquarela, óleo sobre tela e acrílica sobre tela — nunca se distanciando de sua paleta de tons puxados ao bege, mesmo que algumas cores, como a azul, o vermelho, o lilás, todas muito esmaecidas, pareçam refratar ou fugir da circunscrição da sua preferência. O uso do delicado desenho e dessas aludidas simbologias traz uma aura um tanto hierática, paralisada, como se houvesse uma espécie de adorno para constar em alguma parede.

Com efeito, essa suposta configuração em direção ao adorno detém, em uma série de vasos com flores, uma graça, uma delicadeza e um requinte. Elas chegam circundadas com molduras duplicadas, determinando uma ousadia que ressalta o vaso com suas flores como fulcro do trabalho, proclamando para onde o olho deve s

Sarah

e dirigir, na medida em que é o cerne de cada conjunto.

Ou seja, seu ponto básico, circundado por dois pássaros em uma simetria bilateral, e o muito que chama a atenção é o amplíssimo silêncio, como se assim fosse uma busca de estancar o tempo, daí essa ideia de não haver movimento em quase nada retratado, tudo, desde menino com duas bananas na cabeça, mulher com pássaro, rodeada de flores vermelhas e folhas verdes, cujos olhos de todos, cujas bocas o desenho nada aparenta um esboço qualquer de movimento, apenas quedam-se a mirar em uma espécie de torpor, perfazendo um semblante que mais parece medir uma longínqua distância, sem nada insinuar ou esboçar qualquer coisa que não seja o não-dizer, a quietude de quem resguarda nenhum segredo.

3.

Sarah

Há uma outra presença, em todo o conjunto da obra de Sarah, que é o triunfo da linha curva, imprimindo uma qualidade feminina em oposição à linha com ângulos retos. Consabido é que os ângulos retos nas diversas formas de arte manifestam-se como o distrito do masculino, por oposição à linha curva, ondulante, orgânica e inquieta.

Essas formas de representar estão inscritas no imaginário e nos regem no cotidiano e em nossas trajetórias de vida, manifestando-se através da mitologia e dos arquétipos que se encontram nas mais profundas locas. São hiatos e lugares de onde emergem para nossa consciência, através das manifestações e expressões da arte ou de outros meios, tais como a linguagem que nos organiza e nos ordena a ser e estar de determinadas maneiras.

Ora, essa assertiva dirá, no nosso caso aqui, como perfazendo planos e cores de uma delicadeza, lançando-se para os lados do que resguarda a calma ou o silêncio, diferente da inquietude que se move procurando  direções de ventos em uma procura de lançar-se à procura de rumos que nem sempre se sabe do que se trata ou sopra como ventania sem rumo.

Sarah

Em suma, mais vale estar quieto em seu estado de mudez. Não que queira obliterar nada, ou que queira fazer do silêncio um subterfúgio para esconder determinadas circunstâncias, nem que o silêncio esconda certos segredos, certas formas de ser, preferindo uma quietude que não passa de resguardar-se, para deter o bote da surpresa.

Com efeito, é preferível esse tom bege que permeia toda a obra da artista visual Sarah, resultado das bodas do branco da paz e da singeleza do amarelo. Eis aqui o magnânimo do silêncio, através dos olhos, por meio da boca, configurando um semblante de rara beleza, de fina estampa.

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