24 de junho de 2026

Por que um eslavo sérvio tocaria country americano? Leia a resposta de Uros Jojic, da banda Backsprint

O relato a seguir é de autoria de Uros Jojic, artista eslavo sérvio de Belgrado. Ele conta (sem filtros) como o country influencia na sua arte, e como ele mescla esse gênero norte-americano às suas raízes europeias. Também apresenta a sua banda, a Backsprint, com a qual vem lançando canções que exibem o resultado dessa quebra de fronteiras culturais. Por fim, reverencia a cultura do povo brasileiro. Boa leitura!


Primeiro, a pergunta óbvia: o que um eslavo sérvio ortodoxo está fazendo tocando country americano?

Resposta curta: porque country é o gênero mais honesto que eu conheço, e honestidade não tem passaporte.

A resposta mais longa precisa de mais fôlego.

Eu cresci ouvindo blues rock inglês. Toquei bateria por 20 anos antes de passar pro vocal. Meu DNA musical nunca ia ser puro em nada. Mas quando comecei a compor minhas próprias músicas — compor de verdade, não só tocar — eu voltava sempre pro country. Não a versão radiofônica de Nashville. A linhagem mais antiga, e seus herdeiros modernos: Waylon, Willie, Cash, e depois Colter Wall, Tyler Childers, Zach Bryan, Chris Stapleton, Jason Isbell, Whiskey Myers. Outlaw country. Americana. Compositores que escrevem sobre a vida de verdade.

O que o country me deu e nenhum outro gênero deu: permissão pra dizer as coisas de forma direta. Sem se esconder atrás de firula. Sem distância irônica. Você canta sobre trabalho, amor, fé, morte — as coisas que importam — e canta sem pedir desculpa. Isso é mais raro do que parece. A maior parte da música moderna é sofisticada demais pra ficar dentro de um sentimento. O country fica dentro dele.

Aqui vem a parte que surpreende as pessoas. Essa sensibilidade não é estranha pra um sérvio. A gente tem a nossa própria tradição de canções sobre sofrimento, terra, perda e fé — sevdah, baladas folclóricas antigas, canções cantadas nas kafanas quando a garrafa já está pela metade. As formas são diferentes e as melodias são diferentes, mas a permissão emocional é a mesma. Quando eu ouço Colter Wall cantando sobre cowboys morrendo nas planícies, eu não sou um turista. Eu reconheço aquele sentimento no meu sangue.

É isso que a gente está tentando botar em disco com o Backsprint.

Nossa filosofia de gravação é parte do argumento. Sem overdubs. Sem correção de afinação. Sem click track. Cinco pessoas numa sala, tocando a música até sair um take que respira. Nosso produtor, Oliver Jovanović, é quem nos mantém honestos nisso. Você ouve o ar da sala, ouve as imperfeições, ouve cinco seres humanos se escutando uns aos outros. Num mundo em que a maior parte da música é montada numa grade e polida até não sobrar nada vivo dentro dela, a gente está indo pro outro lado. Isso é uma sensibilidade country, e também é uma sensibilidade europeia do velho mundo. Os discos eram documentos. A gente quer que os nossos voltem a ser documentos.

Um exemplo rápido de como os dois mundos se encontram. Nosso single mais recente, “Roll That Stone”, é construído em cima do mito de Sísifo — o homem condenado a empurrar a pedra morro acima pra sempre. Camus disse que temos que imaginar Sísifo feliz. É o pensamento mais europeu que existe. A gente escreveu uma música de country rock sobre isso. A forma é americana, o pensamento por trás é balcânico, e o resultado é uma canção sobre encontrar alegria na luta em si, não no destino. É esse tipo de disco que a gente está fazendo.

“Inside You”, que sai no dia 28 de abril, é outro ângulo do mesmo projeto. Uma música mid-tempo sobre um relacionamento longo e desgastado, com vocal principal dividido com Ksenija Milošević, abrindo num registro vocal grave. Colter Wall e Zach Bryan estão na sala nessa — mas o Depeche Mode também está. É uma música country escrita por alguém criado no dark pop europeu. Essa contradição não é um defeito. É justamente o ponto.

A gente não é uma banda de Nashville fingindo ser de Belgrado. A gente é uma banda de Belgrado que encontrou um lar emocional num gênero que por acaso é americano. O passaporte não importa. O sentimento importa.

O que me leva ao Brasil. De todos os lugares onde essa música podia pousar, o Brasil tem um significado especial. Os brasileiros têm música e ritmo no sangue — vem naturalmente pra vocês de um jeito que não vem pra maior parte do mundo. A música faz parte do caráter nacional de vocês de um jeito que pouquíssimos países no mundo podem reivindicar. Ser ouvido num lugar desses, e ter ouvintes brasileiros se conectando com o que a gente está fazendo, é um privilégio de verdade. Isso me mostra que as músicas estão fazendo o que a gente esperava que fizessem. Atravessam.

É esse o country de Belgrado.

O artigo foi escrito no final de abril de 2026.

Sobre Uros Jojic, líder da banda Backsprint: Nascido em 1976 (Belgrado, Sérvia), o artista deu seus primeiros passos profissionais na música aos 13 anos, quando formou sua primeira banda. Durante duas décadas se dedicou à bateria, até perceber no canto a principal força para expressar suas composições. E embora seu primeiro lançamento oficial seja recente, as canções agora apresentadas foram escritas há cerca de dez anos. Nelas, ele une o blues rock britânico ao country, combinando suas raízes europeias com a música norte-americana.

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