13 de janeiro de 2026

Jefferson Campos: outra realidade emanada da madeira ferida

Mais digno de ser escolhido é um bom nome
do que muitas riquezas; e a graça é melhor
do que a riqueza e o ouro.

Provérbios, 22:1

1.

A xilogravura é considerada como uma das mais antigas técnicas de impressão. Desde o século VI, na China, já existia, embora seja controversa a idade do seu surgimento. Mesmo tendo esse arco vergado por grande distância de tempo e de geografia, permanece revitalizando-se como cepa ou tradição cuja seara frutifica o ano todo. Ou seja, é uma forma de arte para a qual não faltam trabalhadores na gleba de terra cultivada em solo fértil.

 

Jefferson Campos

Penso que seria agradável referenciar alguns desses indivíduos que trabalharam ou trabalham no ofício da xilogravura, considerando alguns como profissionais trabalhando sob encomenda, outros são bissextos, e há os que demonstraram sua maestria e depois partiram para ganhar o pão com outro ofício.  Há um nome que acabou, devido a sua fama, por ser de grande qualidade estética, vindo a ser uma espécie de mito fundante dessa tradição de xilogravura, quer dizer, do manuseio da madeira, depois passando o rolo de tinta por cima, finalizando por deixar a tisna líquida em um papel. Estava querendo falar de J. Borges.

Vale lembrar que não pretendo citar todos os xilógrafos, mesmo por que grande parte foi exercer outras profissões. Ainda, outros são bissextos, não trabalham sistematicamente, tampouco consideram a xilogravura como uma profissão. Há de tudo.

Seguem nomes dos que estiveram envolvidos com a xilogravura: João da Escóssia, Meneleu, João Pedro do Juazeiro, Gilvan Lopes, George Wagner, Lu Nascimento, Pacífico Medeiros, Marcelo Morais, Alcides Sales (um dos mais antigos xilógrafos em atividade, de Caraúbas), Severino Inácio. Porém, há um consenso no que diz respeito ao mais importante desses artistas, servindo de referência até alcançar os nossos dias: seu nome é Jefferson Campos. Nesse caso, seria equívoco esquecer um grande artista de Pernambuco, Gilvan Samico, falo da originalidade das xilogravuras dele, cujos símbolos estão relacionados ao Movimento Armorial, de Ariano Suassuna.

2.

Jefferson Campos

Neste ensaio, nosso objeto de estudo é a obra de Jefferson Campos (São Paulo, 1981). Muito pequeno ainda, migrou para a cidade de Nova Cruz (RN). Aos 12 anos, veio a ficar até hoje em Natal. Bastante precoce, com 8 anos já rabiscava seus desenhos. Aos 35 anos, por ser afeito à literatura de cordel, começou a produzir xilogravuras, confeccionando capas dos cordéis.

Logo em seguida, iniciou coletivamente a admiração por seu singular trabalho. Face aos outros, aquele que contemplava sabia de uma diferença do que conhecia até então sobre a xilogravura. Assuntava numa demora, buscando como se fosse desvendar um enigma. Contudo, podemos separar didaticamente para compreender. Há uma série que talvez seja a opus magnum das muitas séries que vai fazendo sem deter muito a consciência e os riscos da razão ou da lógica, fechando ciclos, abrindo outros. Tudo o que elabora é de maneira intuitiva, como se já estivesse esboçado no seu íntimo, faltando apenas o manuseio nos tacos e a impressão com a tinta.

Malgrado o artista sendo autodidata, não teve um mestre. É curioso como há visivelmente um domínio do desenho clássico, haja vista o primor do desenho depois de impresso no papel. A xilogravura não é uma arte que proclame, por meio do seu próprio desenho, o semblante, o que sucede no espírito, através dos olhos e da boca. Jefferson Campos logra êxito nessa tarefa bastante complicada. É suficiente se distanciar do papel onde está presente a xilogravura para enxergar a minúcia de um retirante e seu sofrimento.

Vejamos como surgiu essa série que tematiza um fato histórico ocorrido no Ceará. Diz respeito às secas de 1877-1878, 1915 e 1930, sendo a primeira a mais grave e de uma agressividade que matou meio milhão de pessoas, fora os milhares que debandaram das suas casas sertão adentro. As classes dominantes, para evitar que migrassem para as maiores cidades do Ceará, principalmente Fortaleza, criaram Campos de Concentração, não devendo nada ao Holocausto da Europa na Grande Guerra de 1945. Há um livro de Raquel de Queiroz que retrata a seca de 1915: “O quinze”.

Jefferson Campos

Mesmo sendo um conjunto de xilogravuras engajadas na denúncia de um fato histórico vergonhoso para a região, a dimensão estética e sua semiose no manuseio do signo icônico não passa ao largo, está presente na maneira como o artista escolheu representar o objeto. No nosso caso, sobretudo na “xilogravura de raiz”, ocorre uma busca de ser o mais fiel possível ao desenho acadêmico, ou seja, os detalhes são trabalhados para que o referente (tema) venha a ter a maior parecença possível, sem esquecer de que se trata de arte de qualidade, circunscrita a um vocabulário que só a ele pertence. Assim, por meio de uma sintaxe bastante distinta e diferente de seus pares, opera uma gramática de poucos instrumentos, erguendo uma realidade que nos faz esquecer essa nossa com suas horas e suas demandas tantas. Aquele que faz arte sistematicamente, e se identifica com esse labor, esquece quase tudo da realidade com suas tediosas retóricas.  

3.

Seguiremos nessa rodagem plena de monólitos (as xilogravuras como monumentos de um signo criado pelo artista) múltiplos, organizando séries, e perfazendo um conjunto detentor de uma linguagem em preto e branco. Ele também manuseia as xilogravuras coloridas. O baixo relevo sobre o taco é a “matriz de madeira gravada”. Já o que é escavado, mostrando as vísceras do taco, são justas as partes que não aparecerão no que é impresso.

O que interessa, o que faz ver, é o efeito causado pela justaposição de imagens que não necessita deter qualquer parentesco ou identidade, e muito menos ocupar o mesmo lugar semântico ou simbólico. Basta ver como organiza as xilogravuras nas quais há os elementos díspares, sem ocupar uma mesma geografia, uma mesma circunscrição, uma mesma comarca de sentido, na qual estejam no mesmo campo avizinhados ou fazendo parte de uma mesma classificação.

Vale o que se organiza em busca de uma eventual harmonia, de um equilíbrio entre o manuseio de formas e cores, proclamando, via de regra, uma semiótica pertence à vida e ao cotidiano, quase sempre das zonas rurais, do que chamamos sertão, para ser mais preciso, o dia a dia do sertão nordestino, com seus atributos: o vaqueiro buscando a rês, a costureira, o garoto com lenha na cabeça, a pega de gado caatinga adentro. O certo é que esse desassossego do artista consiste em mapear as coisas do sertão, o que está em extinção, prestes a desaparecer com a chegada de tudo o que é tecnologia nas regiões onde impera os majestosos mandacarus, com um galo de campina e uma flor.

É fato dizer o quão complexo é desenhar e pintar monocromaticamente, ou seja, em preto. O suporte, que é a madeira, contribui com suas cores claras: eis o preto e branco. Embora hoje em dia prolifere uma plêiade de artistas que usa cores nos seus trabalhos, não podemos de esquecer que, em arte, o simples é sempre difícil.

4.

Embora já tenhamos a oportunidade de dizer o que sucede a quem contempla as xilogravuras de Jefferson Campos, quer as em preto e branco quer as coloridas, gostaria de lembrar da paragem que ocupa no lugar de tradição vinda de muito longe. Acontece uma diferença no seu trabalho, imprimindo uma singularidade eivada de beleza, despertando determinadas espécies de sentimentos, tais como: comprazer-se em estar vivo, ânsia por superar certas atribulações (efeito sanador, curativo da arte), ancorar sua mente no ancoradouro do silêncio ou achegar-se de uma obra de arte e sentir um bem-estar.

Veja só, tudo o que disse é de conhecimento de todos, ou assome no espírito, involuntariamente, ou já faz parte de quem se exercita indo a exposições. Isso ocorre, ainda mais, quando estamos diante de xilogravuras, um símbolo do Nordeste, que nos representa em uma ancestralidade presente no nosso Imaginário, como estrutura antropológica que é, vinda das bandas do medievo, aportando por aqui, trazida por portugueses, chantando de forma mais robusta no Nordeste.

A obra de Jefferson Campos passa a ideia de um prazer a mais, no sentido de que não faz por obrigação ou em busca de ganhar mais dinheiro. Falo da presença necessária a todo artista visual, acontece que, no artista que discorremos, com seu estilo diferente, também há muito da sua subjetividade, da sua intuição e do prazer que gestou ao produzir determinada xilogravura. O certo é que temos um homem ancho de si, de corpo e de alma.

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