17 de abril de 2026

Assis Costa e as muitas maneiras de dizer a realidade

O silêncio em teu seio é prata
a sofrer o lavor
minucioso do tempo.

Henriqueta Lisboa

1.

 

Assis Costa

Assis Costa (Currais Novos, 01.03.1977) teve como mestre o pintor João Antônio. Esses estudos versavam sobre o desenho, a pintura a óleo, a pintura acrílica e mais outras técnicas que, posteriormente, vieram se somar a quem, por si mesmo, conseguia através do que pulsava no seu interior: a arte de qualidade. Malgrado seus estudos de arte acadêmica, o que indigitam como clássica, não conseguiu desenvolver uma exacerbada paixão pelo estilo que mais se avizinha da realidade, ao pintar a dinâmica onde habitamos e somos capazes de suportar as marcas do tempo nas rodagens da vida, sempre em sua pressa, sempre pulsando ou se dando a posar em retratos imotos, como se fossem personagens, como se fossem naturezas-mortas, paisagens exuberantes ou aglomeração de pessoas.

Enfim, o desenho acadêmico é bastante dúctil, no sentido de que detém uma flexibilidade capaz de alcançar as diversas formas de retratação, tanto no que diz respeito ao que a tradição herdou e perdurou (retratar figuras humanas de maneira realista), quanto no que concerne às formas válidas da contemporaneidade (Cubismo). O próprio artista admite seu gosto pelo Impressionismo e pelo Cubismo, ambos presentes na sua obra.

Porém, o mito que circunda o artista — seu mito fundante —, encontra, como se fosse uma invariante, hiatos ou nacos do cotidiano, preenchidos por festas populares ou mesmo individualidades. As telas que expressam retalhos do cotidiano ou formas de viver e de se comportar, caracterizam-se quase sempre por desenvolver um traço sutil, íntegro, de vera. É aqui que ele se distancia da arte naïf, na qual as pinceladas não detêm uma consciência de quem estudou com afinco o desenho. Mesmo vistas a distância, ainda perdura essa preocupação de expor com acuidade toda a dinâmica do evento, da festa, da feira.

2.

Assis Costa

Gostaria de, aqui, fazer uma pausa para discorrer acerca de duas telas de uma beleza ímpar. Assim, também, o artista confessou seu apreço pelo Impressionismo. (Passeio no Totoró). O traço lembra fortemente as pinceladas do estilo histórico Impressionismo. A cor verde foi distribuída no primeiro plano, o da modesta residência rural, com um frescor que passa segurança à mulher de sombrinha com uma criança. Ao que parece, vem visitar essa casa logo à sua frente. O formato é um triângulo equilátero, ascendendo até o cume da pequena serra. Inclusive, a vegetação é mais escura, sugerindo a presença de árvores e arbustos com mais tempo de crescimento.

O enquadramento do recorte de uma paisagem expressa uma simplicidade cujo êxito nos chega como uma expressividade custosa de se conseguir. Tudo parece claro, não sugere um enigma ou algo de árdua interpretação. É um trabalho artístico que se apresenta de maneira nada intricada, pois se rege através de elementos familiares encontrados nas vidas simples. O que agrega para ousar uma singularidade são as pinceladas evocadoras de Monet, por exemplo.

3.

Assis Costa

Em decorrência de o artista ter feito estudos sistemáticos das tradições clássicas da arte ocidental, tais como o desenho acadêmico e a geometria, acabou por ancorar sua obra em uma multifária presença de meios de expressão. Haja vista, como podemos identificar no conjunto das múltiplas séries em vários estilos que não apenas pertencem à História da Arte, mas, sobretudo permanecem com um forte vigor conduzindo alguns artistas visuais a realizar uma empreitada que jaz como uma solução de continuidade.

Quero dizer de uma mescla trazendo, por exemplo, uma vanguarda do século XX, com suas propostas de diferenciação do usual na pintura do Realismo (século XIX), mas não permanece nisso. Seria démodé, ultrapassado. O interessante é demonstrar valia quando se é capaz de plasmar uma obra de arte por meio de uma síntese entre o que concerne a um período e usar superposições inerentes à contemporaneidade, ou seja, compreender o passado como integrante, interagindo com as formas do nosso Espírito da Época (nossa forma de sentir, representar, se comportar ou o viés de onde colocar o afeto).

Sendo assim, necessário se faz uma fusão capaz de gerar um terceiro — deixa de ser apenas um — bem mais condizente com o que somos no atual tempo. A arte reflete seu tempo. Nunca foi diferente.  Existem os “poetas fortes” (Harold Bloom), aqueles que a posteridade terá como referência de, se não superar, pelo menos acrescenta algo ao original na feitura do seu poema, dando continuidade à evolução de formas que caracteriza a lógica das transmutações da arte em cada época.

Para retermos um exemplo bem nosso, podemos evocar a Poesia Concreta, surgida no Brasil na década de 50. Estávamos no meio do século, duas grandes guerras, o avanço tecnológico fazia saber que era irreversível; houve um avanço do analógico (visual) sobre o digital. As formas de afeto tomaram outros rumos, o amor romântico arrefeceu, contrapondo maneiras mais objetivas e calcadas na razão ao se relacionar.

Essa totalidade de mudanças veio com fúria e grande pressa no seu avanço de instaurar uma nova ordem, uma nova maneira de enxergar o que nos circunda. Em suma, eis as razões da nova poesia que surgiu. Dificilmente um poeta hoje em dia não faz uso do branco da página como suporte a mais, na construção do poema.

E mesmo há uma corrente de poesias que nem sempre faz uso da letra do alfabeto (digital), bandeando-se para a figura, a colagem (analógico), lançando-se como proposta ao leitor para que venha e participe da construção do poema, que não seja imoto, inerte, mas inclua-se no fazer e acrescente eventuais sentidos. A cidade do Natal (1960) consagrou-se como um dos mitos fundantes do Poema Processo, capitaneado por Falves Silva, J. Medeiros, Anchieta Fernandes, Moacy Cirne, Dailor Varela, Bianor Paulino, Avelino Araújo etc.

O Poema Processo é uma espécie de lugar para onde toda uma sorte vetores estéticos confluíram, fundindo linguagens que hesitam entre a Semiótica, a Pintura, o Desenho, a Colagem, a Linguística e tudo o que vigora como possibilidade de arte na contemporaneidade.

Ainda não encerrei. Retomando o crítico americano Harold Bloom, há um livro chamado A angústia da influência, no qual discorre acerca de como alguns poetas escrevem uma obra de grande envergadura estética, chantando sua marca de tal monta que se inscreve como antes e depois dele. Assim, os poetas pósteros sentirão a “angústia da influência”, causando esse fenômeno em todos que tiverem acesso aos melhores da sua época. Para alguns, que definem a importância daquele, resta não imitar, mas buscar alguma vereda até então não caminhada.

Com relação a Fernando Pessoa, temos uma poeta portuguesa como Fiama Hasse Pais Brandão (15.07.1938 – 19.01.2007), que conseguiu ser bastante diferente daquele, escrevendo sem fazer uso do ritmo que Pessoa manuseou em tudo que escreveu. Nesse sentido, abriu uma vereda original e bastante diferente daquele que nenhum poeta conseguiu superar.

4.

Assis Costa

Vejamos com mais vagar uma outra série bastante excepcional na gramática plural do artista. Há um só tema: os santos da Igreja Católica. Tendo em vista as telas retratadas com São Francisco, destaca-se uma com somente o nome do orago. O que desponta como uma obra de grande beleza plástica é quase o absoluto monocromatismo do azul. E que se encontra no solo, no capim baixo que vai adentrando e indo esbarrar nas serranias ao longe, para depois chegar no firmamento. Tão-somente um cão marrom e uma pomba branca refogem à exuberância dessas nuances azuis.

Mas devo dizer que a prodigalidade do azul está no hábito do monge, causando um estranhamento, na medida que os fransciscanos vestem marrom. Contudo, nada impede de fruirmos essa prodigalidade do azul, proclamando para compreender que aqui temos uma obra de arte e não somente um santo, haja vista a empatia que o inusitado nos traz, como se fosse algo espirituoso que logo nos chega à primeira vista.

Da série de quatorze santos, é interessante remarcar o que caracteriza como integrando esse naipe que a tradição resolveu chamar Sagrado. Está bem à vista o predomínio da linha curva e a exiguidade dos corpos, cuja estrutura remete às esculturas encontradas nos arcos das três portas das igrejas góticas. Parece que o caráter esguio de um corpo magro conduz a um simbolismo no qual o corpo físico, a matéria, tem pouca importância face ao espírito, lugar onde deve ser trabalhada a busca de uma eventual santidade, no sentido de deter compaixão pelo próximo e ser limpo da cabeça, assim como se comportar de uma lídima maneira que nos conduza a sermos mais serenos e sensatos.

Assis Costa

Penso que a obra-prima dessa série é a tela “Cristo no Monte das Oliveiras”, não apenas pelo emaranhado de linhas sinuosas do corpo de Jesus, assim como a posição horizontal da cabeça, contemplando a lua em minguante, enquadrada em um losango.

Vamos nos deter sobre a tela e o que vem a causar seu efeito estético, para além do que narram os “Evangelhos”. Em arte, isso interessa muito pouco. Devemos nos deter no que concerne ao significante, não ao tema, ao significado. Retornemos às linhas que dizem respeito à geometria. Somente o personagem central está configurado por linhas curvas; suas vestimentas e o corpo volteiam no sofrimento de saber por antecipação do seu destino.

Com efeito, o contorno do corpo é uma moldura composta por linhas retas, erguendo-se até um arbusto ao lado, simbolizando a oliveira. A solidão desse homem está estampada no seu semblante. Um homem de dores. Até a lua reflete um losango. O que está em evidência é o monocromatismo, com várias nuances; apenas o corpo não acompanha o sombrio momento de uma versão mítica de um personagem cuja tragédia está prestes a suceder. É curioso como ampara a si mesmo, sentado no chão com os pés juntos e a cabeça estranhamente horizontal.

Podem até achar que é capricho de quem escreve, de quem se habituou a contemplar obras de arte, mas não só isso, também trabalha com um gênero escritural chamado Ensaio (está presente a hermenêutica, buscando uma profundidade, qual a metáfora implícita nas imagens presentes, se existe um valor simbólico no que está sozinho ou justaposto), bem diferente daqueles que escolheram o Artigo, para escrever sobre um artista.

Quero falar da Opus magnum do acervo do artista visual Assis Costa. Mesmo sendo difícil, haja vista uma grande quantidade de obras feitas no capricho e em diferentes técnicas usadas, ademais com maestria operar o uso da cor, das résteas, das sombras, sejam em figuras muito miúdas e seus detalhes ou em maiores proporções, ao retratar a figura humana.

5.

Assis Costa

(Aconteceu por acaso, enquanto pintava com aquarela e bebia vinho na casa de um amigo, e por brincadeira disse que iria pintar com vinho, e assim o fiz. O tipo de vinho? Todos os tipos de tinto, mas já vi na Internet que alguns artistas usam também os brancos. O papel? Canson para aquarela. A Miolo foi um dos patrocinadores da minha exposição “A vindima em vinho tinto”, ocorrida no SPA do Vinho, um hotel que fica no meio do parreiral da Miolo. Depoimento de Assis Costa).

Há duas telas, muito interessantes, que foram pintadas com vinarela, ou seja, com vinho. Como fica o vinho sobre papel? Não muito diferente do efeito da aquarela, tendo em vista a possibilidade de observar a delicadeza, ao que parece, do vinho Bordeaux sobre o papel. Pelo fato de o artista deter o domínio o desenho clássico, as proporções dos dois trabalhadores macerando com os pés as frutas em plena maturidade são notáveis.

Na verdade, causa um efeito plástico de inimitável beleza. Imagina-se a cadência dos quatro pés a alternar em um ritmo que lembra uma espécie de dança masculina. A outra tela é um enquadramento no qual uma imensa videira toma todo o plano à frente, como pessoas colhendo as uvas maduras das parreiras, e em cujos caminhos seguem paralelos, com suas uvas maduras sendo colhidas, em direção a um grande edifício, SPA do Vinho.

6.

Assis Costa

Diante de uma coleção de trabalhos minuciosamente elaborados, por uma pessoa eivada de responsabilidade com o seu ofício, se me perguntassem qual seria a Opus Magnum, não hesitaria em apontar da série Mulheres, a tela “Lavadeira”. Retirada das tarefas do dia a dia, das obrigações que as pessoas modestas se sentem na obrigação de cumprir chova ou faça sol, não há o que reclamar, mas simplesmente se ocupar como quem obedece, com estoicismo, às tarefas, nesse caso, pertencente às donas de casa.

A tela reproduz uma mulher de costas, lavando roupas, um cachorro sob sua sombra, com uma bacia de zinco e dois galões da mesma matéria para conduzir água. Um sol de extrema transparência, como se estivesse a pino, resplende de uma maneira bastante transparente, tudo torna nítido, luminoso, e com uma transparência que traz seu contorno e sua cor para o verdadeiro, capaz de mostrar a realidade, deixando suas sombras e seu zinco, à guisa de espelho, brilhar com intensidade, sobressaindo o todo da paisagem em seu silêncio de uma mulher em uma tarefa cotidiana.

Não há como se omitir em elogios às capacidades pictóricas de Assis Costa. Falo no que diz respeito a tudo o que concerne à gramática de plasmar uma tela com seus necessários elementos, a partir do que se escolheu como referente (tema). Logo de início, falo dessa tela, observamos a dificuldade de efetuar o desenho debaixo de um límpido sol que não apenas resplende clareza, mas lança suas interrogações para eventuais perguntas, quer queira ou não. Um quadro com viés estético, lança alguns vetores em direção às metáforas ou elementos simbólicos presentes no lastro de formas, cores e alguma inovação que porventura exista.

Pintar uma tela expressando uma personagem sob um sol causticante, à beira d’água, no qual tudo encontra-se em um silêncio assertivo, causado por uma luz incapaz de esconder poucas sombras ou escondendo alguma nuance, acredito que é extremamente complicado, na medida em que, se fosse um desenho acadêmico, reafirmaria seus contornos, suas sombras e confiança no fato de alguém ser um bom pintor.

Talvez umas das coisas mais intratáveis na arte da pintura seja lidar com a transparência. Falo no sentido de captar a luz solar quando se derrama sobre a paisagem, ou em uma nitidez sobre uma personagem, ancorando-a em uma presença sem ambiguidade, apenas sendo um causticante sol, nada tendo como referência, tão-somente deixando a claridade existir em uma placidez luminosa. Diferente de quando ocorrem naipes de cores em uma paleta que, com suas variações, efetivam contrastes ou adentram em certas nuances sobre outras ou suas sombras.

Assim sendo, há a responsabilidade de um sol em exercer uma atitude cáustica, buscando destacar cada objeto individualmente, recolhendo-o na sua funcionalidade. É o caso da bacia de zinco junto com os dois galões. Um olhar simples se detém sem maiores questões, mira e compreende o motivo pelo qual está ali. Por sua vez, a mulher se protege com o boné; à frente a água parada, como a contemplar a roupa quarando.

Há uma coisa ainda a ressaltar: o silêncio que enquadra a mulher, a água e seus objetos conduzidos pelo trabalho. Tudo conflui para que nada desfaça o ato de lavar roupa em uma concentração de um sol testemunha dessa bela cena rural. Poucas vezes vi um artista captar com tal propriedade um sol tão abrasador, tão capaz de permitir a luz, tão límpido ao marcar com intensidade as cores e as poucas sombras, tão nítido para que os raios do sol não recebam interferência nenhuma, nem do ar poluído, nem das sombras impressas pelos edifícios nas cidades.

Essa tela lembra um canto de trabalho interpretado por Clementina de Jesus: Ensaboa mulata, ensaboa, / Ensaboa, estou ensaboando… Como já disse, Assis Costa é múltiplo em todos os sentidos, do significante ao significado (a forma e o conteúdo).

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