8 de setembro de 2026

“Minha jornada musical entre o Brasil e a Alemanha” – Um relato de Juliana Blumenschein

Sou Juliana Blumenschein, cantautora alemã-brasileira, nascida em 1992 em Freiburg, no sul da Alemanha. Filha de brasileiros de Goiânia, meus pais migraram para a Alemanha em 1982 com a ambição de explorar novas possibilidades através da música. Estudantes de piano erudito em um conservatório em Goiânia, eles compartilhavam o sonho de conhecer mais do mundo.

A mudança aconteceu sem que meus pais soubessem ao certo se conseguiriam um lugar para estudar. No entanto, quando meu pai foi aceito em uma universidade de música na Alemanha, o plano inicial de voltar ao Brasil acabou se transformando em uma vida permanente no país europeu, onde eu e meus irmãos nascemos e fomos criados.

Em nossa casa, a língua era sempre o português. Meus pais fizeram questão de que aprendêssemos bem o idioma e de mantivéssemos uma ligação forte com nossas raízes, levando-nos todos os anos para visitar a família em Goiânia. Essa experiência foi fundamental para minha formação: desde pequena, senti-me profundamente brasileira. Na escola, no jardim de infância, fazia questão de dizer com orgulho que era brasileira, e identificava-me com o calor e a emoção da cultura do Brasil.

Ao longo da minha infância, porém, vivi dividida entre os dois mundos. Entre a segurança e estabilidade da Alemanha e o fascínio pelo Brasil. Até os doze anos, jurei que me mudaria para o Brasil aos dezoito, mas, à medida que amadurecia, compreendi que as questões eram mais complexas. Contudo, meu amor pela música foi o que realmente me aproximou do Brasil, levando-me a um intercâmbio em Salvador, em 2015.

A música sempre foi parte do meu universo familiar, e desde cedo passei por diversos instrumentos – violino, piano, canto lírico – até encontrar no canto popular o meu caminho. Em 2011, iniciei meus estudos formais de canto jazz na “Hochschule für Musik und Darstellende Kunst” em Mannheim. Foi lá que descobri o intercâmbio com a UFBA em Salvador, que, inicialmente era destinado especialmente para percussionistas e aos poucos foi abrindo espaço para outros instrumentistas.

Em 2015, tive a honra de ser a primeira cantora a participar deste programa, com uma bolsa que me permitiu viver por seis meses em Salvador. Essa experiência foi transformadora em minha vida.

Minha relação com a música brasileira começou na Alemanha, com a Bossa Nova e o Samba-Jazz e artistas como Tom Jobim, João Gilberto e Elis Regina despertaram meu interesse pelo jazz e me inspiraram a estudar canto jazz. Contudo, foi em Salvador que descobri novas dimensões da música brasileira.

Fui apresentada à riqueza da música afro-baiana e à efervescente cena artística da cidade. Tive aulas de percussão e pandeiro, conheci professores e artistas locais, como Ana Paula Albuquerque, Rowney Scott, Ivan Huol e além disso fiz amigos valiosos, incluindo Aiace, Alexandre Vieira e Felipe Guedes. Essas amizades perduram até hoje e são responsáveis por grande parte do que sei sobre música brasileira.

A experiência em Salvador não só marcou meu desenvolvimento artístico, mas também estabeleceu, ainda mais, minha ponte emocional com o Brasil. Desde então, voltei ao país sempre que pude, organizando viagens em 2017 e 2019 para me reconectar e realizar shows.

Em 2019, concluí o mestrado em canto jazz na mesma universidade em Mannheim, onde estudei a fundo a técnica e a expressividade que tanto me fascinam. Ao longo dos anos, fui consolidando minha carreira na cena musical alemã, participando de diversos projetos que exploram diferentes estilos, desde MPB e soul, até o jazz, com um repertório que inclui tanto covers quanto músicas autorais.

Em 2021, dei um importante passo na minha carreira, ao lançar meu primeiro álbum, “A Vida”, com composições em inglês e português, refletindo a dualidade cultural que sempre me acompanhou. Em 2023, lancei “In Between”, um trabalho em duo com o guitarrista alemão Florin Küppers, no qual exploramos musicalmente essa sensação de estar “entre” dois mundos, uma característica central da minha identidade artística.

Após a pandemia, em 2024, recebi apoio financeiro de meu estado na Alemanha para realizar uma série de shows autorais com músicos da cena musical de Salvador, incluindo a abertura da Jam no Mam.

No período em que estive longe do Brasil, compus uma canção inspirada por essa saudade que sempre me acompanha, que será lançada no dia 15 deste mês de Novembro. Essa música é uma homenagem à minha ligação com Salvador e aos sentimentos complexos de viver entre duas culturas.

Em 2024, tive a alegria de finalmente gravá-la na cidade, ao lado dos amigos Jordi Amorim e Sebastian Notini e com a participação de músicos de Salvador e da Alemanha. As vozes de Ângela Velloso e Isabela Meirelles também enriquecem essa gravação, que representa muito bem essa minha jornada enquanto artista: uma mescla das culturas e sons que moldaram minha identidade.

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