2 de maio de 2026

[ENTREVISTA] Foli Griô Orquestra lança álbum para “se dançar com consciência”

(Foto/Divulgação)

 

A Foli Griô Orquestra surgiu dentro da UNIRIO – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro como uma matéria de pesquisa do curso de música. Alguns jovens se juntaram e decidiram pesquisar a linguagem irreverente e sofisticada do Afrobeat, gênero musical criado por Fela Kuti, um nigeriano já falecido.

Apesar de já estar no meio musical há um bom tempo, o grupo está lançando seu primeiro álbum, com nove faixas inéditas e autorais, fruto de uma longa e imersa pesquisa, com apoio, inclusive, de pessoas que vivem no sangue a raiz do Afrobeat e suas manifestações como um todo.

Um trabalho tão minucioso e com uma perfeição única, não poderia passar em vão. O mínimo que poderíamos fazer era entrevistar o grupo, e foi isso que fizemos. Confira após o próximo texto e o álbum que está no Youtube e também em outras plataformas digitais.

 

MAIS SOBRE A BANDA

Após um período de estudos obrigatório pelo curso, os jovens decidiram seguir com o projeto e a pesquisa, ainda sem nome, e se aventurar nesse mundo do beat, do transe.

Algum tempo depois surgiu o nome FOLI GRIÔ, que significa “ritmos contam histórias” como é traduzido pelo grupo.

O som ultrapassou as paredes das faculdades, os jovens cresceram, a vontade de falar das suas próprias angústias e vontades aumentou, e o grupo de consolidou em 10 integrantes, que estão juntos com o objetivo de fazer música dançante com consciência.

 

 

Todas as respostas são de Laura de Castro, responsável pelas Claves, percussões leves e Voz

 

Acho muito interessante vocês nos contarem o “porquê” do álbum. Quais foram as inspirações e o impulsionamento para vocês terem a ideia de gravar este trabalho?

Quando nos juntamos, nosso objetivo era pesquisar a linguagem do Afrobeat, gênero musical criado por Fela Kuti (Nigéria) e seus parceiros de banda, porém com o tempo sentimos a necessidade de criar nosso próprio som, tínhamos coisas pra falar, tínhamos temas que gostaríamos de abordar nas nossas músicas. Assim, começamos a compor. Esse é o porquê do nosso álbum, é colocar pro mundo o que queremos dizer.
O Afrobeat tem um viés político muito forte, quisemos trazer isso para o nosso contexto, falar através da nossa voz, do nosso lugar de fala.

Um baile político, uma música pra dançar com consciência.

 

Em relação a essa resposta, quais as ligações pessoais e profissionais que vocês têm com tudo que está no álbum?

O álbum tem uma complexidade grande de camadas, traz temas como a desapropriação de casas pelo governo de forma ilegal, traz as crenças de um povo, traz várias culturas de vários povos, traz a promessa de uma nova nação que está surgindo…

Alguns músicos da banda têm ligação direta, profissional e pessoal, com os ritmos brasileiros que foram trabalhados no disco. Vamos aos festejos, participamos dos rituais, tocamos e dançamos as tradições nas ruas. 

Quanto aos temas das músicas, todos são temas que nos atingem enquanto ser vivente na cidade do Rio de Janeiro e do Brasil.

 

Os toques e as cantigas sagradas de diferentes manifestações culturais que permeiam a Música Brasileira, fazem de “AJO” um álbum perfeito para quem quer estudar a cultura do Brasil.

Acreditamos que, através do disco “AJO”, muitas pessoas possam se interessar em pesquisar a fundo alguma, ou todas, as manifestações que trazemos. O disco tem mais um papel de fomentar a pesquisa, de ser uma faísca que acenda o fogo da curiosidade e do saber do que, de fato, representam aquelas culturas. Cada um dos ritmos tradicionais brasileiros é muito complexo e traz junto com ele uma forma de se comportar, de se vestir, de comer, de beber, de viver… Nós, que não vivemos essas culturas no nosso dia a dia (como os mestres e/ou representantes dessas culturas) não podemos dizer que tocamos no palco o Maracatu de Baque Virado, por exemplo, nós tocamos um som que tem inspiração e pesquisa nas frases rítmicas, bases, fraseados e história do Maracatu, mas que não dá conta de representá-lo em sua essência. 

 

O álbum é fruto de uma longa pesquisa em tudo que o envolve, conceitos, letras, melodias, arranjos, etc. Como foi esse processo de imersão nas pesquisas?

Nós somos pesquisadores! Gostamos muito de estudar e temos muito respeito por cada coisa que colocamos no nosso trabalho.

Foram 3 anos de pesquisa, muitos encontros, muitos ajustes, muitas dúvidas, até que chegássemos ao “AJO”.

Nós nos reunimos semanalmente, além das reuniões de produção também semanais, e durante esses 3 anos fomos nos entendendo enquanto grupo e enquanto um coletivo de pesquisadores. Fizemos imersões onde nos focamos no estudo e nas criações de cada música. O desafio é fazer um som único onde se ouve a individualidade de cada um. O indivíduo que potencializa o grupo, essa é a ideia das composições da Foli Griô Orquestra.

 

Pelo o que vi, vocês tiveram o apoio de pessoas que conhecem muito tudo isso.

Quando decidimos trazer os ritmos das manifestações populares pro disco não pensamos duas vezes em propor os encontros com os “mestres”. Nossos mestres são pessoas que vivem as manifestações no seu dia a dia, que trabalham com elas, que tem uma base de ensinamento profunda e cuidadosa.

São eles: Dofono de Omolu, Cacau Amarau, Alexandre Garnizé, Jéssica Castro, DJ Vinimax, Cebolinha do Passinho.

Com cada um deles nós fizemos uma vivência, aprendendo sobre o ritmo, suas histórias e suas danças. Eles também deram suas opiniões sobre a música que trabalhava o seu ritmo específico e gravaram conosco no disco, isso foi uma alegria, poder registrar esse encontro. Hoje temos todos eles como grandes parceiros e amigos. São conselheiros, são mestres e aprendizes. É fantástico.

Também no disco tivemos as participações de Ekedi Nissinha, Lenine, Carlos Malta, Guilherme Luz, Ana Bispo, Ribinha de Maracanã e as crianças Issac, Cecília e João Pedro.

 

Somando tudo isso, como foi o processo de composição das nove faixas inéditas?

Nosso processo de composição é demorado, cada faixa, além de ter uma duração acima do “comum”, tem uma riqueza de detalhes e, como falei anteriormente, busca unir a individualidade dos 10 componentes e fazer um único som. Nós acreditamos que os ritmos contam histórias (daí vem o nome do grupo) e assim criamos, testamos, recriamos até acreditarmos que estamos conseguindo contar a história que queremos através do som.

As faixas “Boi.1”, “Boi.2” e “Boi.3” demoraram cerca de 2 anos para serem finalizadas. Quando entramos no estúdio tínhamos a certeza de estar transmitindo o que queríamos. 

 

Você(s) tem alguma(s) história(a) ou curiosidade(s) para nos contar?

A primeira vez que ouvimos a proposta da faixa “Rainha”, logo alguém no estúdio soltou: “gente, isso parece música do Lenine.”

Aí começam as brincadeiras. “imagina um dia cantar com ele”, “imagina se um dia ele grava nossa música”.

Cerca de um ano e meio depois, já na fase de gravação, um amigo próximo da banda ouviu a faixa e disse: “nossa, parece coisa do Lenine.”

Aí rolou os risos e a gente comentando: “né. Imagina se um dia ele grava com a gente”.

E o amigo disse: “bom, pergunta pra ele se ele quer gravar”.

E num é que ele quis! Foi assim, mandamos a faixa “AWO” pra ele, ele ouviu, gostou do som e disse “topo”. Foi uma experiência incrível vê-lo ouvindo a “Rainha” pela primeira vez, reagindo, dançando junto. Depois a forma como ele pegou a melodia e encaixou na própria boca, na linguagem que lhe é tão própria.

Salvem os mestres.

 

Fiquem à vontade para falarem o que quiser, coisas que não perguntei e que vocês gostariam de ter dito.

Importante dizer que esse projeto só foi possível graças a campanha de financiamento coletivo através da plataforma da Benfeitoria. Foram nossos mais de 400 benfeitores que fizeram desse sonho uma realidade palpável! 

Também vale contar que esse disco foi produzido e mixado por André Magalhães, um produtor e músico fantástico de São Paulo, hoje um grande amigo.

 

 

 

 

 

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