17 de março de 2026

Ambrósio Córdula: ainda e sempre o Barroco

Mais digno de ser escolhido é o bom
nome do que as muitas riquezas; e a
graça é melhor do que a riqueza e o ouro

         Provérbios 22:1

1.

Ambrósio Córdula

Ambrósio Córdula se inscreve hoje como um dos mais importantes santeiros ou imaginários do país, dedicando seu trabalho a esculturas de imagens de grandes dimensões, quase sempre comercializadas para as igrejas, capelas, conventos, edículas… Ou seja, as tradicionais representações de personagens ligados ao sagrado e aos ritos devocionais. Seu ateliê fica situado na cidade de Acari, RN, ocupando diversos ajudantes, pois as encomendas seguem umas às outras, ou seja, são constantes.

A presença do barroco (Itália, séc. XVI) nas imagens ressalta a filiação ao estilo surgido com a Contrarreforma, tendo como principal característica a preponderância da linha curva, nervosa, oscilante, visando proclamar os domínios da emoção em detrimento da razão. A linha curva delineia-se como o apelo à emotividade, refratando as ideias lógicas de cultuar uma imagem, quer se queira objeto sagrado, ou mesmo pode também não passar de contemplar uma escultura que é encarada como obra de arte.

Ambrósio Córdula

Toda peça que sai do ateliê de Ambrósio Córdula resguarda a herança do Barroco, com sua exagerada retórica nas linhas curvas e nas cores, bem como no conjunto de ornamentos dourados e em outras cores, quase sempre muito fortes. Tais elementos, organizados assim dessa forma, consagram uma teatralidade às imagens de santos, como se esse realismo quisesse chamar atenção para o fortalecimento da fé e dos vínculos mais intrínsecos com o sagrado e sua respectiva instituição, a Igreja Católica.

Ora, as imagens não estão isoladas nos altares. Elas fazem parte de um conjunto escultórico interno das naves e dos nichos onde se depositam cada santo. Isso quer dizer que as esculturas interagem com o resto da igreja, com seus altares, com eventuais tetos pintados, com suas exuberantes portas de madeira de lei. Enfim, tudo conduz para um grande dramatismo, que aponta para os fiéis o valor e como deve ser a glória, após a morte. Assim era o Barroco, com sua eloquência, mais não se perdeu de tudo esse cuidado com a edificação e decoração das igrejas, teima-se em internalizar que a vida celeste resguarda um lugar de sossego e ausência de sofrimento.

2.

Ambrósio Córdula

Seu estilo é caudatário da imagética barroca, muito própria, herdada da Península Ibérica, sobretudo a de origem espanhola, caracterizando-se como detentor de um realismo no conjunto todo das peças. Isso inclui o formato das mãos e dos pés, que sobressai do rico planejamento decorado com múltiplas cores, motivos florais ou vinhetas de primorosos desenhos. Cada santo ou santa porta seu atributo, visando à identificação.

Com relação ao rosto e o seu semblante, é onde mais se demora o esmero e o capricho de esculpir e pintar com uma delicadeza que não apenas resguarda a individualidade, mas também se encontra eivada de um realismo visual,  chamando a atenção dos que se dirigem a ritos devocionais, também como uma obra de arte de genuína feitura, evocadora de uma fé sempre presente a quem se dirige à imagem no sentido de que é manifestação do que chamam de sagrado.

3.

Ambrósio Córdula

O seu ateliê detém todos os instrumentos, todas as colas, todas as cores, tudo o que é necessário para a consecução de um trabalho extremamente bem-feito, bem-acabado, que nada falta ou acrescenta. Para se ter uma ideia, ainda esculpe imagens chamadas de “roca”, ou seja, santos para serem conduzidos apenas durante as procissões. São caracterizados pela ausência do corpo inteiriço, apenas a cabeça se destaca. O resto do corpo é formado por uma espécie de esqueleto de madeira, permitindo que se recubra com uma vestimenta e uma peruca.

Em suma, quase sempre os santos de “roca” são retratações de Jesus Cristo carregando a cruz ou de Nossa Senhora das Dores. Isso é bem reconhecido nas “procissões do encontro” durante a Semana Santa. No caminho do Calvário, o Messias encontra sua mãe. Ainda esculpir dessa maneira engendra uma resposta muito sua à uma linha de continuidade de uma tradição ancestral, não permitindo que determinado engenho e arte se perca no anonimato e escoe para o sem fim, para o desaparecimento definitivo de algo que dizia respeito aos ritos do cotidiano devocional, sobretudo nas datas mais importantes do calendário anual dos eventos religiosos.

4.

Ambrósio Córdula

Na maneira de esculpir, dar forma, incrustar elementos, vinhetas, contrastar as cores, colocar atributos, Ambrósio Córdula não deixou de fora os elementos integrantes do corpus da estatuária do Barroco, com sua exuberância de adornos e detalhes, organizados a partir de uma obsessão pela linha curva, círculos e ondas, impedindo a que as linhas formem ângulos retos.

Essa geometria, em suas formas baseadas na alternância de direção, busca despertar no espectador uma amplíssima emotividade, com o objetivo de lançar para o espírito um sucumbir face aos sentimentos de fé e redobrada crença nos representantes do que eventualmente encontraria “no outro mundo”. Um espelho nítido de uma idealidade que aparece aqui no real, como se ofertassem maneiras de viver dos santos, dos mártires, dos doutores e de todos que integram o registro daqueles que entregaram suas vidas aos dogmas e regras da Igreja Católica.

Ora, o triunfo da linha curva com suas fortes evocações orgânicas, somado a uma sorte de necessidades do Barroco como arte, conduz a uma teatralidade, ofuscando quem contempla, como se fosse uma espécie de ameaça. Ou seja, é necessário cumprir todos os preceitos de uma religião cujo centro é a noção de pecado, de quebra de um pacto com as coisas do sagrado, de cindir o que é entregue íntegro. Quer dizer, esses santos com seus adereços devem servir de exemplo, de uma referência maior, para que o espírito permaneça limpo das coisas do mundo, do que insistem proclamar como pecado. Em suma, as esculturas de Ambrósio Córdula são um perfeito exemplo de continuidade da nossa principal tradição religiosa. Não é à toa que suas encomendas são demandadas por párocos ou entidades vinculadas ao culto do sagrado, remetendo à exigência de se ter uma escultura de qualidade, não importando o valor que se vai pagar. Importa o que pode emanar do interior da escultura,  dos que seguem essa crença, na medida em que as esculturas estão plenas de uma exuberância de formas, de um grande dramatismo, clamando negar a razão, substituindo por outra coisa nominada de fé. Amém!

 

OBS:.As opiniões expressas neste ensaio são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da Revista Arte Brasileira.

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