3 de junho de 2026

CONTO: Fixação Autêntica e Gêmeas Idênticas (Gil Silva Freires)

Antônio Pedro estava casado havia mais de um ano e ainda não tinha aprendido a distinguir sua esposa da irmã gêmea. Não existia nada que facilitasse a identificação imediata, nenhuma diferença no timbre das vozes, nem mesmo uma pequena pinta preta no rosto, sequer uma diferença no tom esverdeado dos olhos.

– Quem mandou eu me casar com uma uni vitelina – vivia brincando Antônio Pedro. – Um dia ainda cometo adultério sem saber.

Antônio Pedro era completamente apaixonado pela esposa Ana Maria, marido bom e dedicado. Mas o fato é que também tinha verdadeira fixação pelos dotes físicos da cunhada Ana Cristina que, se era idêntica à irmã, também despertava nele desejos semelhantes. Em outras palavras: Antônio Pedro não era rigorosamente fiel e fantasiava o engano de dormir com a gêmea errada. Por isso Antônio Pedro vinha lançando furtivas cantadas à cunhada, sem despertar a desconfiança da mulher.

E aconteceu que as cantadas surtiram efeito, a cunhada não era rigorosamente leal à irmã e acabou por aceitar um convite pra um motelzinho.

– Olha lá, hein? Vai ser uma vez só, Toninho.

– Só quero matar essa curiosidade, Ana Cristina. Você sabe que eu amo sua irmã e não quero magoá-la por nada nesse mundo.

Antônio Pedro certificou-se de que a esposa estaria o dia todo trabalhando na boutique e partiu com a cunhada pro motel. Era o mesmo motel onde costumava ir, vez ou outra, com Ana Maria e isso o fazia sentir-se meio canalha. Mas seria uma vez só.

– Você tem certeza? – perguntou Antônio Pedro, quando já estavam sentados na cama redonda.

– Você não garantiu que será só uma vez, Toninho?

Como preliminar ele pediu uma garrafa de uísque. Precisava beber pra eliminar a ponta de remorso que sentia. Tomou meia garrafa e sentiu-se pronto. E foram às vias de fato, realizando aqueles desejos secretos.

Depois de ter descoberto que sua cunhada tinha tantas qualidades quanto sua esposa, Antônio Pedro pediu uma garrafa de champanhe pra comemorar os bons momentos. Mas a champanhe não chegava nunca.

– Vou buscar essa droga de champanhe pessoalmente, Cristina. Assim aproveito pra dar uma chacoalhada nesses indolentes.

Antônio Pedro vestiu o robe e foi até a copa do motel. Apanhou a bebida, bronqueou com os funcionários e retornou pro quarto. Parou no meio do corredor e ficou em dúvida, meio desorientado pelo uísque.

– Qual é mesmo o número da porcaria do quarto? – resmungou, examinando as portas todas iguais.

Entrou porta adentro e sentou-se na cama, ao lado da cunhada, que ficou olhando pra ele com espanto. Antônio Pedro deitou-se ao lado dela e estourou o champanhe.

– Um brinde ao nosso segredo, querida.

Encheu duas taças e entregou uma pra ela. A cunhada segurou a taça e continuou olhando pra ele boquiaberta.

– To… To… Toninho… Eu… Eu…

– O que você tem? Está passando mal?

Nesse momento um homem saiu do banheiro cantarolando, totalmente nu. Ele e Antônio Pedro se encararam, sem compreender.

– Cristina, quem é esse cara? – perguntou Antônio Pedro.

– Quem é esse cara, Ana Maria? – perguntou o homem nu.

– Cristina? – perguntou Ana Maria.

– Ana… Maria? – perguntou Antônio Pedro.

– O que está acontecendo aqui? – perguntou o homem nu.

No momento em que a mente clareou, Antônio Pedro deduziu que a esposa não tinha à boutique naquela manhã, que não era o único a cometer adultério e que tinha entrado no quarto errado.

Ainda sob os efeitos do uísque, avançou na direção da janela aberta e se atirou de uma altura de dez metros.

  • Escrito por Gil Silva Freires em dez de outubro de 1996

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