13 de janeiro de 2026

CONTO: A ansiedade do vovô na hora que o cometa passou (Gil Silva Freires)

Seo Leonel tinha nascido em 1911, um ano depois da primeira passagem do cometa de Halley neste século vigésimo. Dessa maneira, como já é de se imaginar, Seo Leonel não teve a menor chance de assistir ao espetáculo astronômico.

Mas Seo Leonel, quando se fez garoto e foi informado de que o Halley cortava os céus a cada 76 anos, começou logo a fazer as contas. Estava com oito anos, o cometa tornaria a passar dentro de mais 67 anos, em 1986. Ele precisava, portanto, atingir razoável longevidade se quisesse ver o cometa dar o ar da graça.

O tempo foi passando, naquele ritmo de sempre, um ano mais longo, outro ano mais instantâneo. Seo Leonel cresceu, se formou, se casou, compôs família, se tornou avô, bisavô, enviuvou, mas nunca deixou de lado aquela obstinação: chegar intacto ao ano do cometa. E conseguiu manter-se vivo e lúcido até os 75 anos.

Ás vésperas do acontecimento a imprensa começou a dar a notícia: o cometa estava para passar. Multidões no mundo inteiro estavam na expectativa, mas não existia ninguém mais ansioso do que Seo Leonel. Ele estava contando as horas para ver o mesmo cometa que os finados pais e irmãos mais velhos tinham visto.

Chegado o momento crucial, Seo Leonel dirigiu-se com toda a família para o ponto de observação mais recomendado pelos astrônomos, na Serra da Mantiqueira. Dali daria pra ter uma visão privilegiada do astro peregrino.

 -Está quase na hora – avisou o filho mais velho, olhando o relógio.

 – Cadê? Cadê? – perguntavam os bisnetos impacientes.

 Seo Leonel se pôs de pé, olhando para o céu com fixação e solenidade. Tinha, enfim, chegado ao grande momento. O cometa de Halley passaria dentro de alguns instantes, bem diante de seus olhos.

 – Olha lá! Olha lá! – gritaram netos e bisnetos, ao mesmo tempo.

– Será que é? Será que é? – perguntaram filhos e noras, ao mesmo tempo.

Seo Leonel estava vendo. O cometa de Halley vinha cortando o céu. Era emoção demais, uma vida inteira esperando por aquele momento.

E foi tão emocionante que o coração de Seo Leonel não agüentou, fulminado por um infarto.

E o pontinho luminoso não era o cometa. Era, na verdade, um avião que passava por ali, a caminho de Cumbica.

 O Halley só passou meia hora depois.

Escrito em 10/11/1997

Rodrigo Tardelli, um dos destaques das webséries nacionais

Divulgação Por mais que nossa arte seja, muitas vezes marginalizada e esquecida por seus próprios conterrâneos, há artistas que preferem.

LEIA MAIS

Vida em letras:  A jornada literária de Clarisse da Costa

O começo de tudo Na infância eu rabiscava mundos através de desenhos. Quando aprendi a desenhar palavras comecei a construir.

LEIA MAIS

Autor publica livro de fantasia sobre a 3ª Guerra Mundial na América do Sul

O autor brasileiro Pedro Reis, publicou ano passado, um livro de fantasia e ficção científica, onde a ideia de uma.

LEIA MAIS

O Ventania e suas ventanias – A irreverência do hippie

(Todas as imagens são reproduções de arquivos da internet) A ventania derruba árvores, derruba telhas, derruba vidas. Mas a verdade.

LEIA MAIS

A luta da mulher e a importância de obras que contribui nessa jornada

Não tem uma receita básica, não nascemos prontas. Aprendemos com a vida. Diariamente temos que lutar para se afirmar. Porque.

LEIA MAIS

Rogério Skylab: o feio e o bonito na MPB

Criador do estilo “punk-barroco” (o punk que se expressa através de contrastes), o compositor Rogério Skylab (1956 -) é um.

LEIA MAIS

Lupa na Canção #edição21

Muitas sugestões musicais chegam até nós, mas nem todas estarão aqui. Esta é uma lista de novidades mensais, com músicas.

LEIA MAIS

A invisibilidade da mulher com deficiência física (por Clarisse da Costa)

Eu amei o tema da redação da prova do ENEM de 2023: Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho.

LEIA MAIS

Streaming gratuitos: filmes, séries, novelas, jornalismo, entretenimento e educação

Com o crescimento do acesso à internet e a popularização das smart TVs, inclusive com modelos mais robustos, como uma TV.

LEIA MAIS

Tom Zé já dizia: todo compositor brasileiro é um complexado

O álbum “Todos os Olhos”, lançado em 1973 pelo cantor e compositor Tom Zé, traz a seguinte provocação logo em.

LEIA MAIS