Se não são os pássaros
Federico Garcia Lorca
cobertos de cinza,
se não são os gemidos que golpeiam as janelas da boda,
serão as delicadas criaturas do ar
que manam o sangue novo pela escuridão inextinguível.
1.

Letícia Paregas (Natal, 1991) é autodidata. Remonta a presença da arte em sua vida desde a infância. Portanto, instalou-se desde muito cedo: os Zéfiros traziam em seus sopros uma inclinação simbólica relativa às artes. A jovem já sentia algo que latejava diferente em seu íntimo. Percebia vivamente que seu caminho era percorrer uma vereda que a ungiria como artista visual. Bastante precoce, aos 15 anos, fez sua primeira exposição coletiva, com mais duas artistas, na Capitania das Artes, cujo título era Para Beatrice. Em 2006, foi considerada a artista revelação do ano. Realizou uma coletiva em 2013, só com mulheres artistas.
Realizou o curso superior de pintura em uma instituição dedicada às Belas Artes, no Paraná. O seu contato com a xilogravura surgiu aí. A chegada de uma professora parecia estar inscrita no cerne do seu espírito. Essa convergência com a Professora Ana Maria Barbosa, pesquisadora de arte, foi extremamente profícua, pois lhe deu acesso a um precioso material teórico e metodológico (A abordagem triangular no ensino). Em 2023, formou-se em Produção Cultural, no IFRN, da Cidade Alta. Logo após sua formatura, passou a ministrar curso de xilogravura no mesmo IFRN.
Houve um hiato em sua vida, de 2012 a 2021. Não é que tenha parado de desenhar; o que sucedeu foi dar um tempo na produção de séries de xilogravuras, como era do seu feitio. Parece que foi necessário para colocar ordem na casa, para dar um salto maior em busca de se firmar definitivamente como artista visual.
O desejo de ser xilógrafa já estava decidido em seu âmago; anunciara a si mesma, faltava proclamar ao mundo. Seu ofício acabou por não ser um trabalho, como estamos acostumados a compreender, mas uma ocupação do
seu tempo em algo útil, confundindo-se com a dedicação e o amor a um trabalho personalizado. Como refletiu um filósofo pré-socrático: “Escolha uma ocupação que você ama; sendo assim, não precisará trabalhar nenhum dia”.
2.

No Rio Grande do Norte, há uma forte tradição da xilogravura, sobretudo elaborada para ser capa da literatura de cordéis. No início do século XX, João da Escóssia já ilustrava o jornal O Mossoroense com xilogravuras de sua autoria, o que não era muito comum. Em seguida, Meneleu, vindo de Areia Branca, era outro que trabalhava com xilogravuras em uma casa tipográfica que confeccionava rótulos para produtos comerciais.
Por fim, surgiu a oficina do Sr. Henrique Mendes, na qual havia muitos xilogravuristas anônimos. Há um álbum repleto de xilogravuras de alta qualidade estética, tanto retratos de pessoas como rótulos, provavelmente encomendados pelos comerciantes da cidade. Na dedicatória, há uma declaração de afeto e fraternidade: “Ofereço este álbum de xilogravura ao amigo Raimundo Soares para fazer uso do que quiser, 9/10/1972. Henrique Mendes”.
Tendo em vista um pequeno sistema de homens que trabalhavam com a xilogravura, no qual despontaram grandes talentos para imprimir a partir de “tacos” (suporte de madeira a ser escavado pela goiva ou ponta de faca bem amolada), tomei a liberdade de criar o termo Escola de Xilogravura de Mossoró, que traria os mitos fundantes de uma tradição que vigora até os dias de hoje.
Na cidade do Natal, existem várias instituições voltadas exclusivamente para a xilogravura. Estamos vivendo um bom momento graças à efervescência nas artes visuais e às instituições voltadas para a cultura. Podemos arrolar uma série de instituições voltadas para a literatura de cordel e para a xilogravura: A Casa do Cordel, fundada em 2007, pelo poeta Abaeté (Erivaldo Leite de Lima), tocando em frente, com seu filho, também xilogravurista, Erick de Lima; a Associação de Cordelistas de Natal; o Reduto Cultural de Ponta Negra (onde já funcionou um Grupo de Estudos em Pintura, com diversas oficinas nas mais variadas artes, aberta a toda e qualquer forma de arte que se queira dar em exercícios e aprimoramento, buscando também lapidar eventuais talentos).
Remetem esses xilogravuristas a seguir a João da Escóssia Nogueira, cada um dando sua resposta a esse grande mestre, detentor de um traço requintado e mais delicado no que concerne aos contornos e à clareza dos semblantes das figuras, revelando um grande conhecimento do desenho, para depois chegar aos tacos de madeira e escavar com as goivas. Estes são exemplos de que a árvore plantada pelo primeiro mestre engendrou muitos galhos, cada um expressando a arte da madeira de acordo com seu temperamento ou domínio técnico do preto ou das cores: Antônio Francisco, Marcelo Morais, Gustavo Luz, Severino Inácio, Nilson Silva, George Wagner, Lu Nascimento, Jefferson Campos, Edivânia Macedo, Erick Lima, Luana Lira (“Lua do Sertão”).
3.
Antes de tudo, creio que Letícia Paregas deu uma solução de continuidade ao que os primevos da Escola de Xilogravura de Mossoró plantaram como uma boa semente. Não apenas isso, mas fez a arte da xilogravura avançar e experimentar novas técnicas, tais como as que são feitas com cores. Alguns xilógrafos enveredaram pelo campo experimental, mesclando outras técnicas, sobretudo pelo uso de outras tintas, visando a causar um efeito diferenciado.
Também praticou o exercício de ampliar os temas, bem como de extrair do manuseio das cores obras de primorosa valia. Enfim, fez com que a xilogravura não estacionasse em seu tempo geográfico, presa às mesmas capas dos cordéis vendidos nas feiras do Nordeste. Foi elevada a uma forma de arte de grande excelência, sendo realizada por grandes artistas visuais.
Não há como esquecer o pernambucano Gilvan Samico (1928–2013), considerado pelos que entendem ou são familiarizados com a arte da xilogravura como o maior entre todos. Sua obra, com temáticas arquetípicas e inerentes ao imaginário popular, está filiada ao Movimento Armorial, criado por Ariano Suassuna.
Portanto, as xilogravuras de Letícia Paregas estão sustentadas por um lastro mítico e por pegadas de imagens extraídas do sagrado. Essa estada do mítico irrompeu de maneira extremamente forte. Para se ter uma ideia, até em seu corpo aparecem ícones do místico e de variações em torno do feminino.
Além disso, seu corpo detém muitas tatuagens; todavia, duas se destacam, não apenas por serem bastante visíveis mas também pelo que expressam de
simbólico. Assim, do lado esquerdo do ombro, há um sol; do lado direito, uma lua.
Parece querer sugerir os dois regimes da imagem, com elaborações teóricas e metodológicas do francês Gilbert Durand (As estruturas antropológicas do imaginário): o regime diurno, com a reverberação da luz, personagens marcados pela ascensão, pelo rumo da verticalização, pelo delineamento das formas, iluminando a terra e seus habitantes (encarnado no deus grego Apolo, que traz o dia, chegando com seus cavalos de fogo pelo leste, proclamando as horas no claro, no trabalho, na disciplina). Bandeia-se para os lados da lógica e de submeter

as imagens ao racional.
4.
Vejamos alguns temas da obra de Letícia Paregas que, a partir da mitocrítica de Durand, conduzem para que funcionem como uma constelação de imagens emanadas do Inconsciente Coletivo e sejam integrantes do Regime Noturno da Imagem.
Com efeito, podemos observar o escopo de um conjunto de figuras, tendo em vista a recorrência na obra da xilogravurista. Ou seja, os mitos presentes na xilogravura seguem para designar um propósito que discorre acerca de eventuais sentidos simbólicos. Via de regra, despontam elementos vinculadas à noite, ao escuro, ao sombrio e à morte, estando intrinsecamente relacionados ao submundo e às transformações da vida. Por fim, surgem também imagens que dizem respeito à fertilidade.
A presença do feminino ocorre com grande frequência na obra de Letícia Paregas. Podemos citar: Cigana, com serpente enrolada no pescoço (xilogravura, 2025, A5 90g); Mulher despida, em preto, com pavão vermelho (linogravura, A4 180g); Lilith: apenas uma mão segurando a cabeça de uma cobra (xilogravura, 2018, A5 90g); Pose (xilogravura, 2022, A4 90g); La Sirena (linogravura, 2024, A3 90g). Consabido é que a mulher, culturalmente, encontra-se vinculada à fertilidade.
Ademais, há um subentendido de que vigora um apreço pela noite, pelo que é escuro, pelas sombras que dialogam com o submundo, com os domínios da lua em quarto crescente. Convém registrar o mito grego de Selene, deusa da lua, e seu reino das sombras. Outra imagem é a “Taça” (xilogravura, A5, 180g, 2025), que diz respeito ao acolhimento e ao mistério, entornando o seu líquido conteúdo, ausente de quem o utiliza.
Além disso, constatamos uma feitura elaborada com esmero, que também diz respeito a esse círculo mítico. Parece que a intenção foi apenas apresentar a imagem, remetendo ao conjunto simbólico discorrido neste ensaio. Há uma gravura muito curiosa: Escorpião vermelho com estrela entre as patas (xilogravura, A5, 180g, 2025). Trata-se de um belo efeito obtido com o uso de tão poucos recursos. O monocromatismo pictórico e o domínio de escavar os tacos imprimiram à xilogravura uma excelsa beleza estética.
Em suma, as xilogravuras dizem respeito ao lado sombrio e mais complexo da existência humana, como a morte, a renovação e o sagrado. Todo esse aparato imagético condiz em número e grau com o mito de Perséfone, deusa da agricultura e das estações. Portanto, podemos constatar também uma grande quantidade de xilogravuras de rosas, chananas e outras flores.
Acontece que ela também é rainha do submundo, após o seu rapto por Hades, deus do mundo subterrâneo e dos mortos, que a sequestrou para vir a ser sua esposa. Perséfone passa metade do ano no mundo dos vivos e metade no submundo dos mortos. Preside a primavera e o verão, quando irrompem flores e frutos; quando desce ao mundo dos mortos, preside o outono e o inverno, estações frias.
5.

As xilogravuras coloridas são um caso à parte. Poucos conseguem ser tão bons quanto a artista. Pretendo arrolar algumas obras e discorrer pequenos comentários.
Uma delas, sem título (xilogravura, A5, 180g), representa um coração completamente vermelho, ornado com diversos elementos (Coração em chamas ou Sagrado Coração), provocando um efeito barroco, dada a grande quantidade de detalhes em uma figura centralizada. A configuração do coração no centro foi conseguida por meio de camadas justapostas, em dois grossos frisos alternados de vermelho e branco, com ornamentos emanados de todas as partes.
Quer dizer, também é um elemento pertencente ao Regime Noturno da Imagem, que aparece nas referências ao sagrado. Basta lembrar o culto ao Sagrado Coração de Jesus (Apostolado da Oração), da Igreja Católica. De outra parte, o inconsciente da artista caprichou em tudo, começando pelo
inusitado de uma xilogravura totalmente em vermelho. Percebe-se uma denúncia que acolheu a imagem como forte produto da intuição.
6.
A monotipia é uma gravura de apenas uma reprodução, ou seja, uma impressão que origina somente uma cópia. Sua arte diferencia-se da tradição das gravuras em madeira, que recebem o número do exemplar em cima e, embaixo, a totalidade da série (por exemplo, 34/100).
No caso de Letícia Paregas, ela mescla outras técnicas de gravuras, pintura e desenho, configurando um resultado de beleza estética singular, em um trabalho de natureza híbrida, com uma pegada de experimentação e desenvolvendo um trabalho autoral diferente da grande maioria dos xilógrafos.
7.

Além disso, vejamos suas linogravuras coloridas. Constituem-se talvez como o que de melhor produziu e continua a produzir. Realiza com imensa maestria, perfurando com naturalidade a placa de linóleo com a goiva, deixando entrever sua habilidade em escavar o suporte para depois passar o rolo com as tintas sobre o material em baixo-relevo.
Quem sabe, sabe. Pela maneira simples como trata seu trabalho, já conseguimos perceber como se autorrepresenta e como se garante, pouco ligando ou se interessando pelo trabalho alheio. Comedida e educada, parece se comprazer com sua introspecção e seu silêncio. Essa mulher transmite a imagem de que estar no mundo é motivo de júbilo e exaltação da vida, intrinsecamente voltada para seu trabalho.
Tem enorme apreço pelo desenho de animais: gato, tucano, borboleta, onça, arara-vermelha, peixes e ararinha-azul. Mais do que afeição pelos bichos, revela sua preferência por usar a figura do bicho como pretexto para demonstrar seu domínio técnico. Sua obra verga-se em um arco de grande amplitude, permitindo-lhe a liberdade de realizar uma infinidade de imagens que afirmam sua crença na arte de gravar em qualquer que seja o suporte, seja xilogravura, seja linogravura.
Com efeito, transita de maneira espontânea entre as duas formas de gravuras que requerem escavar determinado suporte, deixando um baixo-relevo para, enfim, passar o rolo com a tinta. O que foi retirado não recebe a tinta
monocromática em preto ou em mais de uma cor, tais como vermelho isolado ou mesclado com azul e verde.
A artista uniu seu inato talento à perseverante pesquisa de sempre aprimorar as técnicas, manuseadas com capricho e primor que causam estranhamento no melhor sentido do termo. Seu alcance estético conduz para que não haja alternância de valor no contexto da totalidade da sua obra. Tudo chega ao espectador como novidade, singularidade e digno de permanente elogio.
8.
Por fim, devemos nos orgulhar da nossa referência primeira no que tange à arte da xilogravura: João da Escóssia. No Museu Lauro da Escóssia, existe uma sala dedicada exclusivamente a ele e a seus trabalhos. Há uma grande quantidade de tacos na cor preta. Esse homem de atitude, iniciativa, criatividade e empreendedorismo estava bem distante de seus pares, olhando por cima das cabeças em direção a um futuro.
Sua semente era de qualidade; seu semblante sério conduzia-o a semear. Sua fisionomia era de quem já dizia a que veio, porque estava aqui. Era aquele tipo de pessoa que fazia um trabalho com esmero, sem buscar reconhecimento de pares ou de seu tempo. Plasmava uma obra de arte e esquecia, não gerava expectativas. É como aquele tipo de poeta que publica seus livros e não consegue decorar poema algum, não volta a ler as poesias que publicou, prefere arrumá-las na prateleira e trabalhar em outros livros.
Com efeito, é assim que o vejo, é assim que o sinto como esteta e como jornalista. Aonde quero chegar? Penso que a artista visual Letícia Paregas se parece muito com seu pai mitológico: cenho sem estardalhaço, dicção vocal mansa e uma aparência de rosto que guarda em seu imaginário pessoal a semente que outros foram passando de mão em mão até chegar a ela.
Não importa se isso assomou de maneira inconsciente. O que interessa é que também se ocupa em semear. Ainda bastante nova, sua seara já floresceu e deu bons frutos. Parece até que resguarda uma responsabilidade com seus ancestrais de mesmos afazeres e ofícios. Seu semblante como mulher feita denota um cenho que contempla o entorno a partir de uma fisionomia com a qual se garante, sem alarde de sua capacidade, eivada de responsabilidade e determinada a repassar seus conhecimentos através de cursos que ministra em muitos lugares.
Em suma, faltou ressaltar, ao longo do texto, o caráter de grande universalidade da obra de Letícia Paregas, sem caricaturas do regional ou representações pictóricas do Nordeste e de suas classes populares, como também das manifestações da cultura das classes modestas, como sucede a uma grande parte dos nossos artistas visuais.
Tampouco interessa à xilógrafa esses emblemas que se convencionaram como sendo integrantes do Nordeste, o que só fortalece o preconceito que outras regiões detêm sobre a região, haja vista as novelas com personagens nordestinos que aparecem nas redes sociais como traços inerentes a uma região com estados distintos. Ou seja, destacam-se elementos que dizem respeito à mais antiga região do país, e que não mais existem: retirantes, exaltação à miséria, cangaceiros com traços exagerados, culto a costumes já ultrapassados; ademais, sempre as moradias são de taipa, comprazendo-se em um modus vivendi extinto, com seus ciclos fechados. Federico Garcia Lorca pontua o estar do tempo, como se fosse algo de silêncio e repouso, bem diferente do Regime Noturno da Imagem:
O Tempo
tem cor de noite.
De uma noite quieta.
OBS:.As opiniões expressas neste ensaio são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da Revista Arte Brasileira.

