17 de fevereiro de 2026

 Artur Rosa: prelúdio para um só artista

Quem há de completar a obra
reguei com meu pranto e suor.

Henriqueta Lisboa

1.

Arthur Rosa (25.06.1984) nasceu em Natal. Atualmente radicado em Galway, uma cidade marítima e portuária, na Irlanda. Ao se contemplar de longe, a paisagem no qual reside, descortina-se um casario multicolorido à beira de águas plácidas, cujo reflexo reverbera com nitidez o que se ergue de casas no limite das águas imotas. As edificações seguem um padrão verticalizado, pontilhado de inúmeras janelas, cujo efeito reforça essa imagem de apontar para o firmamento.

Sendo um artista autodidata, obviamente se rege muito mais pela intuição do que pela razão. Os oráculos interiores não apenas são sempre consultados, mas também expõem uma espécie de jugo causados por toda uma espécie de emoções habitantes nas locas de pedras do seu interior, capazes de espontaneamente pulsarem vontades de potências buscando emergir por meio de fumaças metafóricas, plasmando, objetos, minérios, contornos, riscos agressivos e manuseio de cores como se estivesse com raiva, enfim, toda uma sorte daquilo que não é necessariamente ipsis literis como se encontra no mundo real.

O fato de se autorepresentar como intuitivo inscreve-o no que livremente ousamos nominar Escola Basquiat, na medida em que muito se assemelha ao grande pintor que hoje influencia toda uma gama por tudo quanto é canto. Acontece que Arthur Rosa não somente copia o maior de todos, mas por meio das suas emoções e sentimentos vários, faz saber da sua gramática e usa os paradigmas de uma maneira inteiramente singular: o desenho do humano, palavras, símbolos e grafites.

2.

Artur Rosa

Longe de querer ultrapassar sua referência maior, – fazendo agente lembrar de Harold Bloom e sua noção de “poeta forte”, aqueles que fincaram estacas de madeira de lei na História da Poesia, quase que impossível de serem ultrapassadas, tais como Fernando Pessoa, Marianne Moore, Arthur Rimbaud. O que Arthur Rosa tão-somente imprimiu no contexto da pintura foi sua marca, seu número e sua singularidade, despretensioso e, à sombra e fama de Jean-Michel Basquiat, ergueu sua continuidade nessa Escola, demonstrando ser um aluno diligente e capaz de fazer um enorme diferença face a outros que também ousaram dar sua própria solução de uma persistência insistindo de que o construto Arte Expressionista detém tantas possibilidades de através da deformação do real, vincular seu trabalho ao Expressionismo como vanguarda do início do século XX. Não que imite, mas retém o que vamos chamar de “teoria” ou demonstrando que não está relacionado ao tempo e ao lugar.

3.

Gostaria de deixar este apontamento para, talvez, melhor esclarecer nosso projeto escritural. Como tantos escritores que fazem crítica de arte, ou mesmo erguem escritos de qualquer qualidade, pode ser que muitas vezes começem pelos últimos parágrafos, pelo que chamam de conclusão, pelos pequenos excertos que apenas dirão “enfim”, com uma vírgula.

Acontece que alguns gêneros literários como os ensaios, como este ensaio, ainda insistem em encompridar conversa, pois estava faltando alguns parágrafos, certas ideias não terminadas, ou o que estava no aguardo, esperando a porta abrir depois de algumas batidas, também insistindo na companhia, pois quem está em casa encontra-se nos fundos e não dá para escutar direito, devido ao ofício do proprietário, quer seja madeira, quer seja elaborar esculturas em aço escovado.

Com efeito, haverá sempre uma explicação para a inércia dos ouvidos e sua respectiva ausência de um ouvir por enquanto. E assomando pela casa, a escutar o que dizem aos que chegam. Quase sempre é retirada a pele acumulada pelos dias e seus trabalhos, possibilitando uma conversa que não traga nem leve algo pesado ou que vem a pesar durante o séjour dos que permanecerão nacos de dias, lascas de horas a fazer durar, a fazer um cansaço de quem hospeda, já dos dias intermináveis que têm o jugo dos ombros e das pernas.

4.

Artur Rosa

Não há como adentrar pelos meandros da obra de Arthur Rosa sem antes fazer uma devida persignação na ara cujo orago é Jean-Michel Basquiat (22.12.1960–12.08.1988), considerado por críticos, colecionadores e curadores como o maior nome da arte moderna. Seria fugir do nosso foco se ficássemos a arrolar detalhes de um jovem rapaz, morto aos 27 anos de uma opioid overdose.

É desnecessário uma busca mais aprofundada para explicar a maneira desse conjunto de vetores psicológicos que o conduziram à autodestruição. Estava escrito o que prestes as Parcas teciam rapidamente para cortar o fio da Fortuna, encerrando uma vida no qual o quebracabeça detinha todas as peças, encaixando desenho de uma vida plena de risco e sem medo do desregramento (hybris). Tantos elementos, desde muito cedo,  com contornos de uma película de Tânatos, que não precisava ser adivinho para franzir os olhos e dizer o que iria acontecer não muito tarde.

O quanto lhe coube de naco de uma existência breve pode ser comparado a um vergado  arco no qual estavam inclusos diversos paradigmas. Era coisa demais misturada. Estava incluso ser de etnia negra, orientação sexual multicromática, artista marginal, dependente químico, ou seja, uma errância no qual provou de tudo que é espécie do que diz respeito não somente ao corpo, ao amor eros, ao amor philia, na sua amizade com Andy Warohl.

O que estou dizendo bate em cheio no que consta de muita emoção e sentimentos vários nas suas telas. Também aqui não podia deixar de aparecer, o que se formara como artista plástico. Filiou-se a um gênero híbrido, não podia ser outro. E eis o Expressionismo, o Simbolismo e o Surrealismo. Desse modo, não poderia deixar de ser o mito fundante de uma escola cujo substrato detinha semelhanças morfológicas, cerzida de uma ancestralidade revestida de alguns paradigmas capazes de, através de uma originalidade assinalado desde sempre como aquele ungido a se dar em mente e corpo em um ser e suas possibilidades de provar tudo o que aparecesse à sua frente, sem medir as contas e os riscos.

5.

Artur Rosa

Com efeito, não se definia, a inquietude,  tão-somente como uma aptidão para a arte, mas também para se lançar nos riscos que estão no livre arbítrio. Quanto custa? Pouco importa, Cronos escorre na ampulheta dos dedos, suficiente esfregar um dedo no outro. Sua trajetória estética explica o lado da encruzilhada que entrou (escolheu?): começou como grafiteiro no centro de Manhattan e depois como pintor neo-expressionista. Esteve fora das ruas, depois, dentro das casas.

O expressionismo busca alcançar, bem distinto do realismo, uma deformação da realidade, do nosso entorno, do que se apresenta aos nossos olhos. Assim, é necessário o que suplanta no íntimo do artista, ou seja, da subjetividade como permanente plano de fundo e o que vem a ser tema da tela. Embora usar o termo “tema” esteja muito distante do que Basquiat plasmou em suas telas plenas de hibridismo. Na sua paleta constava toda uma sorte de cores, permitindo manusear um lastro pictórico que tornou seus trabalhos cheios de uma riqueza cromática, riscando ou justapondo símbolos, palavras, pessoas.

Não havia limites de códigos para ocupar o todo da tela. O mais interessante, talvez seja o signo linguístico mesclado ao signo imagético; nada respeitando. Do jeito que era dentro, também o fora reverberava sua beleza.

6.

No que concerne a Arthur Rosa e sua profusa obra, vamos isolar algumas telas e tecer alguns comentários que talvez possam dizer da sua sintaxe e do seu vocabulário imagético como artista plástico. Dentre tantas telas articuladas por meio de pinceladas cruas, em uma expressividade que parece estar pouco ligando para o que se convencionou por “harmonia”, ergueu uma série cujo substrato é a cor vermelha e suas nuances. Alguns quadros são dípticos, trípticos ou dividido em quatro partes. Todos são autônomos, ou seja, podem mudar a ordem no qual estão justapostos.

A parcimônia no uso do vermelho não apenas apresentou uma sobriedade às telas, – ao refratar o contraste com outras cores, – como sucedeu com grande número de outros trabalhos, mas também fez valer sugestões de corpos humanos riscados. A garatuja permanece. Há uma sugestão de uma busca do objeto retratado ser visto como eivado de emoção, sentimento, de como é enxergado através do íntimo. Quero dizer que interpreta à revelia do que se encontra no entorno, seus contornos, seus semblantes ou que foi convencionado como Belo ou encontra-se na moda. Assim faz imperar a subjetividade de um qualquer homem, que não passa de uma mescla de formas de sentir, representar, ser em um tempo, diferente em outro. Enfim, o excesso dessas bibolaridades deságuam em um rio (um humano) em um estuário largo e, talvez, difícil de conviver. O uso da cor primária vermelha não poderia deixar de ser a que melhor representa uma sensibilidade contempladora do mundo através de suas idiossincrasias, de sua experiência de vida, de como se fez homem, de como isola e ver sem olhar, retendo o que lhe interessa, da maneira como pulsares interiores fazem sair pelos olhos. Vermelho não poderia deixar de ser o melhor para expressar um espírito como o de Arthur Rosa.

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