21 de outubro de 2026

O dia em que aprendi a ouvir um olhar (Fredi Jon)

Por Fredi Jon (Grupo Serenata&Cia) – Eu tenho aprendido com Marli que existem silêncios que não são ausência. São presença em estado puro.

Ela já não pode falar, seus movimentos são limitados. Então comecei a prestar atenção em coisas que, para muita gente, talvez parecessem pequenas demais: um olhar que demora um pouco mais, uma sobrancelha que se mexe, uma expressão que muda quase imperceptivelmente.

Para mim, isso já virou conversa.  Hoje eu sei que Marli fala pelos olhos.

E olha que responsabilidade: eu chego com o violão achando que sei o que vou tocar e, em poucos segundos, percebo que o verdadeiro repertório está sendo escolhido por ela. Só falta ela me mandar a playlist.

Nem sempre Marli está feliz, de bom humor. Há dias em que uma música alegre parece não combinar com aquilo que seus olhos estão dizendo. Em outros, uma determinada canção provoca uma mudança tão sutil que talvez ninguém percebesse. Eu percebo.

E é aí que começo a entender que fazer musicoterapia não é simplesmente tocar músicas bonitas. É aprender a encontrar a música certa para aquele momento, para aquela lembrança, para aquele estado de espírito.

Porque a música não pergunta onde a memória está, ela simplesmente chega.

E quando chega, às vezes encontra alguém que estava escondido dentro de nós há muitos anos.

Marli já não tem ao lado o marido, nem o filho. Existem ausências que o tempo não apaga; no máximo, ele nos ensina a conviver com o espaço que elas deixaram.

Mas ela tem os netos, e existe algo muito bonito no presente que eles escolheram dar à avó. Eles poderiam oferecer flores, chocolates, qualquer coisa que coubesse numa embalagem.

Preferiram oferecer presença, música, memórias. E eu percebo que isso está fazendo bem a Marli.

Às vezes, no meio da música, ela consegue bater palmas. Não são palmas fortes, nem precisam ser. São pequenas manifestações de alegria, quase tímidas, mas para mim fazem um barulho enorme.

E talvez seja por isso que, a cada encontro, eu fique mais atento. Minha sensibilidade está indo numa boa direção. Preciso apenas estar presente o suficiente para perceber.

Um olhar pode ser uma palavra. Um movimento pode ser uma frase. Um silêncio pode ser uma história inteira, e talvez o momento mais difícil seja justamente a hora de ir embora.

Quando termino, me despeço e me aproximo para sair. Marli segura minha mão.

Ela não diz nada, apenas segura.

Seus olhos ficam marejados e, naquele instante, tenho a impressão de que eles estão me pedindo para ficar mais um pouco.

É difícil explicar o que acontece dentro da gente quando alguém, sem conseguir dizer uma palavra, pede simplesmente mais alguns minutos da nossa presença.

Eu beijo Marli e me retiro.

Saio levando comigo aquela mão, aquele olhar e aquela pergunta silenciosa que não precisa de resposta.

Quando alguém perde a voz, não significa que deixou de ter o que dizer. Às vezes, somos nós que precisamos reaprender a escutar.

Eu chego para cantar, mas, no fim, sou eu quem sai levando uma música nova.

A música do silêncio dela. A música que mora no olhar.

E quando Marli me olha durante uma canção, eu não sinto que estou diante de alguém que perdeu a voz.

Sinto que estou diante de alguém que encontrou outra maneira de falar.

E eu tenho o privilégio de aprender, pouco a pouco, a escutá-la.

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