3 de junho de 2026

CONTO: O Desengano do Rock Star Paulistano (Gil Silva Freires)

Tinha uma guitarra elétrica, canções e sonhos na cabeça.

A paixão de Alécio pelo rock and roll era coisa herdada de um tio roqueiro que, hoje em dia, não tocava mais nada, mas tivera uma banda meio Velhas Virgens no começo dos anos oitenta. O tio de guitarra pendurada vivia dizendo que aquele garoto de dezenove anos tinha todos os predicados para sobressair no cenário musical.

Na garagem apertada, no Alto da Lapa, os ensaios da banda Gaia duravam horas. E só eram interrompidos no começo da noite, quando o pai de Alécio retornava do trabalho e o velho opala comodoro ocupava o estúdio improvisado.

Até aquele dia, Alécio, Jéferson e Fernando eram apenas mais uma banda cover se repetindo em shows esporádicos e o sonho de gravar um disco não parecia próximo de ser realizado. Mas tudo mudou de uma hora pra outra naquela tarde, quando uma gravadora entrou em contato com Alécio. Gostaram muito de uma fita demo que ele lhes enviara e estavam interessados em lançar o primeiro long-play da banda Gaia.

Era o sonho da vida de Alécio e ele mal podia acreditar. Tocou até altas horas sozinho no quarto e dormiu abraçado à sua dolphin preta.

Em um prazo de trinta dias, estavam tocando nos programas de televisão. Suas canções eram tocadas em rádios por todo o país e cantadas por multidões nos shows. O público tinha se rendido ao carisma de Alécio.

Os cachês eram cada vez maiores e Alécio já começava a fazer planos de montar um estúdio próprio. Já não andava pelas ruas de São Paulo sem que inúmeras pessoas o reconhecessem. Era muito gratificante entrar em uma loja e ver seu próprio disco como item de destaque.

Mas Alécio deixou-se levar pelo sucesso. Começou a ter ataques de estrelismo, evitava os fãs, participava de noitadas, faltava a compromissos em cidades menores, já não se entendia bem com os companheiros de banda.

Em mais seis meses pararam de tocar a banda Gaia nas rádios, já não eram convidados por programas de televisão, as pessoas seus discos passaram a ser vendidos como ponta de estoque nas lojas.

O sucesso tinha passado.

Alécio não podia conviver com aquela queda. Não imaginou que o sucesso da Gaia fosse durar tão pouco. Telefonou pros companheiros de banda e eles disseram que estavam pensando em desistir da música.

Alécio trancou-se no quarto e embebedou-se de uísque. Saiu de madrugada pra rua, com sua dolphin preta, cantando canções da Gaia e foi atropelado.

Morreu algumas horas depois, no hospital.

Naquela tarde, algumas horas antes, a gravadora resolvera produzir um segundo disco da banda e um fã-clube oficial tinha sido montado.

No exato momento em que Alécio dava entrada no pronto-socorro, essa frase era pichada no muro de sua casa: “GAIA, NÓS AMAMOS VOCÊ”.

Capa da publicação | Capa do conto “O Desengano do Rock Star Paulistano”, desenhado e idealizado por Gil Silva Freires.

CONTO: O Operário Dedicado e O Regozijo do Aposentado (Gil Silva Freires)

Seo Leocádio era o tipo de homem totalmente estável e mantivera o mesmo emprego durante toda a vida. Se haviam.

LEIA MAIS

Quem é Ariano Suassuna? (por Marcelo Romagnoli, diretor e dramaturgo da peça “Mundo Suassuna”)

Ariano Suassuna (1927-2014) nasceu na capital da Parahyba e sempre defendeu o Brasil profundo. Poderia ser em Macondo, mas foi.

LEIA MAIS

CONTO – “Luen: Na completa escuridão” (Samuel da Costa)

Alika, não sabia o que dizer, nem o que fazer, paralisada ela passou a prestar atenção, na figura abissal, que.

LEIA MAIS

CONTO: A Falta de Sorte no Pacto de Morte (Gil Silva Freires)

Romeu amava Julieta. Não se trata da obra imortal de Willian Shakespeare, mas de uma história de amor suburbana, acontecida.

LEIA MAIS

Artistas destacam e comentam álbuns de 2023 e de outros anos

Sob encomenda para a Arte Brasileira, o jornalista Daniel Pandeló Corrêa coletou e organizou comentários de onze artistas da nova.

LEIA MAIS

A invisibilidade da mulher com deficiência física (por Clarisse da Costa)

Eu amei o tema da redação da prova do ENEM de 2023: Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho.

LEIA MAIS

Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa, é inspiração do também Bernardo Soares, cantautor do “Disco

Olá! Eu sou Bernardo Soares, um artista da palavra cantada, compositor de canções que atua a partir de Curitiba, no.

LEIA MAIS

Podcast Investiga: A arte como resistência política e social (com Gilmar Ribeiro)

Se a arte é censurada e incomoda poderosos do capital, juízes, políticos de todas as naturezas, chefões do crime organizado,.

LEIA MAIS

Francisco Eduardo: retratos, andanças e marinas fundam uma poética

Veredas são caminhos abertos, livres entre florestas inóspitas ou suaves e são símbolos de ruas de escassez de cidades com seus bairros de.

LEIA MAIS

Crítica: Rui de Oliveira pelos Jardins Bodoli – de Mauricio Duarte

 Crítica: Rui de Oliveira pelos Jardins Boboli – de Mauricio Duarte   O que acontece quando um mestre da arte.

LEIA MAIS