2 de maio de 2026

Poeta português fala de sua relação com o Brasil e de sua poesia [ENTREVISTA]

 
Essencialmente é difícil arriscar uma definição ou nascimento, uma vez que é também uma descoberta constante para João, que adotou o nome de Capanga como uma forma de liberdade de escrita e expressão.
 
Segundo ele, o nascimento de “João Capanga” pode ter acontecido em 2012, quando ele criou esse “personagem”.
 
O poeta mora em Porto, e é convicto de sua paixão pela arte brasileira, e em especial, pelos poetas nacionais. As escrituras dele são expressas em molduras de cadernos e posta no instagram, na qual conta com 7 mil seguidores.
 
 
 

 

O que você aprendeu ao longo dos anos em que pratica sua arte? Como aplica isso a realidade?

Ao longo destes anos aprendi inúmeras coisas. Sobretudo, aprendi a utilizar esta arma que é a escrita. Uma arma capaz de nos defender e capaz de chegar ao coração dos outros. 
Aprendi a trabalhar a minha visão. Uma visão mais sagaz, capaz de ter um olhar mais fundo nas trivialidades da vida. E aprendi que os outros são, numa grande generalidade, boas pessoas, que me ajudam e que me alegram por serem receptivas ao que escrevo. 

Na realidade, escrevo porque preciso. É uma grande necessidade tirar o que vai no peito. 
Para mim é maravilhoso materializar pensamentos, torná-los reais, palpáveis e passíveis de serem transmitidos. Se nao tivesse este escape, certamente estaria em agonia.

 

 Por que você diz que 2012 foi o “nascimento” do seu carácter artístico?

2012 foi o ano em que comecei a escrever com mais método, a coleccionar o que escrevia e quando criei este carrasco literário – João Capanga. Reparem… Não se negoceia com um capanga! Este personagem, ou heterónimo, como quiserem chamar, dá-me a possibilidade de escrever literalmente o que eu quiser! Tanto as coisas mais vis e más, como as coisas mais doces ou outras perversões, todas elas ainda assim, são coisas intrinsecamente humanas. O Capanga, desde que nasceu tem vindo a exercer as opiniões que não costumam sair da cabeça pois são censuradas pelas esferas em que nos encontramos. 

 

 

Como você trabalha sua poesia? Em algum momento, você chega a mencionar o Brasil e seus poetas?

Sim, faço referência ao Brasil. O vosso português não é igual ao nosso. Não falamos o mesmo português. Até em Portugal não se fala a mesma língua portuguesa, nem em Macau, nem em Moçambique, nem em Angola, nem em Cabo-Verde. Os brasileiros, tal como os africanos dos PALOP falam um português bem mais gingado, com muito mais elasticidade e criatividade, e eu gosto muito disso. O meu português no entanto é seco e pesado, com alguns palavrões pois sou do Porto e as pessoas são mais quentes na linguagem e eu amo isso também. 

A minha poesia é trabalhada num processo trifásico: pensamento livre; pensamento mágico; pensamento real. Mas não é algo estanque, eu gosto muito de ouvir e ler outros poetas. E no que diz respeito aos brasileiros há sempre dois nomes que eu gosto muito. Vinicius e Drummond. Não sei como conseguiam escrever tão bem. Mas ainda gosto de ouvir as entrevistas de Hilda Hilst.

Não sei se têm esta noção, mas o samba e a bossa nova são uma moda que tem ficado pelo Porto, trazido pelos estudantes Erasmus que estudam aqui. As vozes de estes e outros poetas são veiculadas nessas músicas que me encantam. 

 

 Do que falam suas poesias?

Tenho 2 tipos, as frases nos cadernos, que são um haiku japonês ou uma citação e os poemas propriamente ditos e lidos. 

Falam de sexo, das mulheres, da psicologia, do obscurantismo da tv, das coisas pequenas, das coisas grandes como a morte e a vida. 

 

 

Quais foram seus lançamentos?

Eu não tenho nenhum livro lançado. Tenho algumas participações em antologias. Hoje em dia qualquer um pode ter um livro editado pelas vanity press, 1000€ chegam para isso e muito mais. Não. Eu não quis fazer isso. Sinceramente, nem morro de amores por uma espécie de elitismo que a poesia tem. Não sei se vou tentar publicar e tentar impingir os meus poemas a outros. Prefiro outras coisas. Um poema não tem de estar fechado num livro. Fiz uma exposição e preparo-me para lançar um documentário onde aí se refletem alguns dos traços mais importantes do Capanga. O teaser sairá no dia 1 de Julho. Uma obra que foi feita com a colaboração de Ivo Gomes, videógrafo e amigo.  

 

Quais suas influências poéticas e artísticas no Brasil?

Já falei dos poetas brasileiros, mas também gosto muito dos poetas americanos, norte-americanos do sec.XX. Mas um poeta não se inspira só com outros poetas como é óbvio. Vocês têm outros artistas poderosos, como é o caso dos gémeos na streetart, Vik Muniz na fotografia, Romero Britto  na pintura, e no cinema… O cinema é brutal. 

 

 

Tem alguma história ou curiosidade interessante que envolva seu trabalho?

Geralmente peço a outros artistas, muito maiores do que eu para lerem o meu trabalho. O gigante Chico Buarque esteve aqui no Porto este mês… Escrevi-lhe uma carta e pedi para que lhe entregassem. 
Cheguei a pedir inclusivamente  ao meu Presidente da Republica, à Adriana Calcanhoto (que nunca me respondeu) e a outros que efectivamente leram um poema meu e lhes fico grato para sempre. 

Fazer isto é um misto de alegria e dor. Alegria pois tenho a crença e a liberdade de lutar pelo que acredito. Dor por ás vezes me sentir ignorado ou por estar a “rastejar”. Afeta-me o Ego. Mas talvez o Ego precise de ser afetado… 

 

Fique à vontade para falar o que quiser.

Aplausos ou apupos… Mas ao menos um eco. Envio mensagens para o espaço (internet) na esperança de mexer com alguém. Por isso decidi escrever para vocês, atravessar o mar para escrever para um País irmão, que me diz muito e que infelizmente só conheço através da cultura. 

 

[ENTREVISTA] Em novo livro de poesia, Lorena Brites traz o diferente ao brincar com as palavras

Tropicalismo: o movimento que revolucionou a arte brasileira

 

Revista Arte Brasileira apresenta série escrita, “Clarice no País da Putaria”, de Luan FH

 

 

 

 

 

O que acha de ser homem como sua avó foi? É o que sugerira composição

“Seja Homem Como sua Avó Foi (por Myriam)” é uma composição que foge de tudo que é comum. Se trata.

LEIA MAIS

As várias versões da “Balada do Louco”

No documentário “Loki – Arnaldo Baptista” (2008), o ex-mutantes Arnaldo Baptista é definido como “a própria personificação” do eu lírico.

LEIA MAIS

Resenha do filme “O Dia em que Dorival Encarou o Guarda”, de 1986 (por Tiago

Olá a todos! Feliz ano novo! Vida longa e prospera! Bom, a primeira obra do ano se chama “O Dia.

LEIA MAIS

Podcast Investiga: Quem foi o poeta Augusto dos Anjos? (com Augusto César)

O 9º episódio do Investiga buscou informações sobre os principais pontos da trajetória pessoal e profissional do poeta brasileiro Augusto.

LEIA MAIS

Curta a Festa Junina ao som de “Arraiá da Aydê”

A festa junina originou-se antes mesmo da Idade Média, há séculos. No Brasil, foi trazida pelos portugueses ainda no Brasil.

LEIA MAIS

Comentários sobre “Saneamento Básico, O Filme”

Dialogo do filme: Figurante #1 -Olha quem vem lá!! Figurante #2 – Quem? Figurante #1 – É A Silene! Figurante.

LEIA MAIS

Como nasce uma produção musical? O caso de “Lord Have Mercy” diz que vai além

O cantor e compositor norte-americano Michael On Fire tem em “Lord Have Mercy” um de seus hinos mais potentes. Michael.

LEIA MAIS

Podcast Investiga: Quem foi o poeta Roberto Piva (com Jhonata Lucena)

O 10º episódio do Investiga se debruça sobre vida e obra de Roberto Piva, poeta experimental que viveu intensamente a.

LEIA MAIS

Carlos Gomes: um naïf registra e exulta uma pintura lúdica

O homem benigno faz bem à sua própria alma, mas o cruel perturba a sua própria carne. Provérbios, 11, 17.

LEIA MAIS

O folk voz e violão de Diego Schaun no EP “Durante Este Tempo

Quatro canções formam o novo EP do baiano Diego Schaun, cantor e compositor de música folk que estreou nas plataformas.

LEIA MAIS