10 de outubro de 2026

Um conto descontraído do embaixador brasileiro em Cabo Verde, Bert Jr.

O que esperar de um diplomata brasileiro? Muitos assuntos sérios, provavelmente. No entanto, o conto que apresentamos a seguir é de um autor descontraído, inspirado e baseado numa relação que rodeia a essência do célebre escritor Mário Quintana. O texto a seguir é de Bert Jr., diplomata e embaixador brasileiro na República de Cabo Verde, na África, e faz parte do seu livro recém-lançado “Do Incisivo ao Canino”.

“Perfil” – Bert Jr. – (Conto)

“O teu sorriso é imemorial como as Pirâmides

E puro como a flor que abriu na manhã de hoje.”

Sempre admirei o poema de Mario Quintana dedicado à musa do cinema, Greta Garbo. Dois versos que transmitem ao mundo o que aquela figura inalcançável era capaz de inspirar. A portentosa beleza do que parece eterno, junto à fragilidade do efêmero. Imponência e delicadeza em máximo grau. Fusão de opostos, que aturde e transporta, como toda boa poesia, para a dimensão do insólito, onde se flutua, ou se é achatado, numa atmosfera de gravidade nunca coincidente com a que nos é costumeira.

Embora longe de ser um Quintana, acalento certas veleidades poéticas. Volta e meia, me chega inspiração para compor uns versos, anotados no que houver à mão: um guardanapo de papel, um extrato bancário, ou mesmo o bloco de notas do celular. Nunca, porém, tivera o ímpeto de dedicar a alguém um poema feito Dois versos para Greta Garbo.

A maioria de meus contatos se dá em ambiente virtual, por meio das redes sociais. E estas não possuem o encantamento mágico do cinema – fábrica de grandes ídolos e mitos. Por isso, surpreendeu-me descobrir, por acaso, um perfil no Instagram que me colocou de joelhos. “Curiosava” os likes na postagem de uma “amiga” virtual, quando deparei com o insólito. A propósito de uma foto em que minha “amiga” aparecia de biquíni, na praia, li a frase: “Tua beleza amplifica a do dia”. Não era, convenhamos, um comentário comum. Sua linguagem pulsava numa veia poética. Imediatamente, passei a investigar o perfil desconhecido, que se chamava @grata_noultimo. A “bio” era desprovida de informações pessoais, possuindo uma única linha de 85 apresentação: “Devora-me ou decifro-te!”. Pior que uma marretada, pois se tratava de uma citação de ninguém menos que Mario Quintana, retirada do breve poema A esfinge. Estava feita a conexão.

O seu feed continha frases de forte originalidade, intercaladas com imagens de cenários naturais, em que a dona do perfil era retratada à distância, feito espécime de uma fauna exótica, capturado graças a um feliz movimento de câmera. Apenas se percebia o cabelo longo, as linhas gerais do corpo, sem se chegar a discernir o desenho dos olhos e da boca. Passei imediatamente a segui-la no Instagram. Fiz mais. Mandei-lhe uma mensagem, como nos tempos do Quintana se enviavam cartas, ou bilhetes. Elogiei seu perfil no Insta, pedindo que visitasse o meu. Dois dias depois, verifiquei que curtira alguns de meus poemas. Porém, não me seguiu de volta.

Aquilo me feriu. Coincidíamos na admiração a um grande poeta nacional. Por que evitava seguir-me? Sentia-se superior por possuir o quíntuplo de seguidores? Resolvi contornar a questão, perguntando o que achara dos meus poemas. A resposta chegou por meio de uma postagem: “Ouço, em ti, o que desconheço de mim. No que não dizes, me adivinho”. Sem pensar duas vezes, perguntei se era comprometida. A resposta veio cifrada em seu próximo post: “Liberdade é o dom de não se prender. É conviver com o sonho em nossas escolhas”. Animado, propus uma conferência por vídeo. No dia seguinte, chegou uma nova postagem sua no feed: “Eu abro as minhas portas. As janelas, serás tu que abrirás”. Perguntei se morava na mesma cidade que eu, se poderia encontrá-la pessoalmente, se aceitaria tomar um café comigo, ou sair para jantar. No final do mesmo dia, havia uma nova frase em seu perfil: “Sou ativamente lânguida. Não espero, apenas me faço pronta”.

A essa altura, comecei a estranhar essa forma enigmática de relacionamento. Uma parte de mim passou a duvidar de que as postagens representassem, de fato, respostas às minhas perguntas. Por outro lado, se eram reações às minhas mensagens, pareciam seguir uma tática de evasivas, permitindo à misteriosa dona do perfil inspirar-se e divertir-se, simultaneamente. Depois de muito me torturar com tais dúvidas, decidi sondar a nossa “amiga” comum, com quem troquei áudios sobre o assunto. Descobri que a dona do perfil e minha “amiga” virtual se conheciam há tempos. Minha obsessão se chamava Rafaela, era casada e tinha dois filhos. Perguntei desde quando escrevia. A “amiga”: “Rafaela, escritora? Hahaha! Você sabe o que é ghost-writer?”

Doeu. Doeu muito. Mas, pela primeira vez, me senti quase um Mario Quintana, quando, no meio da madrugada, acordei sobressaltado, com os seguintes versos a transbordar do peito:

Duas linhas para @grata_noultimo

Teu perfil é confiável como as fake news

E sedutor como as juras eternas sob o luar.


Foto de capa / Crédito: Pedro Moita

A luta da mulher e a importância de obras que contribui nessa jornada

Não tem uma receita básica, não nascemos prontas. Aprendemos com a vida. Diariamente temos que lutar para se afirmar. Porque.

LEIA MAIS

Ana Canan: metáforas da solidão extraídas da natureza

Clique aquiClique aquiClique aqui Perfil Ana Canan FlickrClique aqui Previous Next Suave é viver sóGrande e nobre é sempreviver simplesmente.Deixa.

LEIA MAIS

CONTO – “Luen: Na completa escuridão” (Samuel da Costa)

Alika, não sabia o que dizer, nem o que fazer, paralisada ela passou a prestar atenção, na figura abissal, que.

LEIA MAIS

O folk voz e violão de Diego Schaun no EP “Durante Este Tempo

Quatro canções formam o novo EP do baiano Diego Schaun, cantor e compositor de música folk que estreou nas plataformas.

LEIA MAIS

Novo pop rock de Jan Thomassen se esbarra na “crise dos 40” 

“Envelhecer consciente de que não há caminho de volta”. É este um dos pensamentos do novo single do cantor e.

LEIA MAIS

Curta a Festa Junina ao som de “Arraiá da Aydê”

A festa junina originou-se antes mesmo da Idade Média, há séculos. No Brasil, foi trazida pelos portugueses ainda no Brasil.

LEIA MAIS

Rosana Puccia dá voz a mais dois temas atípicos no mercado musical brasileiro

Em atividade discográfica desde 2016 quando apresentou o álbum “Cadê”, Rosana Puccia é, de verdade, uma colecionadora de canções atípicas,.

LEIA MAIS

Rogério Skylab: o feio e o bonito na MPB

Criador do estilo “punk-barroco” (o punk que se expressa através de contrastes), o compositor Rogério Skylab (1956 -) é um.

LEIA MAIS

Jardel: o silêncio que sopra sussurros do longe

Os humanos são sozinhos.Por mais que haja amizade, amor,companhia, a solidão é da essência. Clarice Lispector  1. Jardel (João Pessoa,.

LEIA MAIS

Editoras para publicar seu livro de ficção científica e fantasia

Para aqueles que amam a fantasia e a ficção científica, sejam leitores ou escritores, trago aqui três editoras brasileiras que.

LEIA MAIS