24 de janeiro de 2026

[CONTO] “Pisca-pisca”, de Brendow H. Godoi

A oficina tava cheia pra cacete. Fiquei até tarde retificando o motor de um Voyage 89. O dono daquela merda era doido. Era a quinta retífica e nada do negócio vingar. Carro velho não dá liga na retífica.

— Seu Moacir, eu posso ir? Já tá tarde, e o senhor sabe…

— Sinto muito, mas hoje não vai dar. Bota esse carro pra andar. E quando terminar, limpe as ferramentas.

— O senhor tá indo embora? Vai me deixar aqui sozinho?

— Tchau. E feliz natal.

Seu Moacir era o dono da oficina. Era casado com uma coroa com cara de puta. Ela vivia dando mole para os mecânicos. Certa vez, um ex-funcionário saiu corrido de lá. Foi demitido de uma hora pra outra. Era bom de serviço, mexia na parte elétrica. Mas o boato que rolou foi que ele comeu a mulher do Seu Moacir. Mexeu na parte elétrica dela e ficou sem emprego.

Antes que ele fechasse o escritório, limpei a graxa no macacão e corri:

— Pelo amor de Deus, Seu Moacir! O senhor sabe. Me deixa ir!

— Tome vergonha na cara, homem! Barbado e com essas frescuras!

Eu me senti humilhado. No primeiro dia na oficina tomei coragem e chamei o filho da puta num canto. Fui sincero. Contei sobre o pânico de andar sozinho tarde da noite. “Faço o que for, mas só posso ficar no máximo até às sete. Minha mãe foi morta quando voltava do trabalho. Tenho fobia de andar sozinho de noite”.

Num primeiro momento, ele se mostrou tocado com a minha história. Foi solidário. Disse que tudo bem, a oficina fechava às seis. Nas raras ocasiões em que fosse necessário funcionar até tarde, ele designaria outro funcionário. Mentiroso do caralho.

+

Terminei o carro às dez e meia. Minhas pernas tremiam. Boca seca, mão fria. A pressão deu uma bambeada quando fechei a oficina. Quase desmaiei.

Fiz o nome do pai e falei “amém” com o estômago. Saí andando de passo duro. O cu trancado. Virei uma esquina. Duas, três. Era véspera de natal e tudo estava deserto. Tudo era silêncio. Tudo tinha cheiro de silêncio. Famílias sem mortos ceavam cacos de vidros em largas mesas de sucupira hidratada. Eu só queria chegar em casa e comer meu Chester Perdigão recheado com solidão.

+

Faltavam umas quatro quadras quando senti um beijo gelado na nuca. Minha coluna vertebral petrificou dentro das costas. “Fica quietinho senão eu vou te furar todo”.

O beijo era a boca de um revólver. “É um assalto, gordão”. Era voz de mulher. Porra, era voz de mulher!

— Passa tudo pra cá. Vamo, caralho! Tu acha que eu tô de onda?

Pensei na minha mãe morta na calçada. Furada de bala. Jorrando sangue pela jugular.

— Te orienta, gordão!

Entreguei a carteira, os documentos, a chave da oficina e a minha pedra da sorte. Sônia, era o nome da pedra.

— Eu só tenho isso, moça. Juro por Deus, eu só tenho isso!

Ela abriu a carteira. Nenhuma viva alma na rua. Os policiais estavam na ceia de natal do batalhão. Minha mãe, no céu. Deus, com a minha mãe. Eu estava sozinho.

— Qual é a senha do cartão?

— Vinte e um sete dois.

— Você não tem foto dos filhos na carteira?

— Eu não tenho filhos.

— E a foto dessa mulher aqui?

— É a minha mãe.

— Mete o pé, gordão. E não olha pra trás.

Saí trôpego. Respirei fundo e desobedeci a ordem. “Moça”. Ela me olhou puta.

— Mete o pé! Tu é doido?

— Tem como você me acompanhar até em casa?

— O quê?

— Eu tenho medo de andar sozinho à noite. Pelo amor de Deus moça, me acompanha até em casa!

— Você tá me tirando? Olha que eu te mato, panaca.

— É sério, moça. Eu não consigo dar um passo sequer. Meu coração tá acelerado, meu peito tá doendo. Acho que… acho que eu vou ter um…

Caí no chão. Ela me amparou, meio ressabiada. De perto, pude vê-la. Era uma menina. Rosto sujo, mas bonita. Tinha o cabelo tingido de azul.

— Tu tá falando sério mesmo?

— Por favor, moça. Eu não moro muito longe daqui. Por tudo que há de mais sagrado.

A menina olhou para os lados. Suspirou seco. “Se você tiver de graça, eu te mato”.

Agarrou-me pelo antebraço e puxou. Caminhamos em silêncio até a minha casa.

+

— Eu moro ali. No portão sem tinta.

Nada foi dito.

— Por que você tá nessa vida?

Nada foi dito de novo. Cusparada no chão.

— Você é muito nova. Tem o que, dezoito anos? É bonita.

Olhos nos olhos.

— Você precisa conhecer a palavra de Deus. Jesus salva. Procure uma igreja. Deus tem um plano pra você.

A boca dela deu um tique nervoso. A luz do poste piscou. Acendeu de novo, mais forte. Pude vê-la outra vez. Era uma menina mesmo. De moletom e calça rasgada, raquítica. Devia ter anemia.

— Menina, sai dessa vida. Você não precisa dessa merda. Olha só pra você. Pode ser qualquer coisa. Médica, modelo, engenheira, advogada. Qualquer coisa.

Senti que meu discurso estava tocando seu coração. Continuei:

— Se precisar de ajuda, eu posso te auxiliar. Olha, é só querer, é só…

Pá.

Ela me deu um tiro. Pegou em cheio no joelho. Caí perto da boca de lobo. Sangrei feito um porco, sentindo o fedor do esgoto. Um vizinho abriu a janela procurando o barulho e me viu rolando no chão. Fechou a cortina e acendeu o pisca-pisca do jardim da frente. Era noite de natal e o amor estava no ar.

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