24 de junho de 2026

A obra de João Turin que sobreviveu a 2ª Guerra Mundial

No Memorial Paranista, sediado em Curitiba (PR) com intuito de preservar e expor a obra do paranaense João Turin, há uma peça extraordinária, além do que pode imaginar. Se trata de uma escultura que sobreviveu a Segunda Guerra Mundial e data como perdida durante quase sete décadas. Eu explico a seguir.

Definida como uma Pietá, é de cunho religioso e foi construída na França, em 1917, quando o autor residia no país. Ela foi instalada na Igreja de Saint Martin, já que sua criação homenageava os combatentes mortos na Primeira Guerra Mundial da cidade de Condê-sur-Noireau. Esses soldados (anônimos, claro) são ilustrados em volta da imagem de Jesus Cristo e da Virgem Maria.

Milagre ou não, a escultura de pedra manteve intacta mesmo diante da igreja ter sido parcialmente destruída. Porém, com boa parte dos arquivos da cidade aniquilados, os vestígios da existência da obra se apagaram. A esse fato, explica-se o esquecimento da Pietá. A única referência seria uma foto do acervo do pesquisador Saul Lupion. Essa informação foi primordial no resgate da obra.

A Pietá esquecida durante quase 7 décadas.

O RESGATE

Em 2013, um dos detentores dos direitos autorais de Turin, Samuel Lago, confirmou as suspeitas. Era realmente o trabalho do artista.

“Encontramos nos escritos deixados por Turin uma referência dele a uma obra que foi feita quando ele andava pela Normandia. Mas quando ele relatou isso cometeu um erro de grafia no nome da cidade. Então não se conseguia encontrá-la. O professor José Roberto Teixeira Leite, autor do livro ‘João Turin – Vida, Obra e Arte’, escreveu uma carta para algumas prefeituras da Normandia. Felizmente ele recebeu resposta da cidade de Condé-sur-Noireau que confirmou que estava lá uma obra assinada por Z.Turin, em vez de J.Turin, como ele costumava assinar. O ‘Z’ é a inicial de seu nome do meio, Zanin, o que dificultou um pouco mais a busca. Mas eles acharam que poderiam ser, mandaram resposta e de fato foi encontrada a Pietá”, relata Samuel.

A partir de então, se iniciou um processo cuidadoso e difícil de tentar trazer a Pietá ao Brasil, de alguma forma.

“Foi montada uma equipe multidisciplinar com um produtor brasileiro que morava na França na época, Odilon Merlin. Mandamos para lá o escultor brasileiro Elvo Betino Damo, que coordenou a moldagem no local. Depois disso, o molde foi transportado de navio para o Brasil, onde fizemos a primeira fundição inédita em bronze da Pietá”, relata. Todo esse processo foi registrado no documentário “A Pietá de João Turin”, dirigido por Fabrizio Rosa e produzido por Samuel Lago.

SOBRE O MEMORIAL PARANISTA

O Espaço está localizado em Curitiba, no Paraná. Por lá são encontradas quase 100 obras do artista que ao longo da vida produziu um montante que ultrapassa 400. O local é divido em dois: área interna de exposição permanente com 78 esculturas em tamanho original, todas doadas pela Família Lago, a detentora dos direitos autorais do artista; e área externa com mais de 13 obras em bronze, sendo que todas estão em tamanhos ampliados, algumas com proporções inusitadas.

A ideia do Memorial é preservar e difundir a obra de João Turin.

Saiba tudo sobre no site oficial da instituição.

Obra de Turin exposta no parque do Memorial

SOBRE JOÃO TURIN

Em quase 50 anos de carreira, João Turin deixou mais de 400 obras. Há esculturas em locais públicos no Brasil e na França. Turin também está no acervo de arte do Vaticano. A escultura “Frade Lendo” foi entregue como presente do povo brasileiro para o Papa Francisco, em 2013, na primeira visita do pontífice ao Brasil.

Nascido em 1878 em Morretes, no litoral do estado do Paraná, João Turin veio ainda garoto para a capital Curitiba, iniciando seus estudos em artes, chegando a ser professor. Em 1905 foi para a Bélgica, onde se especializou em escultura. Depois passou 10 anos morando na França, até retornar ao Brasil em 1922, trazendo comentários elogiosos da imprensa francesa. Foi premiado no salão de Belas Artes do Rio de Janeiro em 1944 e 1947. Faleceu em 1949.

Em junho de 2014, seu legado foi prestigiado pelas 266 mil pessoas que visitaram “João Turin – Vida, Obra, Arte”, a exposição mais visitada da história do Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, que ficou em cartaz por 8 meses. Esta exposição também teve uma versão condensada, exibida em 2015 no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, e na Pinacoteca de São Paulo.

SERVIÇO

Memorial Paranista João Turin: Rua Mateus Leme, 4700 (Curitiba, Paraná).
Agendamento de visitas no site www.curitiba.pr.gov.br/memorialparanista
Redes sociais: @escultorjoaoturin e facebook.com/escultorjoaoturin
Documentário “A Pietá de João Turin”: https://www.youtube.com/watch?v=P7Xlh92EzSo
Vídeo com detalhes da moldagem: https://www.youtube.com/watch?v=LK5CVSCPo7U
Vídeo sobre o Memorial Paranista João Turin (legenda em inglês):https://youtu.be/wxxtuNEcOEM

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