Como saber, se há tanta coisa
João Cabral de Melo Neto
do que falar ou não falar?
E se o evitá-la, o não falar,
é forma de falar da coisa?
1.

Adonay Dantas de Araújo (Caicó, RN, 1981) teve como mestres, na adolescência, André Vicente e Margareth Bueno. Talvez seja interessante transcrever um texto que ele me enviou no início da nossa primeira conversa: “Tudo começou ainda na infância, quando despertei meu interesse pelo desenho e pelas artes visuais em geral. Talvez a dislexia tenha contribuído para essa inclinação, já que encontrei na arte uma forma de expressão muito própria. Com o incentivo dos meus pais, fui desenvolvendo e aprimorando esse talento ao longo do tempo, até que ele se tornou parte essencial da minha vida”.
Fiz questão de dar voz ao artista para mostrar que qualquer transtorno, quer seja físico ou afetivo, não impede de forma nenhuma o emergir de outras formas, mesmo com limitações. Estas podem ser adquiridas durante a vida, como um acidente que deixa alguém cadeirante ou algum transtorno afetivo. Como a pessoa vai ser ou ficar depende do auxílio de quem está mais próximo.
Claro que a dislexia por ele aludida é um transtorno relacionado à aprendizagem, tendo sua causa originada por problemas da constituição neurobiológica do cérebro. Isso acarreta dificuldades na aprendizagem de ler, escrever ou soletrar. Vê-se que um indivíduo acometido pela dislexia já entra em desvantagem quando chega à idade escolar e é submetido ao chamado ensino formal.
Conheço outros casos nos quais não se tomaram as devidas providências para compreender que a escola pode ajudar, e muito, nessa superação ou atenuação. Hoje em dia, existem escolas com algumas turmas de crianças ou adolescentes que recebem uma maneira diferente de compreender e fazer uso da linguagem.
Ora, os mais interessados em amparar e procurar ajuda médica e educacional são os pais, para que haja o prazer de ter esse filho requerendo uma atenção mais singular, diferente de outrora. Antes, as pessoas limitadas pela síndrome de Down eram motivo de vergonha para os parentes mais próximos. Ainda bem que isso mudou. Nos shoppings ou restaurantes é muito comum se deparar com essas pessoas. Via de regra, são amáveis e extremamente simpáticas.
No que concerne a Adonay Dantas, parece que se ungiu artista visual pelo fato de ser um assinalado. O que poderia gerar empecilho, limitações neurobiológicas, não desmentiu o seu caráter de pessoa capaz de seguir um outro rastro que não o da linguagem falada ou escrita. Nada empata quando os oráculos interiores anunciam, através de Cronos que, além de passar depressa, também amadurece as consultas que se fazem ao coração e à intuição. Tudo se cumpre, quer seja para uma coisa ou para outra.
2.

Vou me deter sobre alguns trabalhos do artista, sempre que possível tendo em vista os dois mitos obsessionais, a saber: a Catedral de Caicó e as paisagens áridas do sertão. Essas são, como iremos demonstrar e discorrer, acerca da presença geográfica de ambas, que, por sinal, são integrantes da mesma região: o Seridó.
Um dos melhores trabalhos é o corte de um detalhe de uma fachada antiga. Deteve-se sobre uma parte da platibanda: uma árvore florida, e, ao lado, recobre o mesmo motivo do primeiro detalhe, cunhando provas de que pouco importa para a arte o que serve de pretexto para despertar verve estética. No caso dele, ela nunca se encontra dormindo, pois está sempre atenta ao panorama que se descortina à frente ou repara com mais atenção sobre um detalhe de uma fachada.
Também há um trabalho que se hesita em achar bonito ou simplesmente fruir em seu ethos estético. Essa é uma das mais bem-acabadas telas do artista. Refiro-me a uma igreja com uma graciosa fachada barroca, esplendendo sua imagem em um espelho d’água à frente, como se houvesse caído uma pesada chuva que empossou a água, produzindo a lâmina líquida diante do edifício. Parece ser a única tela em que aparece um senciente, um humano: um menino.
Esse recurso de duplicar a imagem através de uma folha de água é extremamente complicado para se outorgar um efeito de grande qualidade. Aqui, no caso, falo de um êxito conseguido de maneira muito realista. Só fazendo saber por onde o artista é capaz de passar e deixar seu rastro de know-how.
Paisagens da caatinga enfatizam a vegetação própria, como os cactos, coroas-de-frade e cardeiros. Na verdade, creio eu que são puros pretextos para manusear uma aquarela não solar, como acontece sempre com quem usa essa técnica. O artista prefere retratar sempre um céu sem a presença do sol e sua luminosidade, enfatizando as cores e sua transparência.
Nesse outro arranjo temático, há sempre uma árvore caducifólia no primeiro plano, para em seguida divisar-se o longe com suas serras, alteando-se em uma oscilação contínua, como se quisesse imitar a linha grega da vida.
O fato de não ter explorado o efeito da luz, como os que pintam com aquarela, não invalida o caráter estético de uma beleza organizada, tendo o fosco, o opaco, como sua fisionomia. Até parece com aqueles momentos nos quais um exército de nuvens ocupa o espaço do firmamento, vedando o sol com seu esplendor de luminosidade, claridade e transparência. Essa interferência acaba por não permitir que se veja a beleza e o que cada cor pura adentra por nossa subjetividade, fazendo-nos perceber com mais atenção as flores amarelas de uma craibeira, por exemplo.
De verdade, essa parece ser a marca e a bela caligrafia desse artista do Seridó, distinguindo-o de outros que lidam com a aquarela, sempre recorrendo aos efeitos da luz e a uma paleta cromática variada, buscando retratar uma paisagem com seus rios, árvores e penedos, neste caso sem interferência de sombras. Com efeito, permitindo que se contemple o mundo alcançado até onde a vista permite, através de suas formas e cores, como se apresentam àqueles que aderiram a uma visão de mundo de maneira mais simples.
Enfim, evoco uma bela Santana, com Maria, apontando para um livro. Singelo conluio de mãe e filha, entretidas no excelso ato de aprender a ler. Lembrando que Santana é a padroeira de Caicó.
Fiz referência aos que não se contentam em olhar, mas em apreciar e tecer elogios ou relacionar com uma coisa que foi vista em algum lugar. Há uma tradição que diz que uma pessoa culta é aquela que detém a capacidade de estabelecer relações entre as coisas que se achegam aos olhos ou na leitura silenciosa de um livro.
3.

Há que remarcar um traço bastante curioso e denunciador de um sintoma, talvez menos do que ser involuntário. Esse tipo de coisa, em se tratando da expressão artística, dificilmente é uma deliberação do sujeito, que outorga a determinados objetos, paisagens naturais ou o que seja. Falo da ausência do ser humano na obra desse artista. Não aparecem rostos, semblantes ou mesmo uma presença baça, como sucede em alguns pintores contemporâneos. Isso pode simbolizar essa vereda estética cheia de edifícios, rodagens e lugares nos quais habitam comunidades de pessoas, sobretudo em uma cidade do interior do Rio Grande do Norte.
Há que se especular, talvez, devido a um temperamento possivelmente saturniano, consequentemente voltado à introspecção e a uma satisfação consigo próprio, resignado face a uma possível solitude. Essa espécie de temperamento, resulta em um aceite incondicional, provavelmente muito bem trabalhado pela responsabilidade dos pais e, logo em seguida, dos dois mestres de desenho e pintura. Estava rodeado do mais puro afeto, do mais apegado bem-querer, do mais cheio de atenção e de cuidados.
Ora, como poderia se gestar outro tipo de personalidade, outra maneira de encarar o derredor, outra forma de ocupar o espaço circundante, com as pessoas que se encontravam à roda? Não consigo compreender senão dessa maneira: organizou-se, com limitações e tudo, um sujeito ancho de si. Insisto em uma personalidade saturniana, presa a si, inteira consigo, um travo, às vezes de silêncio e de melancolia.
O que quero dizer é que não poderia ser um temperamento apolíneo. Isso se comprova pela ausência da reverberação da luz natural na quase totalidade do que tive acesso para organizar meu corpus de análise e interpretação. Em nenhum momento ouvi o relinchar dos cavalos de fogo de Apolo rasgando o tecido da alba, proclamando a chegada de mais um dia, aclamando os seres humanos para mais uma rotina, uma jornada de trabalhos, torcendo pela ausência de alguma surpresa (dificilmente é uma coisa que presta).
O que vi foram nuvens plúmbeas, não resultado de nevoeiros, mas uma espécie de capricho de tapar o sol. Nem por isso o artista deixou de sair de casa e ver com bastante sagacidade — uma capacidade ímpar de perceber os detalhes mais sutis de uma fachada antiga, de penetrar no imo da catedral em horas diferentes, enfatizando o modo como se apresenta consoante o tempo. E, dessa maneira de ver com agudeza, ser capaz de elaborar uma gama enorme de variações sobre os mesmos temas.
Que ninguém duvide do que é capaz, do ponto de vista artístico, Adonay Dantas, com seu penetrante olhar, plasmando sua obra mesmo sem a presença da claridade. Também não é por isso que se deixe imbuir da excessiva melancolia e do luto.
4.

Por fim, gostaria de salientar o quanto o artista Adonay Dantas logra êxito em duas recorrentes temáticas: a cidade de Caicó, na região do Seridó, e as ermas paisagens naturais da caatinga da mesma região. Sucede que o domínio das técnicas da aquarela e da acrílica sobre tela, mesmo com os referentes sendo quase os mesmos, não deixa de resguardar uma sutil originalidade. Na arte, no discurso estético, o que interessa é o como se faz, não o que se elabora. Desde sempre foi assim.
Sim, lembrei de uma coisa. Veio-me o pintor francês Claude Monet. Isso mesmo, o que tinha o hábito de retratar o mesmo objeto pertencente à realidade através de uma variedade de ângulos e em horários diferentes. Há algumas telas retratando a Catedral de Ruão como se a aparência estivesse escandindo o tempo, com luzes ou sombras.
Isso acabou em um grande acaso que só o mundo das coisas do espírito pode trazer à tona, permitindo entrever o que se passa no íntimo de determinadas subjetividades. Com efeito, uma das primeiras obras do artista referido foi Impressão, nascer do sol (Impression: soleil levant, 1872), que acabou dando nome ao movimento que surgia, questionando a maneira de retratar contumaz do modo acadêmico.
A se pensar dessa maneira, a obra do artista seridoense reveste-se de um caráter universal, pois conseguiu operar uma grande quantidade de trabalhos com o mesmo tópico. Uma espécie de variações sobre o mesmo tema, nunca imitando a si mesmo, mas buscando ângulos nos quais pudesse fazer diferente. A Catedral de Caicó quase sempre se divisa ao longe, mesmo quando inova no manuseio da aquarela.
Exemplifico. Há um trabalho, Caicó de Santana, elaborado a partir de um efeito cromático que vai justapondo as cores esmaecidas: azul em um primeiro plano inferior, sugerindo a geografia do lugar; em seguida, vermelho, com sombras de um trecho urbano; mais acima, um ocre bastante esmaecido; por fim, a silhueta muito distante da Catedral de Caicó, com o arco à frente. O céu, como sempre, encontra-se eivado de nuvens, imprimindo um efeito de sombras sobre a cidade e seu entorno. Por muito simples que seja, usando poucos elementos e meios, talvez seja a magnum opus do artista, por ser tudo parcimonioso, com quase nenhum recurso cromático.
5.

Ainda posso proclamar como se gesta e se desenvolve um talento. Quero dizer que Adonay Dantas era um assinalado, mesmo tendo trazido consigo a dislexia desde o berço. Nada impede que uma pessoa rebente e crie possibilidades estéticas, como, de fato, veio a ser realidade: passeando pelas ruas, visitando parentes e amigos. Vivendo, enfim, apesar de. Mas não é somente um fenômeno que assoma em determinada idade e passa.
Isso mesmo, encontra-se presente nos mestres que estiveram ao lado do menino que crescia em idade e maturidade para a paleta e para os pincéis. O que era um tanto tosco, um traço hesitante, uma caligrafia da pintura, foi aprimorado, polido: aquilo que existia de vontade, de pendor, de ânimo e de devir.
Na verdade, o talento, quando sofre o processo de lapidação, leva pouco tempo para assimilar as lições, logo buscando se afastar das dicções e singularidades dos professores. Introjeta a gramática e o vocabulário expressional do discurso estético. Sabendo como se elabora, previamente, o que fora delimitado, conduzindo, ou melhor, elaborando um trabalho não necessariamente seguindo uma lógica de início, meio e fim. Ora, não há acadêmicos e ensaístas que começam um trabalho pela conclusão?
OBS:.As opiniões expressas neste ensaio são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da Revista Arte Brasileira.

