21 de julho de 2026

CONTO: A ansiedade do vovô na hora que o cometa passou (Gil Silva Freires)

Seo Leonel tinha nascido em 1911, um ano depois da primeira passagem do cometa de Halley neste século vigésimo. Dessa maneira, como já é de se imaginar, Seo Leonel não teve a menor chance de assistir ao espetáculo astronômico.

Mas Seo Leonel, quando se fez garoto e foi informado de que o Halley cortava os céus a cada 76 anos, começou logo a fazer as contas. Estava com oito anos, o cometa tornaria a passar dentro de mais 67 anos, em 1986. Ele precisava, portanto, atingir razoável longevidade se quisesse ver o cometa dar o ar da graça.

O tempo foi passando, naquele ritmo de sempre, um ano mais longo, outro ano mais instantâneo. Seo Leonel cresceu, se formou, se casou, compôs família, se tornou avô, bisavô, enviuvou, mas nunca deixou de lado aquela obstinação: chegar intacto ao ano do cometa. E conseguiu manter-se vivo e lúcido até os 75 anos.

Ás vésperas do acontecimento a imprensa começou a dar a notícia: o cometa estava para passar. Multidões no mundo inteiro estavam na expectativa, mas não existia ninguém mais ansioso do que Seo Leonel. Ele estava contando as horas para ver o mesmo cometa que os finados pais e irmãos mais velhos tinham visto.

Chegado o momento crucial, Seo Leonel dirigiu-se com toda a família para o ponto de observação mais recomendado pelos astrônomos, na Serra da Mantiqueira. Dali daria pra ter uma visão privilegiada do astro peregrino.

 -Está quase na hora – avisou o filho mais velho, olhando o relógio.

 – Cadê? Cadê? – perguntavam os bisnetos impacientes.

 Seo Leonel se pôs de pé, olhando para o céu com fixação e solenidade. Tinha, enfim, chegado ao grande momento. O cometa de Halley passaria dentro de alguns instantes, bem diante de seus olhos.

 – Olha lá! Olha lá! – gritaram netos e bisnetos, ao mesmo tempo.

– Será que é? Será que é? – perguntaram filhos e noras, ao mesmo tempo.

Seo Leonel estava vendo. O cometa de Halley vinha cortando o céu. Era emoção demais, uma vida inteira esperando por aquele momento.

E foi tão emocionante que o coração de Seo Leonel não agüentou, fulminado por um infarto.

E o pontinho luminoso não era o cometa. Era, na verdade, um avião que passava por ali, a caminho de Cumbica.

 O Halley só passou meia hora depois.

Escrito em 10/11/1997

Francisco Eduardo: retratos, andanças e marinas fundam uma poética

Veredas são caminhos abertos, livres entre florestas inóspitas ou suaves e são símbolos de ruas de escassez de cidades com seus bairros de.

LEIA MAIS

Podcast Investiga: A história do samba por meio dos seus subgêneros (com Luís Filipe de

Em 2022, o violonista, arranjador, produtor, pesquisador e escritor Luís Filipe de Lima lançou o livro “Para Ouvir o Samba:.

LEIA MAIS

Analice Uchôa: o vinco da arte nas dobras da realidade

Se acaso me tivessem dado o jugo e o poder de apontar a obra de um pintor naïf como um.

LEIA MAIS

Tom Zé já dizia: todo compositor brasileiro é um complexado

O álbum “Todos os Olhos”, lançado em 1973 pelo cantor e compositor Tom Zé, traz a seguinte provocação logo em.

LEIA MAIS

Pacífico Medeiros: ressignificando a fotografia

No fundo, a fotografia é subversiva, não quando aterroriza, perturba ou mesmo estigmatiza, mas quando é pensativa.                                                              Roland Barthes Pacífico.

LEIA MAIS

“DO MEU LADO” – Curta de 2014 dirigido por Tarcísio Lara Puiati

Eu descobre esse cura por acaso mas recomendações do YouTube. Acredito que por conta do meu interesse em curtas metragens.

LEIA MAIS

Geração com cérebro desperdiçado (Clarisse da Costa)

Se buscamos conhecimento, somos viajantes nesse vasto mundo. Mas quando deixamos o saber de lado o que somos? Em pleno.

LEIA MAIS

Conceição Fernandes: a presença e a valia do silêncio na arte

1. Conceição Fernandes (Mossoró, 16.05.1957) é atualmente professora aposentada, tendo atuado como professora nas redes estadual e municipal. Dedica-se às.

LEIA MAIS

Mário Quintana e sua complexa simplicidade em Caderno H

  CADERNO H: A COMPLEXA SIMPLICIDADE DE MARIO QUINTANA   Mario Quintana (1906-1994) foi um poeta gaúcho de constância poética.

LEIA MAIS

A Via Dolorosa de Iaperi Araújo

A Via Dolorosa de Iaperi Araujo Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece.E nasce.

LEIA MAIS