30 de setembro de 2026

A PIRATARIA DE AUDIOVISUAIS NA ERA DO STREAMING – Uma loucura!

(Crédito na imagem)

Texto escrito por André Sobral, em uma análise da atual situação da pirataria no mundo, trazendo um olhar crítico e possíveis soluções.

Produtoras, profissionais, governo e os próprios consumidores, todos pagamos um preço caro pela pirataria no setor audiovisual. Além de ser crime e perverter toda uma cadeia de distribuição, contribuindo para a diminuição de postos de trabalho e a arrecadação de impostos, o acesso a produtos e programações ilegais abrem espaço para a ação de hackers e o risco de roubo de dados e informações bancárias. 

Essa prática já dura pelo menos duas décadas e não há sinais de que irá diminuir; muito pelo contrário. Se no começo do milênio eram os DVDs piratas que dominavam o comércio ilegal de filmes e séries, hoje esses meios se multiplicaram, seja com as TV Box, as “caixinhas”, muitas vezes vendidas livremente no e-commerce, seja com os sites de programação desviada. 

O fato é que a pirataria acompanhou os avanços da indústria e, com o aumento do consumo de conteúdo audiovisual e o “boom” do streaming durante a pandemia de Covid-19, ganhou novos contornos. 

Antes de 2021, o último estudo sobre o assunto feito no Brasil – pelo Censo, Ibope e PNAD, em 2018 – estimou que operadoras e canais pagos perdiam pelo menos R$ 10 bilhões anuais e governos R$ 1,5 bilhão em impostos. Isso sem considerar a entrada do Netflix e seus concorrentes no jogo. 

Agora, esse prejuízo subiu para R$ 15,5 bilhões, R$ 2 bilhões somente em impostos que deixam de ser arrecadados. Levantamento da pesquisa Business Bureau mostra que 33,5% dos lares brasileiros consumiram pirataria online no último quadrimestre de 2020. O Brasil fica apenas atrás de EUA e Rússia no consumo de audiovisual ilegal. 

Muitos fatores justificam essa escalada da pirataria. Primeiro, a atividade é cada vez mais controlada por organizações criminosas poderosas e difíceis de mapear, que inclusive já coordenam ataques cibernéticos a players do streaming. Em 2017, por exemplo, um coletivo de hackers ameaçou o Netflix de “vazar” 10 episódios inéditos de “Orange Is The New Black” na rede, antes de sua estreia. 

Por outro lado, o audiovisual ilegal só existe porque há quem o consuma. E mudar um hábito tão cristalizado como esse é um trabalho árduo. Atualmente, um fenômeno tem contribuído para alimentar essa prática: a falta de poder aquisitivo do usuário médio de streaming para assinar tantos serviços com conteúdos exclusivos simultaneamente. Pensando no futuro, a solução estaria em algum agregador de todas as plataformas, em um formato inovador e mais democrático. 

SOLUÇÕES

Todo esse cenário tem mexido com as plataformas de streaming, que começaram a tomar algumas providências, ainda discretas. Mas há anos existe um esforço a nível mundial com campanhas contra a venda ilegal de filmes e séries, lideradas principalmente por operadoras e TVs pagas.

Muitas vezes essas ações não surtem efeito devido às próprias leis do país sobre o assunto, pouco rígidas. Isso é relevante devido ao fato de que geralmente os criminosos hospedam os servidores de seus serviços em outras localidades, como países do Leste Europeu. Assim, é importante ressaltar que essa luta é mais viável quando os poderes privado e público trabalham juntos.

No Brasil, o esforço das empresas começa a surtir algum efeito. Além das campanhas junto à Receita Federal, Ministério Público e polícias, a Anatel e a Ancine discutem desde 2020 uma possível regulamentação do bloqueio administrativo de sites que transmitem programações não autorizadas e há discussões sobre notificar por carta usuários desses serviços, como é feito em muitos países estrangeiros. 

Mas além do trabalho de conscientização e do engrossamento das leis, já há formas das produtoras se prepararem do ponto de vista técnico. Alguns serviços de streaming já utilizam marcas d’água em suas produções para ter mais controle das cópias que circulam na etapa de  distribuição. 

Recentemente também tem se discutido iniciativas de blockchain nas cadeias de produção e distribuição de conteúdo audiovisual. Mais conhecida por sua aplicação no setor de criptomoedas, essa tecnologia poderia ajudar no combate a pirataria com um sistema em que as obras são distribuídas por “tokens”, ativos digitais incorruptíveis – lógica similar à dos NFTs no mercado de arte. 

A pirataria é mais um dos tantos paradoxos de nossa sociedade. É crime, segundo a lei; ao mesmo tempo, permanece pairando como algo velado, que todo mundo pratica e finge ignorar os prejuízos. Parece ter chegado a um patamar incontrolável e irreversível, evoluindo ano a ano junto com a indústria, perpetuada pela crença de que o seu combate só beneficia grandes players do mercado. Mas a verdade é que ele é vital também para pequenas e médias produtoras independentes. 

Soluções tecnológicas são uma forma de defesa valiosa para os agentes do setor, mas a verdadeira transformação virá de uma virada de chave na mentalidade dos consumidores, algo que infelizmente precisará ser trabalhado incansavelmente por mais uns bons anos. 

SOBRE O AUTOR DA REPORTAGEM

*André Sobral é formado em Direito com pós-graduação em Marketing pela FGV e Direção de Cinema pelo Maine Media College. É produtor da Abrolhos Filmes, com a qual produziu seu primeiro longa, o documentário “Chico Rei Entre Nós” (Joyce Prado, 2020), premiado na 44ª Mostra Internacional de São Paulo. Foi produtor associado de três filmes realizados por meio de coproduções internacionais, entre eles “Call Me By Your Name” (Luca Guadagnino, 2017), indicado ao Oscar 2018. 

O disco que lançou Zé Ramalho

Zé Ramalho sempre foi esse mistério todo. Este misticismo começou a fazer sucesso no primeiro disco solo do compositor nordestino,.

LEIA MAIS

Existe livro bom e livro ruim?

Muitos já me perguntaram se existe livro bom e ruim, eu costumo responder que depende. Se você leu um livro.

LEIA MAIS

A luta da mulher e a importância de obras que contribui nessa jornada

Não tem uma receita básica, não nascemos prontas. Aprendemos com a vida. Diariamente temos que lutar para se afirmar. Porque.

LEIA MAIS

Pedro Pereira: azul que te quero azul

Comer muito mel não é bom; assim,a investigação da própria glórianão é glória. Provérbios 25:27 A pintura de Pedro Pereira.

LEIA MAIS

Podcast Investiga: Cambismo, um crime quase submerso (com Ednilton Farias Meira)

Três afirmações estão próximas de você: (1) talvez você já praticou o Cambismo e muito provavelmente já viu alguém praticar.

LEIA MAIS

O Ventania e suas ventanias – A irreverência do hippie

(Todas as imagens são reproduções de arquivos da internet) A ventania derruba árvores, derruba telhas, derruba vidas. Mas a verdade.

LEIA MAIS

“Sertão Oriente”, álbum no qual é possível a música nordestina e japonesa caminharem juntas

A cultura musical brasileira e japonesa se encontram no álbum de estreia da cantora, compositora e arranjadora nipo-brasileira Regina Kinjo,.

LEIA MAIS

Resenha do filme “O Dia em que Dorival Encarou o Guarda”, de 1986 (por Tiago

Olá a todos! Feliz ano novo! Vida longa e prospera! Bom, a primeira obra do ano se chama “O Dia.

LEIA MAIS

As tradições culturais do Pará e de Minas Gerais se encontram na banda Tutu com

Bruna Brandão / Divulgação Apesar do disco de estreia ter sido lançado em novembro de 2021, a banda Tutu com.

LEIA MAIS

CONTO: O Operário Dedicado e O Regozijo do Aposentado (Gil Silva Freires)

Seo Leocádio era o tipo de homem totalmente estável e mantivera o mesmo emprego durante toda a vida. Se haviam.

LEIA MAIS