5 de outubro de 2026

Poema “É na força do ódio”, de Deyvid W. B. Rosa

É na força do ódio

Minha cabeça queima e pulsa.
Pareço um palito de fósforo que caminha com uma chama
dez vezes maior
do que os prédios da avenida.

Meu coração explode como uma bomba
não de sangue,
mas de fogo
e de ódio.

O ódio lateja e quero quebrar todos
os dentes
do homem que atravessa a rua e leva, no carrinho,
o filho que ele não pariu.

Olho ao redor, oxalá todas as luzes da cidade se apagassem,
todos os carros parassem,
todos os homens explodissem e suas tripas
cobrissem todo o asfalto.

Que o sangue e as vísceras dos homens fluíssem pelas sarjetas e bocas de lobo.

Merda.
Que do rapaz de cabelos loiros e penteados que caminha apressado restem apenas
sangue e
fezes.

Incorporar o ódio da senhorinha de um metro e cinquenta centímetros
que cerra os olhos e o cenho
e não espera o sinal de pedestres abrir para atravessar.
Quero ver algum carro ousar passar por ela.

Ela caminha com seu passo pequeno,
decidida,
todos os cabelos brancos e todo o ódio do mundo por ter, a vida inteira,
se dado, e dado, a apenas um único macho inútil e escroto.

Com ela, picaríamos em pequenos cubinhos
o corpo
de todos os homens no caminho,
com sua faca bem amolada e sua nova tábua de bambu que leva na sacola.

Trituraríamos seus ossos até que se tornassem pó.
As fezes e o sangue,
passaríamos nos umbrais das portas e janelas de todas as casas do país.
Nas casas de todos os homens do país.
Talvez poupemos os homens que já explodiram um dia.
Não em esperma, evidentemente.
Pouparemos os homens cujas veias já explodiram,
cujos corações já batem fora do compasso.

—

A música alegre não me deixa destilar o ódio.
A Luz chega com seus olhos de menina e não me deixa cultivar o ódio.
O senhorzinho encurvado que esteve aqui pela última vez há sessenta e dois anos e me mostra sua foto em preto e branco no meio do concreto e aço
não me deixa desejar apenas a morte e a destruição de tudo e todos.

Ainda resta alguma poesia encarnada
ou concretada.
Não consigo odiar a ópera em formato de ondas e conchas.
Só não posso acreditar.

Calo-me.
Sinto o tanino na língua
e o vinho quente descendo no meu
esôfago.

Não me importo em responder “não” ao mendigo que procura o remédio contra a impotência.
Não me importo se meus cabelos são o retrato quase perfeito do
caos
que governa meus miolos.

Continuo ouvindo a lista de reprodução de músicas que coloquei para tocar e
todas elas são
incompatíveis
com meu estado de espírito.

Nada,
absolutamente
nada
me faz querer queimar o grupo de três amigas que falam uma língua que não reconheço.

Estou sentado. Nada faz sentido.
Meu ódio se apazigua a cada gole, mas meu coração não se cansa,
não descansa,
não diminui o ritmo,
continua pulsando o sangue e o fogo mais de uma centena de vezes por minuto.

O ódio e a náusea batem incansavelmente na minha aorta.
Eu poderia quebrar todas as minhas falanges naquela parede, mas me contento em destilar o ódio nesses versos pobres e podres.
O problema é de quem perdeu seu tempo em ler esta droga.

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