23 de setembro de 2026

[CRÔNICA] “O poder bélico da literatura nacional”, de Brendow H. Godoi

As coisas são do jeito que são, porque assim precisam ser. De acordo com o IBGE (2018) 6,6% dos brasileiros são analfabetos. O último levantamento realizado pelo instituto Pró-livro (2020) atestou que pouco mais da metade da população possui hábitos de leitura (52%).

Vale a pena ressaltar, claro, que nesta porcentagem também estão inclusas as pessoas que leram meio livro, pessoas que leem jornais, revistas de fofoca e toda a sorte de palavras ajuntadas em frases.

A leitura é revolução. Cada livro lido é um questionamento que floresce das ventas, dos rins e dos tornozelos de quem lê. O leitor que mergulha num oceano literário dificilmente emerge a mesma pessoa.

E bom, a literatura brasileira, por sua vez, cumpre com o ideal de revolução (e de libertação). A enigmática, rebelde e sanguínea literatura brasileira é uma ameaça às algemas da intelectualidade.

Para compreender essa assertiva, basta colocarmos à mesa “Grande Sertão: Veredas”, “Capitães de Areia” ou “A Hora da Estrela”. Acrescentemos, pois, a cólera de Lima Barreto e a violência do “Poema Sujo”, de Ferreira Gullar.

Em outras palavras, é preferível termos um menino na favela segurando uma AK-47 do que este mesmo menino segurando um livro na biblioteca. É mais barato, é mais seguro, é mais cômodo, dá mais voto. Armas se combatem com armas. E uma mente alada, se combate com o quê?

Recentemente surgiu a proposta de se taxar os livros brasileiros. Para quem não sabe, todos os impressos e periódicos produzidos no Brasil são isentos de impostos. Isto vale para o material utilizado na produção até à venda final para o leitor.

Por que deixar os livros mais caros? Por que fomentar a desinformação, a precariedade de educação e empecilhos ao acesso à cultura? Quem é mais perigoso às instituições brasileiras de poder? O traficante do morro ou Guimarães Rosa? O homicida periférico ou Jorge Amado?

Eu particularmente, não sei responder.

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