13 de janeiro de 2026

A Canção que o Rádio Não Tocou

Era uma manhã de outono em 2003 quando Fredi Jon e Rosana deixaram a Zona Oeste de São Paulo, cruzando a cidade ainda sonolenta. No banco de trás do carro, um violão, um buquê de girassóis e uma ideia ousada.

O destino? O estúdio de uma famosa rádio, onde o radialista Roberto Ricardo — a voz inconfundível das madrugadas paulistanas — fazia seu programa diário. A ideia vinha de Lúcia, uma fã fiel que ouvia sua programação no Japão, dessas que sabem até a respiração entre as palavras do locutor. Mas sua devoção escondia algo mais: um amor calado, um carinho que nunca atravessaria a linha do possível. Como ele era casado, sua justificativa para a surpresa foi nobre: “É uma homenagem dos fãs! Todos estão conectados ao vivo!”

O detalhe curioso era que, naquela época, a rádio começava a testar algo revolucionário: transmissões simultâneas com webcam, permitindo que ouvintes vissem os bastidores pela tela do computador.

No estúdio, enquanto Roberto falava ao microfone, Fredi e Rosana aguardavam no corredor, olhos atentos ao operador de câmera que já estava a postos. Quando receberam o sinal, entraram cantando, a melodia preenchendo o espaço antes mesmo que ele pudesse perceber.

Roberto Ricardo congelou por um segundo, pego de surpresa, e então sorriu — aquele sorriso de quem acaba de reencontrar algo que nem sabia que tinha perdido. A voz da dupla soava como memória e presente ao mesmo tempo, enquanto os acordes do violão de Fredi pareciam sintonizar-se com algo além do som: um instante perfeito, feito de tempo e intenção. O figurino estilo anos 1920 o transportou imediatamente.

Do outro lado da tela, Lúcia acompanhava tudo, vendo o homem de quem gostava sem que ele a visse de volta. Mas talvez não precisasse. O amor, afinal, nem sempre precisa de reciprocidade para existir. Ele se basta no ato de oferecer.

A equipe da rádio se empolgou e virou cinegrafista improvisada. “Isso é histórico!”, alguém comentou. Era mesmo: um gesto simples, mas que só poderia acontecer naquela exata combinação de tecnologia, coragem e coração.

Quando a serenata terminou, Roberto limpou os olhos e sorriu:
— O rádio sempre foi voz. Hoje, virou rosto e alma também. Fredi arrematou: Pois é Roberto, hoje nossa mensagem vem longe, do outro lado do mundo trazendo um carinho coletivo que proporcionou esse momento tão especial pra todos nós.

Os músicos saíram do estúdio como haviam entrado: em silêncio, mas com o coração cheio. Às vezes, as palavras não são necessárias. O sentimento já havia sido transmitido, tanto pelas ondas do rádio quanto pelo brilho nos olhos de quem estava ali.

No fim, ninguém precisou dizer o que estava nas entrelinhas. O amor – seja ele qual for – sempre encontra um jeito de ser ouvido.

Texto de Fredi Jon. Outras histórias você encontra no MINUTO Serenata disponível no site: serenataecia.com.br e no YouTube

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