7 de outubro de 2026

A história mais absurda da Serenata & Cia (por Fredi Jon)

Por Fredi Jon (Grupo Serenata&Cia) – Em mais de 25 anos criando serenatas e telegramas animados, aprendi que a realidade tem um concorrente muito forte: a imaginação. E, quando alguém quer acreditar, ela faz horas extras.
Em 2004, um famoso mágico de Alphaville me procurou. O pedido era inusitado: queria pregar uma peça em um amigo, Miguel, apaixonado por tudo que envolvesse forças ocultas, amuletos, energias e mistérios. A missão era simples: fazê-lo duvidar… da própria realidade.
A ideia inicial era acontecer num espaço de eventos na Zona Oeste. Olhei para ele e disse: “Se quer parecer verdade, precisa sair de cena.” Foi aí que surgiu o Parque da Aclimação, cenário de tantas serenatas e, naquele dia, palco de um espetáculo completamente diferente.
Convidei meu amigo Ferraz, ator talentoso e absolutamente sem vergonha de passar frio por uma boa história. Pintou o rosto de branco, vestiu roupas rasgadas e coloridas, mergulhou as mãos e um enorme osso — reservado dias antes por um açougueiro paciente — em gelo.
No fim da corrida, Ferraz surgiu silenciosamente.
— Não se assuste… só você consegue me ver. Seu amigo não pode.
Enquanto o mágico fazia um teatro digno de Oscar, dizendo que Miguel estava ouvindo vozes inexistentes, Miguel respondia convicto:
— Como assim? Ele está aqui!
Perto dali, escondemos um círculo formado apenas por pares de sapatos, como se espíritos tivessem deixado os corpos para uma reunião sobrenatural. Quando Miguel perguntou ao amigo se ele também via aquilo, ouviu exatamente o combinado:
— Você está maluco. Vamos embora daqui!
Mas o melhor ainda estava por vir.
Ferraz entregou o osso congelado.
— Este é seu amuleto da prosperidade. A partir de hoje, você realizará o que desejar.
Naquele instante apareceu uma linda corredora… que, por coincidência conveniente, era uma atriz amiga nossa.
— Peça um beijo.
Miguel pediu.
Ela beijou.
O mágico fingiu espanto. Miguel ganhou uma prova irrefutável de seus novos poderes. Ferraz ainda encerrou o ritual recitando palavras completamente inventadas, com toda a solenidade que um bom charlatão artístico merece.
Dias depois recebi a ligação do contratante.
— Fredi… ele acreditou em tudo. Carrega o osso para todo lado.
Nossa intenção era reaparecer depois e revelar a brincadeira. A vida, porém, não marcou esse segundo ato.
Às vezes me perguntam qual foi a maior mágica que já vi.
Não aconteceu num palco. Não envolveu cartas nem coelhos.
Foi assistir um homem acreditar, de todo o coração, que um pedaço de osso de açougue, congelado por um ator fantasiado de espírito da floresta, havia mudado seu destino.
Desde então, passei a desconfiar que o objeto nunca foi o verdadeiro amuleto.
O poder sempre esteve na extraordinária capacidade humana de acreditar. E, convenhamos, nenhuma ilusão é mais convincente do que aquela que nós mesmos decidimos tornar verdadeira.
Conheça nossa arte da serenata – serenataecia.com.br / 11 99821-5788

Newsletter

ENTREVISTA – Conversa Ribeira e seu Brasil profundo

Três artistas de cidades interioranas, Andrea dos Guimarães (voz), Daniel Muller (piano e acordeão) e João Paulo Amaral (viola caipira.

LEIA MAIS

Djalma Paixão: de quando a arte busca sua marca e seu número

Os domínios da luz, onde as potênciasse integram no equilíbrio de uma formaos domínios da luz, parque tranquilosobrevoado de aspiração.

LEIA MAIS

Artistas destacam e comentam álbuns de 2023 e de outros anos

Sob encomenda para a Arte Brasileira, o jornalista Daniel Pandeló Corrêa coletou e organizou comentários de onze artistas da nova.

LEIA MAIS

Com a IA, o que sobrará da literatura?

Dá para fazer livros razoáveis com Inteligência Artificial. Há casos de autores com centenas de livros já publicados com a.

LEIA MAIS

Goreth Caldas: um sistema de metáforas (das tantas esperas)

Entre os escaravelhos e o arbustodo peito frágil existemsegredos buscando alívioatravés de sussurros. Henriqueta Lisboa 1. Goreth Caldas (Caicó, 1958), embora.

LEIA MAIS

BEDEU – Em emocionante entrevista, a compositora Delma fala sobre o músico gaúcho

Em Porto Alegre (RS), no dia 4 de dezembro de 1946, nascia aquele que daria o ar da graça ao.

LEIA MAIS

Tom Zé já dizia: todo compositor brasileiro é um complexado

O álbum “Todos os Olhos”, lançado em 1973 pelo cantor e compositor Tom Zé, traz a seguinte provocação logo em.

LEIA MAIS

Os Excluídos da Educação no Brasil

Pensando em muitos fatores relevantes no Brasil, exclusão, desigualdade social, discriminação e a privação da cidadania é que venho escrever.

LEIA MAIS

Clarice Lispector – Como seria nos dias atuais?

(Crônica de Brendow H. Godoi) Quem seria Clarice Lispector se nascida na década de noventa? Talvez, a pergunta mais adequada.

LEIA MAIS

Calu Manhães estreia como atriz  na Amazon Prime em filme musical “Um ano  inesquecível –

Estreou na Amazon Prime o filme “Um ano inesquecível – Outono”, dirigido por Lázaro Ramos. Com ele, nasce uma atriz,.

LEIA MAIS