24 de outubro de 2026

CRÔNICA: Algumas Considerações sobre a Metafisica – Por Rodrigo Avelino

 

Qual a utilidade dos sentimentos nos dias de hoje? Não pensem que pretendo cair no clichê romanesco de dizer que o mundo atual é um berço vazio de frivolidades, que semeia cegamente a luxúria superficial da pele que habitamos… Não! Não é sobre isso que quero falar, pois afinal os sentimentos – mais especificamente o amor, que é, talvez, o mais poderoso deles – ainda existem, tão intensos como eram a milhares de anos atrás (onde reinavam apenas eles e os instintos mais primitivos do homem)… O problema é que os tempos modernos nos obrigam a suprimi-los. É disseminado, em nosso meio, um medo crescente e constante de que sentimentos extravasados possam gerar alguma constrangedora histeria coletiva de pessoas emocionais, e isso seria ruim para os negócios.

Quero discutir sobre algo mais verdadeiro, mais palpável, e, embora quente e aconchegante, pode ser cruel, melancólico, brutal… Falarei sobre aquelas coisas que sentimos de maneira repentina, como uma tempestade em alto mar, só por contemplar aquela pequenina luminosidade certa num determinado par de olhos em meio à multidão… Algo tão corriqueiro, mas, ainda sim, devastador.

. . . . . . . . . . .

E numa manhã qualquer ela chegou.

Sentou-se na poltrona a minha frente, na sala de espera do consultório – onde eu aguardava um exame de rotina para solicitar meus medicamentos. A química toda foi rápida demais, meu cérebro mal pode acompanhar as palpitações no peito, os dentes trepidarem e o calafrio insuportável na boca do estômago… Quando me dei conta, estava apaixonado!

Seria óbvio demais dizer que ela era linda? Claro que seria, esses amores sempre o são… Não é mesmo?

Ela sorriu para secretária quando atravessou a porta vítrea, de modo que pude ver covinhas nas suas bochechas suavemente coradas – talvez pelo mormaço. Covinhas em volta do sorriso delicado e modesto, brilhante como teclas de marfim de algum piano caríssimo. Tinha um rosto delgado e suave, queixo e nariz pequeninos, mas o semblante angelical contrastava com algo um tanto selvagem.

A ação toda de sua entrada foi assistida por mim totalmente sem folego – sem qualquer exagero nessa afirmação. É fato que não consigo me lembrar de ter respirado do instante em que ela entrou até ir se sentar na cadeira ao lado das revistas. Deslizou sobre o piso encerado, com um vestido azul, simples e todo estampado com girassóis – depois dela, eu sempre olho um canteiro de girassóis com outros olhos. Minha visão atordoada se esgueirou por cima dos óculos e passearam pelo corpo dela, um corpo esguio, mas lindo… Olhei, devorei-a com os olhos na primeira oportunidade que tive; completamente alheio ao mundo exterior, alheio a qualquer constrangimento, e confesso que seus cabelos encaracolados e cor de cobre fizeram os meus ossos derreterem por debaixo dos músculos, pois senti tudo amolecer e o peito inflar, esquentar…

Como eu disse, quando me dei conta já estava apaixonado.

Devia ter pouco menos de dezenove anos, e lembro muito bem do breve momento que ouvi sua voz, melodiosa e sorrateira, um pouco depravada. Gosto de pensar que Shakespeare, caso ainda estivesse entre os vivos, entoaria sonetos para ela, ou, no mínimo, tomaria o veneno destilado dos amantes as margens do Avon se não tivesse o seu amor.

A cabeça pensava apenas nela, apenas no desejo de dizer um “oi”, puxar conversa, dizer, de alguma maneira implícita, subentendida, que ela me encantara, mas não disse uma única palavra… Suprimi meus sentimentos, atendi ao pré-requisito do mundo moderno e evitei o constrangimento dela (acima de tudo) e o meu. Agi como um bruto que ama em silêncio, pois assim é o amor dos brutos; calado, frustrado, inalcançável… Metafisico.

Foi quando ouvi a secretária dizer “próximo”, me fitando com um ar compassivo, como se tivesse entendido minha intempérie. Eu entrei na sala do médico, vi a silhueta de minha musa sumir na fresta da porta que se fechou. Quando saí, a garota ruiva não estava mais lá… Eu nem pude vê-la partir, nem pude menear a cabeça para ela – afirmando que eu a amei, sim! Mesmo que por alguns minutos – ou abanar a mão, ou olha-la tempo o suficiente para distinguir se seus olhos eram verdes ou azuis…

Nunca mais a vi, porém jamais a esqueci.

 

Rodrigo Avelino é um cartunista efetivo do jornal ‘A Comarca’ da cidade de Monte Azul Paulista, mas nutre uma grande paixão por literatura – seja Realismo, Naturalismo, Conversas Prosaicas, Modernismo, Cosmicismo ou quais queres outros “ismos” -, e pelo hábito de escrever todos os dias.  Primeiro contista premiado, durante os anos escolares, com uma medalha do conselho de ensino por um conto de terror, e logo em seguida por uma crônica.  Aprecia longas caminhadas na praia, torta de limão, Terry Pratchett e Luis Fernando Verissimo. Não gosta: Gente mau humorada e aqueles lacinhos nos embrulhos dos presentes. 

 

 

 

 

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