12 de dezembro de 2025

[CRÔNICA] “Entre Esquinas”, de Leila Rodrigues

Crônica “Entre Esquinas”. de Leila Rodrigues.

 

“Um dia turbulento é como um furacão invisível. Não há fumaça, não há fogo, mas há destroços. Naquele fim de tarde eu estava destroçado pelo meu dia cruel. Eu precisava de um colo ou de qualquer coisa que pudesse aquecer a frieza da minha alma. Àquela altura, um trago ou um gole de café bem quente era o que eu tinha, embora não resolvesse o meu problema. Sentia a minha nuca pressionar o meu cérebro e sabia exatamente que era a minha pressão subindo a cada minuto. Um homem na minha idade jamais vai assumir que tem medo, mas eu sabia nitidamente o peso das decisões que me aguardavam e os riscos que eu corria.
A rua vai me fazer bem, pensei. Liguei o som bem alto para não ouvir meus pensamentos e comecei a virar esquinas desordenadamente. Eu que sempre tive um destino certo para tudo e para todos, naquele momento não tinha destino algum. Só uma vontade de continuar andando. Esquinas sempre me intrigaram. E o que há depois de cada esquina depende de cada olhar.
Alguns bares começavam seus expedientes enquanto outras tantas pessoas se aglomeravam no ponto de ônibus a espera da ‘condução’. Eu procurava um rosto conhecido, uma porta aberta ou qualquer coisa que pudesse parar a minha cabeça a mil. 
Parei no sinal e vi a moça fazendo malabarismo com alguns tacos. Depois ela cuspiu fogo e saiu correndo entre os carros tentando arrecadar algum dinheiro. No canto da esquina estavam seus pertences. Sua vida provavelmente. Lembrei-me da minha casa de quatro quartos, do apartamento na praia, dos meus dois carros na garagem, da quantidade de ternos no meu armário… Sorri para a moça e torci para que ela me sorrisse de volta. Queria muito conhecer o sorriso de alguém que vive com tão pouco. Não foi difícil. Ela sorriu e me pediu um cigarro. Respondi que não fumo e ela disse “também não, mas levo para o meu marido”.
Acelerei o carro e continuei virando esquinas. Parei no primeiro bar e pedi algo líquido. Enquanto eu engolia o líquido âmbar que me queimava a garganta, a minha cabeça disparava um filme onde o protagonista era eu. Parado, imóvel esperando chegar a coragem para prosseguir eu lembrei-me de todas as mulheres que eu tive. Uma por uma. Todas lindas, impecáveis! E acredite, eu amei cada uma delas. Lembrei-me da moça cuspindo fogo e em seguida sorrindo para mim. E eu aqui com medo de correr riscos. Desejei não ter casa, desejei não ter nada. Desejei ter apenas as esquinas e alguém me esperando com alguns cigarros amassados na mão.”
 
 
 
Gostou? Você pode conferir outros textos da autora, clicando aqui.
 
 
 
 
 

FAROL DE HISTÓRIAS – Projeto audiovisual que aproxima crianças da leitura

Para Michelle Peixoto e Vinícius Mazzon, a literatura tem seu jeito mágico, prático e divertido de chegar às crianças brasileiras..

LEIA MAIS

Pietro desce às regiões pelágicas do ser

Apesar dos sete mares e outros tantos matizes somos um. Henriqueta Lisboa 1. Malgrado as secas periódicas e as terras nem.

LEIA MAIS

Podcast Investiga: Por que o rock deixou o mainstream brasileiro? (com Dorf)

As novas gerações se assustam quando escutam que o rock já protagonizou o mainstream brasileiro. Não à toa. Atualmente, o.

LEIA MAIS

LITERATURA DO RAP, por Luiz Castelões

O rap é o mais importante gênero musical-literário do final do séc. XX.Assim como o post de rede social é.

LEIA MAIS

Podcast Investiga: Elis Regina em detalhes (com Julio Maria)

O experiente jornalista musical e biografo Julio Maria é autor do livro “Elis Regina. Nada Será Como Antes”. A obra.

LEIA MAIS

Curso Completo de História da Arte

Se você está pesquisando por algum curso sobre história da arte, chegou no lugar certo! Aqui nós te apresentaremos o.

LEIA MAIS

CONTO: O Desengano do Rock Star Paulistano (Gil Silva Freires)

Tinha uma guitarra elétrica, canções e sonhos na cabeça. A paixão de Alécio pelo rock and roll era coisa herdada.

LEIA MAIS

CONTO: Os Bicos de Gás e o Cigarro King Size (Gil Silva Freires)

Maldita família. Malditos papai-mamãe-titia, como diziam os Titãs. Kleber era fã incondicional dos Titãs e a proibição paterna de assistir.

LEIA MAIS

CONTO: O Operário Dedicado e O Regozijo do Aposentado (Gil Silva Freires)

Seo Leocádio era o tipo de homem totalmente estável e mantivera o mesmo emprego durante toda a vida. Se haviam.

LEIA MAIS

MÚSICA CAIPIRA: Os caipiras de 1962 ameaçados pela cultura dos estrangeiros

Em 1962, Tião Carreiro e Carreirinho, dois estranhos se comparados ao mundo da música nacional e internacional, lançavam o LP.

LEIA MAIS