Somos uma revista de arte nacional, sim! No entanto, em respeito à inúmeras e valiosas sugestões que recebemos de artistas de diversas partes do mundo, criamos uma playlist chamada “Além da BR”. Como uma forma de estende-la, nasceu essa publicação no site, que agora chega a sua 277ª edição. Neste espaço, iremos abordar alguns dos lançamentos mais interessantes que nos são apresentados.
Até o primeiro semestre de 2024 publicávamos também no formato de texto corrido, produzido pela redação da Arte Brasileira. Contudo, decidimos publicar apenas no formato minientrevista, em resposta aos pedidos de parte significativa dos nossos leitores.
Milagro – “Clarity Calls” – (EUA)
– Em resumo, qual a definição da música em geral? “Clarity Calls” é uma canção mística e centrada na alma sobre a jornada interior rumo à verdade — aquele desejo silencioso e persistente de retornar à clareza que vive por trás do barulho da mente. Ela fala da experiência humana de carregar o peso do passado — memórias antigas, feridas emocionais e camadas de dúvida — e contrasta essa densidade com a vastidão luminosa e serena que existe dentro de nós, intacta.
Em vez de apresentar a clareza como algo a ser alcançado ou conquistado, a música convida o ouvinte a lembrar que a clareza já está aqui — ela surge naturalmente quando paramos de lutar, de analisar, e simplesmente nos permitimos ser. A letra usa símbolos da natureza — o céu, o vento, a luz — como espelhos dessa liberdade, porque a natureza expressa a verdade com naturalidade. Ela não luta para ser o que é, e nos mostra que a paz não é algo que conquistamos, e sim algo que permitimos.
No fim, essa música é tanto um chamado quanto um soltar — um convite suave para amolecer, escutar e voltar à simplicidade profunda do ser.
– O que você diz na letra, qual sua mensagem? A letra é um convite à entrega — parar de lutar contra a mente e abrir a porta do coração. Fala daquela voz interior que nos chama de volta para casa, além das histórias, dos medos e das expectativas. A música sugere que a cura e a clareza não são encontradas tentando consertar quem somos, mas sim amolecendo, ouvindo e deixando a vida fluir por nós.
Há também um contraste entre o passado — com seu peso emocional e seus padrões — e o momento presente, que é amplo, vivo e cheio de luz. A repetição da frase “Clarity calls” não é apenas poética — é um lembrete de que, por trás da confusão, algo mais profundo está sempre nos chamando de volta para nós mesmos. Essa é a essência da mensagem: você não precisa se tornar nada. Só precisa estar quieto o suficiente para ouvir o que já está chamando.
– E o que originou a composição? A música nasceu da minha própria jornada — a luta para soltar o peso das dores do passado e dos padrões emocionais que moldaram minha vida. Ela veio daqueles momentos silenciosos e humildes em que algo finalmente se solta, e por um instante, o ruído desaparece.
Às vezes, esse alívio vem durante a meditação, ou através de uma onda de entendimento inesperado. Outras vezes, ele simplesmente chega — na quietude de um pôr do sol ou sob um céu estrelado — momentos em que me dissolvo em algo maior que eu, e tudo parece simples, em paz e inteiro. Nesses espaços, não há pressão para consertar nada, nem passado a carregar — só a clareza, esperando em silêncio. Foi isso que inspirou a canção: esses vislumbres breves, mas profundos, de quem somos quando a mente se aquieta.
– Musicalmente, como você a descreve? Minhas influências musicais são vastas e entrelaçadas por muitos fios — pop, rock, folk, música clássica, latina, mundial e jazz — mas sempre tive um amor especial pelas canções dos anos 60, 70 e 80. Me atraem as melodias atemporais e letras que falam com sinceridade.
“Clarity Calls” tem um espírito suave de folk-pop-rock. É construída sobre a simplicidade — não como ausência, mas como força. O tom é gentil e sincero, com texturas acústicas e uma sensação de abertura emocional. Há uma inocência no som, como uma voz clara em uma sala silenciosa — nada chamativo, apenas música honesta feita para ser sentida. A intenção por trás da produção foi deixar espaço — para as palavras, para a emoção e para a reflexão do ouvinte.
– Quem é, afinal, a cantora Milagro? Milagro não é apenas uma cantora — ela é um canal para algo mais suave, mais profundo e atemporal. O nome significa “milagre”, e essa é a essência do projeto: criar um espaço onde a presença, a cura e a beleza possam se mover através do som.
Milagro não está limitada a uma só voz — ela é a voz que carrega o que precisa ser sentido. Às vezes suave, às vezes intensa, mas sempre verdadeira. Cada canção é uma faceta diferente da mesma luz. O que importa não é quem está cantando, mas o que está sendo oferecido. Milagro está aqui para nos lembrar de algo que, no fundo, já sabemos — que a clareza, o amor e a verdade nunca estão longe.
Milagro – Clarity Calls
Duke Cane – “Picnic After Dark feat. Zello” – (EUA)
– Qual a melhor sinopse deste lançamento? Uma fusão perfeita de R&B e música trap, que te teletransporta para o meio de uma interação de flerte, explorando a tensão crescente de uma noite só.
– E em que momento surgiu essa composição? O instrumental era algo que eu tinha guardado por um ou dois meses, mas assim que a bateria foi montada, a letra e o clima se encaixaram rapidamente.
– E a letra, o que especificamente ela diz? A letra fala de um caso de uma noite.
– Musicalmente, como você descreve a música? Um ritmo R&B lento e contagiante, com ganchos cativantes e letras e melodias sensuais.
– E, afinal, quem é o Duke Cane? Duke Cane é um guitarrista, compositor e produtor autodidata.
Respostas Duke Cane
Banjiboi – “Gutter Glory” – (EUA)
– Em resumo, qual é a definição geral de música? Pergunta interessante: para mim, é uma arte que permite experimentar sons e compartilhar coisas sobre si mesmo que você não conseguiria expressar em palavras. A música como forma de arte também oferece uma fuga poderosa das dificuldades e do caos da realidade, proporcionando conforto, expressão e uma sensação de conexão em momentos difíceis. Gutter Glory é uma prova do poder da música e um lembrete a todos os músicos de que a música não se trata de número de curtidas, mas sim de como ela faz você se sentir.
– Qual é o tema da composição? Uma homenagem aos pioneiros que fundaram um novo gênero no delta blues que, por sua vez, influenciou muitos outros gêneros da música americana.
– O que, de fato, te inspirou a compô-lo? Eu realmente adoro o som cru e corajoso das raízes americanas do Mississippi Delta Blues, mas também admiro a história por trás dele. Cresci em uma casa velha que estava caindo aos pedaços ao nosso redor, sem dinheiro para consertar nada. Mas eu amava aquela casa velha e tenho muitas lembranças de jam sessions com amigos e familiares na nossa varanda. Aliás, uma ideia para o vídeo era voltar àquela casa velha e ver se conseguia permissão para filmar lá, mas acabei decidindo não fazê-lo. Adoro que os fundadores do blues não tenham deixado a pobreza e a opressão impedi-los de criar algo belo e único. Eles frequentemente criavam instrumentos caseiros com itens domésticos e encontravam maneiras de improvisar para criar arte. Nada iria conter a emoção crua e a expressão do som que eles criavam. Seguindo esse legado, muitas das minhas músicas são tocadas em guitarras cigar-box feitas por artistas locais.
– Essa música é um revival da música americana antiga? Espero que sim. É um gênero que não se ouve tanto hoje em dia, então espero que os músicos encontrem maneiras criativas de mantê-lo vivo por muitos anos. Acho que o som e a performance ao vivo de instrumentos acústicos combinados com a eletrônica têm muito potencial e continuarão a crescer.
– “Gutter Glory” é uma das faixas do seu novo EP; fale sobre este trabalho. Gutter Glory mistura elementos de delta blues, americana, trip hop e música eletrônica moderna. Misturar gêneros pode não agradar a todos, e eu entendo isso, mas eu gosto de combinar estilos e ver aonde isso me leva.
Respostas Banjiboi
Nuclyos – “Se siente” – (EUA)
– Primeiramente, qual reflexão ou ideia gerou essa música? “Se Siente” nasceu de uma mistura entre desejo, vulnerabilidade e conexão espiritual. Eu queria explorar o momento em que duas pessoas se reconhecem energeticamente — antes mesmo das palavras. É uma canção que fala sobre presença, vibração e entrega emocional.
– E a letra em particular, o que diz? A letra fala de um sentimento tão forte que pode ser “sentido” no ar, no olhar, nos gestos. É sobre quando a atração vai além do físico e toca camadas mais profundas, quase como se as almas estivessem dançando antes mesmo dos corpos se aproximarem. A repetição de “se siente” reforça esse arrepio interno que vem com a intensidade do momento.
– Qual a proposta musical de “Se Siente”? Musicalmente, é um Latin Pop com influências R&B, percussões suaves e sintetizadores atmosféricos. A intenção foi criar uma vibe sensual, envolvente e ao mesmo tempo introspectiva — uma música que te faz dançar de olhos fechados, sentindo cada batida no peito.
– Há algo de curioso que você queira destacar? Sim! A base melódica da música veio de um improviso que gravei no celular durante uma caminhada. Só depois percebi que aquele trecho resumia perfeitamente a energia que eu queria transmitir. Também é uma das primeiras músicas em que deixei minha voz mais crua, com menos efeitos, para manter a autenticidade da emoção.
– Por fim, quem é Nuclyos? Nuclyos é o meu alter ego musical, um projeto onde busco unir razão e sentimento, corpo e alma, som e silêncio. É a parte de mim que transforma vivências e reflexões em som, que se conecta com quem sente além do óbvio. É mais que um nome — é uma missão artística.
Respostas Nuclyos
Lyn&TheFingers – “Don‘t Know Where to Fly” – (Alemanha)
– Qual é a definição de música em geral? A música é uma das formas mais importantes de compartilhar pensamentos, emoções, carinho e histórias, e sabemos que ela pode ter um grande impacto.
Ela tem o poder de simplesmente trazer as pessoas para o momento. Fazemos música porque amamos e queremos emocionar as pessoas. Ficamos felizes quando conseguimos colocar um sorriso no rosto do ouvinte ou levá-lo embora com uma história e compartilhando nossos sentimentos.
– O que você diz na letra, qual é sua mensagem? A letra fala sobre estar sobrecarregado, sobre as possibilidades de um jovem em nossa sociedade moderna e qual caminho tomar. Mesmo que você tenha decidido uma direção, ainda há muitos caminhos menores a seguir.
Na verdade, isso é maravilhoso e você pode ser grato por isso, mas também pode ser frustrante, pois esperam que você se comprometa. Você paira no ar e não sabe para onde voar, qual caminho é o certo para você.
A letra também fala sobre se sobrecarregar com coisas que você gosta. Muitas vezes é mais difícil dizer “não” a essas coisas. A música fala sobre a percepção de autosobrecarga e que você apenas corre atrás de todas as coisas boas que faz. Você percebe que, se você se sobrecarregar com muitas coisas boas, terá muito input, mas não fizer nenhuma dessas coisas corretamente e ficar para trás, não conseguirá mais processar todos os inputs corretamente. Então você também sente a pressão para tomar uma decisão, mesmo que seja difícil, e fazer algumas coisas a menos para não se perder.
– Musicalmente, como você descreve isso? É uma música animada e descolada, mas ao mesmo tempo melancólica e jazzística, com aspectos narrativos e várias partes individuais, desde uma introdução quase épica, um primeiro verso atmosférico, dois refrões enérgicos, um solo de trompete animado e um segundo verso até um solo de bateria quase mágico acompanhado de flauta e vocais e um final suave e pensativo.
Há algo curioso que você gostaria de destacar? O segundo verso, em particular, tem muita energia, acompanhado apenas por uma bateria livre e enérgica e linhas de metais, enfatizando a sobrecarga do “eu” lírico. No geral, é a versatilidade e a individualidade das diferentes partes da faixa que a tornam tão interessante, sem perder seu ritmo groovy.
– Afinal, quem é Lyn&TheFingers? Somos um jovem septeto de jazz e pop progressivo, formado por estudantes de jazz da Universidade de Música e Teatro de Leipzig, Alemanha, liderados por nossa cantora, Nora Lyn Handschuh. Nós nos formamos em fevereiro de 2023, quando espontaneamente tivemos a oportunidade de gravar algumas faixas de Nora Lyn em um estúdio pela primeira vez.
Em suas composições e arranjos, fundimos jazz e pop alternativo, sem medo de cruzar fronteiras para um estilo mais progressivo, experimental ou neo-soul. As letras de Nora falam de emoções profundas, saúde mental, reflexões sobre política e mudanças climáticas, e até mesmo histórias irônicas para dançar. Fazemos turnês por várias cidades da Alemanha com o objetivo de alcançar cada vez mais pessoas, inclusive além das fronteiras nacionais. Atualmente, estamos no processo de lançamento do nosso primeiro álbum. “Don’t Know Where to Fly” é o terceiro single do álbum.
Respostas Lyn&TheFingers

