24 de agosto de 2026

[ENTREVISTA] Santos lança o atípico álbum “O espaço abre, o céu pesado cai”

(Crédito: Pedro Arantes)

 

Em “O espaço abre, o céu pesado cai” é uma obra atípica, uma viagem cujo caminho se passa por muitos sentimentos, e por questões emergentes. Este é o mais recente álbum de Santos, multi-instrumentista, que em 2019 lançou dois EPs. “O espaço abre, o céu pesado cai” encerra este ciclo e foi a melhor forma do artista anunciar pausa indeterminada em seus lançamentos.

“Com a maior parte das coisas que cantava e sentia durante o processo de ‘Afeto’, hoje eu me defronto em outras circunstâncias, olhando para esse passado com uma distância reflexiva e necessária. Esse disco gira menos em torno de minha individualidade e busca pensar questões espirituais, existenciais e políticas de forma mais livre e crítica”, reflete ele.

Em sua discografia, Santos brilhou nos álbuns autorais “Suor” (2016) e “Afeto” (2018). “O espaço abre,  céu pesado cai”, é um lançamento dos selos Diáspora, Creep Machine Records e Paracelso Records.

 

 

Você usa o “céu” como uma metáfora para explicar o seu autodescobrimento, na sua busca por novos horizontes. Nesse sentido, qual a importância deste álbum para a sua vida pessoal e na música?

Esse céu pesado é muito mais uma metáfora sobre o que se segue depois que sentimos que o espaço foi aberto para a gente. É exatamente uma virada não muito otimista até, é sobre o peso do novo, da mudança. Esse álbum volta a ser uma forma de eu compreender minhas vivências e pensamentos através de da experimentação artística que dá no resultado que se pode ouvir.

 

Por que você diz que essa fase que está passando teve seu pontapé inicial em uma festa junina em Aglomerado da Serra (Belo Horizonte)?

Essa festa junina foi o dia em que me veio à cabeça essa frase, também o dia em que eu me senti completo em tudo que estava fazendo e vivendo. Relacionamento estável, contas pagas, rodando em outra cidade pra tocar, tudo indo bem. Uma série de eventos desde então foram virando minha vida de cabeça pra baixo e mais um pouco, eu sinto que essa festa é um marco disso.

 

O que liga os álbuns “Suor” (2016), “Afeto” (2018) e “O espaço abre, o céu pesado cai” (2019)? E mais, qual seria o conceito dessa ligação?

Acho que o que liga é apenas a minha vida mesmo. Cada disco reflete um momento musical e pessoal diferente. Em relação a conceito de disco, as introduções instrumentais serem a forma de abrir os álbuns são uma ideia que se mantém até hoje. Não são álbuns interligados, como os EPs também não são.

 

“O Espaço abre, o céu pesado cai” podemos dizer que te tira desse universo por um tempo indeterminado, o que vai te levar a buscar novas inspirações. Explique isso para nós.

A minha decisão de parar com o projeto por tempo indeterminado e focar em outros surge de um cansaço que passei a sentir em relação ao próprio fazer musical independente, por essa perspectiva, do Santos, da “cena” que se relaciona com o projeto, etc. Além dessa sequência de mudanças abruptas na minha vida, a dificuldade de se manter a sanidade em relação a questões financeiras e étnicas que tenho observado por esses anos nesse meio me fizeram decidir parar por um tempo.

 

Tanto a parte poética quanto musical, evidencia muito que este álbum é uma entrega profunda de sentimentos.

Com certeza, eu busco entregar meus sentimentos em cada faixa. Porém, acho que também busco compreender as coisas, busco questões o tempo todo que vão pra além de sentimento. Esse disco é o que tem mais sobriedade em relação a temas, ao não focar tanto só no íntimo, mas falar sobre o que está fora também. Destaco “Lili vai cantar”, “Preta” e “Afro-futurismo”, nesse sentido.

 

Por que você diria que essa fase musical sua pode ser descrita como “Música acidental?”

Música acidental é na real como entendo meu processo já há algum tempo, desde que comecei a turnê de lançamento do “Afeto”. Neste processo eu busco desconstituir ou desconstruir algumas convenções simples mesmo, como por exemplo não ter mais que dois ensaios antes dos shows, se possível apenas um, e dar margem ao improviso na maior parte do tempo. Muito do que gravei nesse disco e nos outros foi feito de improviso também, principalmente as linhas percussivas, e eu penso como coisas acidentais, movimentos pouco convencionais que tão intrínsecos a todo processo mesmo. Chamo meu som de tanta coisa, noise universitário, afro-grunge…

 

O que você versa nas faixas deste álbum?

Vamos lá, uma por uma resumidamente. “Eleito” é uma faixa que escrevi poucos dias após a eleição de Bolsonaro, é sobre esperança no meio político, esperança de levantar depois da queda, como sugere. “Criação de Maa Ngala” é uma faixa de agradecimento à relação que mais me ensinou e mudou nos últimos anos. “Impasse” é uma metáfora sobre a grande materialidade desse mundo, o poder que sempre está distante de nós e, no meio disso e de nossa pequenez, nossa busca por sobrevivência. “OEAOCPC” é um pouco sobre frustração em relação ao meio da arte. “Guias são as sombras” é um pouco sobre frustração e depressão. “Ela” é um interlúdio, foi tudo que consegui escrever pra uma música que acabei não querendo desenvolver, mas me trazia calma cantar. “Preta” é sobre a potência da mulher preta, sobre como ela que garante a paz, a justiça e a liberdade, sobre rua, favela, cidade. “Lili vai cantar” é uma mensagem de esperança aos cativos. “Afro-futurismo” é sobre um conflito de gerações que é motor da dificuldade de consenso político entre os oprimidos.

 

Você tem alguma(s) história(s) ou curiosidade(s) interessante(s) para nos contar?

Esse disco foi inteiramente feito em quartos, como o primeiro. E só teve uma participação de fora (Nathanne, em “Criação de Maa Ngala”). Não optar pelo estúdio tira da comodidade. Teve dias que eu tinha que pedir à minha família pra parar de falar um pouco ou ir pro cômodo mais distante. É engraçado gravar assim tão exposto a eles, tem vez ou outra que ouço um estranhamento, do tipo “que coisa doida é isso que cê gravou”, me acostumei com o tempo.

 

Fique à vontade para falar algo que eu não perguntei e que você gostaria de ter dito.

Agradeço ao site Revista Arte Brasileira pela disposição à entrevista, pela pauta e agradeço a todas as pessoas que me acompanham nesses anos. Muita fé e gratidão.

 

 

 

 

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