19 de agosto de 2026

Duo de música eletrônica faz a façanha de produzir e gravar um EP em apenas 24 horas [ENTREVISTA]

Foto: Rafael Passos

 

Não sei se dá para dizer que isso foi um feito inédito, mas se não, está perto de ser. O Duo D_M_G conseguiu fazer a façanha (e também loucura) de produzir e gravar um EP em apenas 24 horas. Até mesmo o nome do trabalho (H.I.D) foi criado 10 minutos antes do lançamento.

— A grande experiência que ficou deste desafio de produção foi a interação de todos que estiveram conosco no momento em que estávamos fazendo o disco. Da mesma forma que a gente faz os shows do D_M_G em simbiose com o ambiente, as músicas também foram gravadas captando as dicas e as relações que ocorreram no estúdio no momento da gravação —, comenta D. Jesi, uma das metades do duo, que tem do outro lado o músico R. Rodig.

 

Abaixo, veja uma entrevista que fizemos com Daniel Jesi, integrante do Duo.

 

 

Primeira curiosidade: como vocês conseguiram fazer essa façanha de produzir e gravar um álbum em 24 horas?

Então… Tivemos que nos desapegar de algumas coisas nesses anos de projetos experimentais. O D_M_G surgiu pela necessidade de trabalharmos mais com instrumentos que usa o sampler como fonte de amplificação da criativa. A ideia que gostamos, é que a composição tenha as variáveis ambiente e emoção em primeira linha. Gostamos também de coisas mais artesanais simples e também com muitas camadas. De Moebius a fanzines, do home Studio a Super estudios. O que procuramos é a emoção que nos faz mover. Então produzir um álbum em 24h, para nós, é a procura diária de exercitar caminhos para achar canais emocionais com as ferramentas que temos. Vejo que esse disco, fazendo analogia com uma fotografia, é como tirarmos uma foto sem maquiagem refletindo tudo que temos de bom e também de defeituoso. E aceitar que isso faz parte do todo que gostamos.

Alberto de Araújo, produtor que nos acompanha há muito tempo, juntamente com J Caetano Júnior, ilustrador, toparam a responsa de criar e desenvolver tudo na primeira impressão. Porque nada que tocamos tinha uma forma definida.

Outra variável importante é que fazemos parte de um núcleo Criativo chamado BBS. Isso também ajudou muito para que isso acontecesse. Lá temos figuras que têm um grau de necessidade de realização incrível. Não tinha como não citar Diogo Almeida, Sara Andrade, Maíra Rosas, Gutemberg Cunha, Iuri Araujo, Mariah Benaglia, Joana Araújo, Bidu, Jamila Marques, Jana Santos, Maíra Costa, Nildo Gonzales, Pedro Regada, Ruanna Gonçalves, Aline Bezerra, Kalyne Lima, Camila Rocha, Thiago Silva… Só para ter uma ideia de quantas pessoas passam alguma hora pela sede do BBS para falarmos de projetos, pensamentos ou ajudar numa gravação como foi a do D_M_G.

Então…Voltando  para “como vocês conseguiram fazer essa façanha de produzir e gravar um álbum em 24 horas?” Juntando tudo isso que falei mais a facilidade tecnológica que o computador dá. Separamos principais recortes de samples que já tínhamos executado ao vivo e unimos com o improviso do teclado>KaosPAd que Rieg fez num take único. Tudo que tocávamos, Alberto de Araújo recebia num mix, imprimia seu filtro e logo depois passava para o computador para ser captado.

 

E qual foi o resultado, na opinião de vocês?

O resultado é uma fotografia sonora mágica para mim. Escutando as musica lembro das emoções sentidas e lombras que passamos juntos na captura. Tinha coisas na hora que eram perguntadas a quem estava acompanhando a tudo. Muitas vezes os arranjos das músicas eram estimulados pela instiga da galera que estava na sala. Isso dava um reflexo direto nas pausas e nas melodias que surgiram. Gosto até do ruído da mesa. Queríamos aceitar isso e usamos como um elemento de filtro para a produção do disco.

 

E as composições das cinco faixas, como foi? Desde quando elas vêm sendo criadas?

As músicas nunca são as mesmas. Só fica o nome. Digo isso porque usamos uma Mpc 1000 e lá, em cada projeto que abro, é como se fosse uma junção de coisas que tem o mesmo universo ou que combinam por determinado aspecto. Tem hora que combinam pelo tempo, outra hora pelo tom, ou pelo discurso, ou por dar um som ambiente que é interessante. Gostamos de fazer recorte também de filmes. É incrível que muitas vezes o som do ambiente é tão marcante que ajuda até a você imaginar o que acontece ali, mesmo de olhos fechados.

Essas músicas estão sendo criadas desde que começamos a tocar com máquina de samplers. Todas elas em algum momento foram tocadas num show. Algumas achamos uma fórmula mínima que sabemos que dá certo, outras mudaram com o tempo. Mas isso depende muito de onde vamos tocar. Tem hora que nem abro todos os samplers que existem no projeto porque a improvisação já está preenchendo o que precisa para o ambiente.

 

Eu não poderia deixar de perguntar o significado do título do álbum (H.I.D).

Essa é fácil! H.I.D (Human Interface Device). Esse nome surgiu 10 min antes de lançarmos o disco. Tinha tudo haver com o que estávamos fazendo.

 

Para vocês, o que é o álbum musicalmente?

O álbum é formado por recortes sonoros que formam uma imagem de quem somos enquanto projeto na atualidade. Como se fosse um 3×4. A musicalidade está na capacidade que tivemos de reação num espaço curto de tempo. Como descoberta, é bom provocarmos essa reação. Acreditamos que a reação que tivemos perante a ideia de juntar pessoas, delimitar tempo e lançar faz parte do que somos. A partir disso vamos fazer ações para que as reações sejam o que visualizamos de mais harmônicas.

 

E poeticamente?

Poeticamente é libertário. Podemos fazer nesse projeto o que queremos. Ter a possibilidade de arriscar num mundo tão competitivo nos torna menos padrão para prateleiras. No início a ideia era só live sessions. Fazer uma compilação das músicas e gravar era algo distante. Mas conforme fomos achando um discurso e nos envolvermos com pessoas através desse projeto. Sentimos a necessidade de registrar isso. E a poesia vem assim. Trabalhando menos com o racional e mais com irracional. Cada projeto que fazemos, de certa forma, se forma uma entidade que gerencia a caminhada. Queríamos que isso fosse relaxado, livre de expectativa para que a entidade pudesse se expressar com qualquer Harmonia e tipo de som.

 

Tem alguma história ou curiosidade interessante que envolva o álbum?

O próprio dispositivo de criação em 24h é um dos elementos mais curiosos em relação a esse projeto.

 

Fique à vontade para falar o que quiser.

Queria agradecer ao BBS Crew https://www.facebook.com/bbsaev/?ref=br_rs  pela energia cedida. Com essa galera estamos revendo e fazendo coisas que não imaginávamos fazer. Quando possível deem uma olhada para o que está acontecendo em João Pessoa. Do cinema ao Jazz está rolando muita coisa. Estou muito feliz de participar desse movimento em que o público está cada vez mais a procura de novidade e questionando sobre o que você produz.

 

 

 

 

 

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