19 de agosto de 2026

O processo literário – por Clarisse da Costa

Será que a “IA” vai dominar todo o processo literário? Tenho percebido que alguns hábitos têm ficado para trás. Eu li numa rede social que uma mulher relatou que leu mais de 100 livros em apenas uma semana. Ler é algo prazeroso, mas quem lê muitos livros em tão pouco tempo? Foi então que ela explicou como era possível isso. Essa mulher tinha a prática de pegar a sinopse criada pela a inteligência “IA” e com isso escutá-la em áudio de 10 a 15 minutos. Para mim algo prático e rápido, porém sem o prazer de pegar o livro, sentir a textura das páginas, sentir o seu cheiro e ter aquela ansiedade em saber como termina.

Então surge a questão: Como ser um bom escritor sem o hábito da leitura? Precisamos passar por todos os processos. Nós mulheres, escritoras, antes de chegar nesse caminho tivemos que enfrentar a barreira da falta de educação e conhecimento causada pelo patriarcado existente na época que obrigava a mulher a somente se dedicar a casa e a família. Imagine não passar por todos os processos, como seria?

Ser escritor(a) é atravessar diferentes processos de desenvolvimento literário. O primeiro estágio é o do conhecimento: compreender que escrever não é apenas colocar palavras no papel e publicar, mas entender cada etapa dessa construção. Depois, vem a fase da reflexão, onde é preciso avaliar com atenção o melhor caminho a seguir, respeitando o próprio tempo e estilo. Ao longo da jornada, cada escritor(a) descobre que não basta apenas sonhar com o reconhecimento: é necessário colocar em prática aquilo que fortalece o trabalho, aprimorar a escrita, abrir-se para críticas e lapidar a própria voz literária.

Participar de antologias, estar em contato com outros autores, compartilhar sua visão de mundo e expandir o alcance da sua obra é, sem dúvida, um dos melhores caminhos para se firmar nesse universo tão vasto da literatura. Talvez muitos não deem a devida importância às antologias, mas elas são portas de entrada para um processo histórico e literário que amplia a nossa cultura e conhecimento. Como vemos ao longo do tempo, elas também são portas abertas para novas editoras e consecutivamente oportunidades para escritores que muitas das vezes não tiveram espaço na nossa literatura brasileira.
Claro, por serem textos curtos, as antologias e coletâneas, a análise do original se torna mais ágil de forma que o autor pode dar uma amostra do seu trabalho. Passeando pela origem da palavra, vemos que a antologia pode ser interpretada como o “estudo das flores”. Sua etimologia vem do grego “anthologías”, que significa “coleção de flores”. E, de fato, é isso que uma antologia representa: um conjunto de vozes literárias que florescem em harmonia, cada uma com sua cor, perfume e singularidade.

Como alguém que participou de cerca de vinte antologias apenas no ano de 2022, posso afirmar com propriedade o quanto essa forma de publicação é significativa. Ela não apenas abre espaço para diferentes estilos e experiências, como também se torna um campo fértil para nós, mulheres, reafirmarmos nosso papel na literatura brasileira.

A mulher na literatura é um grande avanço nos dias atuais. Para a sociedade cabia à mulher o seu papel de esposa, mãe e dona de casa. Uma mulher com conhecimento e estudo não era vista com bons olhos por muitas famílias. O início na literatura para nós mulheres não foi nada fácil. Ocupar um espaço antes destinado exclusivamente aos homens é, acima de tudo, quebrar as barreiras impostas por uma sociedade historicamente machista e opressora. Pois escrever, para nós mulheres, nunca foi apenas um exercício de criatividade: é também um ato de resistência.

Como vemos todos os processos literários têm impacto e importância cultural em toda sociedade. Escrever não é só um dom, mas também um ato de coragem, de querer fazer a diferença. Cada palavra publicada é uma conquista, cada página impressa é um gesto de afirmação de nossa voz. É nesse espaço coletivo que nossas narrativas se entrelaçam e revelam ao mundo a diversidade, a sensibilidade e a força da escrita de muitos escritores na literatura brasileira.

Outro processo além da antologia é colaborar com jornais, blogues e revistas. Eu escrevo para revistas, escrever para revistas literárias e culturais é prazeroso, como também interessante. É um instrumento de comunicação que nos conecta com vários públicos e mídias digitais e sociais. Posso dizer que também é um movimento pensante que ativa o seu lado curioso e criativo.

Colaborar com a imprensa é colaborar com a sociedade, trazendo conhecimento e o maior entendimento sobre determinados assuntos.

Escrito por Clarisse da Costa em setembro de 2025 com exclusividade para a REVISTA ARTE BRASILEIRA

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