24 de janeiro de 2026

J. Medeiros: poesia e poética pansemiótica

Forma
densamente forma
como revelar-te
se me revelas?

Orides Fontela
1.
J. Medeiros

A obra Ars Poetica de J. Medeiros (1958, João Pessoa, PB) reúne poesias coligidas de sua participação militante no movimento do poema-processo, da poesia concreta e da arte postal. Confere um arco bastante vergado, no sentido de mostrar exemplos de séries e exposições, demonstrando nessa curvatura estética o que foi capaz de produzir em quantidade e qualidade.

O livro contém trabalhos produzidos entre 1975 e 2007. A coordenação editorial e o projeto gráfico são do competente designer Márcio Simões, pelo selo editorial Sol Negro. O livro é dividido em três seções: Povis, Kinema e Documenta.

Ao longo de um folhear atento, constatam-se homenagens a uma série de pessoas, tais como Wlademir Dias-Pino, Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Álvaro de Sá, Dácio Galvão, Afonso Martins, John Cage, Erik Satie e Avelino Araújo. Essas homenagens, mais do que simples admiração, funcionam como vetores apontando para o distrito das artes visuais ao qual

J. Medeiros se filia, também registrando um juízo de valor sobre o que considera uma noção de arte revestida de importância e detentora de uma aura estética mais condizente com o tempo contemporâneo.

Esses nomes são representantes do que o autor considera como caudatários da História das Artes, ciscaram no chão rastros das vera dedeiras, conduzindo aos domínios da interação entre linguagens. Todos eles deixam entrever a impossibilidade de continuar incensando emblemas pertencentes ao passado. Isso quer dizer: um natural hibridismo, uma mescla de sistemas semióticos sem nenhuma pureza, resultado de condições sociais voltadas para o culto do analógico em detrimento do digital (imagens e alfabeto, por exemplo).

A bem da verdade, J. Medeiros sempre primou pelo silêncio, não fazendo alardes de si e de sua obra. Ela é marcada pela experimentação e pela

competência, regida pelo domínio da teoria da poesia concreta, do poema- processo e da arte postal. Deixou-se reger pela interpenetração de linguagens e ícones pertencentes a esses três movimentos de poesia e de arte pansemiótica. Percebe-se uma sensibilidade bem capaz de fazer uso da cor com discrição, de alcançar o sentido dos ângulos retos ou das curvas.

2.
J. Medeiros

O livro é também uma obra de arte, começando pelo minimalismo da capa e adentrando pela gramatura do papel, como também pela exata reprodução dos trabalhos nos quais se mesclam o desenho, a escrita e a pintura figurativa ou abstrata. Tudo é requinte e bom gosto, sobretudo quando lança mão da cor em alguns poemas utilizando triângulos retângulos coloridos.

Creio que seja bom destacar a opção do artista pela parcimônia de meios, pelo difícil minimalismo, por uma economia de elementos visando lograr êxito no que busca alcançar. Quer dizer, dirige-se ao foco, à essência eventual que o leitor pode alcançar. A inexistência de ornamentos e enfeites refrata tudo o que é barroco e provido de adornos, não condizentes com a poética do autor. Creio que este é o elemento presente em todos os trabalhos: uma simplicidade bastante difícil de alcançar quando se trata do discurso estético.

Para quem conhece a história do poema-processo em terras de Natal, sabe da competência e do domínio teórico acerca do que se aqui se plasmou, ovras antenadas com os vetores emanados de todas as partes do planeta, no qual o movimento surgiu e se expandiu em grandes searas capazes de se firmar com uma poética mais condizente com o Ar do Tempo. Muito devemos a J. Medeiros, esse artista de temperamento silente e introspectivo, de grande singularidade estética, esse homem firmado na compreensão da gramática de um resultado da evolução das formas.

Com efeito, a noção de evolução na poesia concreta não concerne à quantidade, mas diz respeito à qualidade do que o tempo possibilita, do que alguns conseguem alcançar, do que é o novo, do que é mais condizente com as maneiras de ser e pensar, do que se coaduna com o agir, rejeitando o tédio da mesmice, do que já se esgotou, do que já tinha de dar.

O poema-processo requer a participação do leitor, que deve ser uma pessoa de mente aberta para adentrar uma forma de arte quase sempre processual, embora também vigore a síntese. No caso de J. Medeiros, o ethos da síntese

proclama e organiza trabalhos de feitio bastante simples, cujos alicerces quase sempre remetem à poesia concreta. As obras de Augusto de Campos pairam sobre muitos poemas.

3.
J. Medeiros

Não parece ter sido por acaso o surgimento da Poesia Concreta, em 1956, em uma exposição no MASP, e a publicação de Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, também em 1956.

A poesia até então, em versos, seguia uma horizontalidade no branco da página. Durante muito tempo foi elaborada para ser declamada, ou seja, para o sentido da audição. A poesia concreta rompe com esse resquício de uma longa tradição e passa a ser verbivocovisualidade, na qual se fundem palavra, som e imagem. A poesia nunca mais seria a mesma. Mesmo poetas vinculados à poesia de outrora rendem-se e passam a usar o branco da página como elemento de sentido.

Os pósteros poetas fragmentam seus versos. Só para ficar em um exemplo, podemos evocar a poeta paulista Orides Fontela: muitos de seus poemas, mesmo curtos e bastante filosóficos, colocam uma palavra por linha, como se buscasse realizar uma leitura pausada e com enorme carga de silêncio, para durar o tempo de refletir, de extrair a metáfora, o símbolo. Exclamam- se os versos parcimoniosos, salmoldeiam-se vocábulos isolados, busca-se as conjunções ou preposições implícitas. Há que se deter com mais atenção sobre os constituintes dos poemas dispersos no branco da página.

Outra coisa: J. Medeiros nunca se definiu como detentor de uma dicção, de um estilo no qual nunca houve uma invariante estrutural, um topos recorrente, pois cada nova série inaugurava e acrescentava algo novo ao conjunto de sua obra. Então, como podemos ler seus trabalhos? Inicialmente, há o modo como foram elaborados. Tendo isso em vista, o leitor participa com sua criatividade ou eventual repertório, que resguarda o fruto de seu interesse e estranhamento.

4.
J. Medeiros

Em se tratando de poesia, para J. Medeiros, tudo se inscreve como pretexto: a lombada de um livro com capa antiga, a página destacada de um caderno com furos da espiral de onde foi arrancada, a justaposição de duas páginas de um livro aberto, a da esquerda, branca, a outra, preta, e, no retângulo configurado pelas duas páginas, ao centro, a palavra LIMITE (LoLIMITE).

Dactilografias: sobreposição de uma letra do teclado sobre a outra, chegando na horizontal ou vertical, sugerindo algo caótico, sem a possibilidade de engendrar palavras que, por sua vez, como não poderia deixar de ser, estabeleceriam um discurso.

Acontece que em nossa sociedade predomina o caos. A imprensa faz questão de mostrar cenas fortes de assassinatos ou mortes extravagantes, contabilizando números, como se o que valesse fosse a quantidade. Nunca se convida a refletir sobre um mundo enlouquecido. O poeta apresenta esse estar no mundo.

É sempre bom lembrar que a arte não tem poder sobre o que sucede no mundo, somente apresenta sua crítica. Leia quem quiser, ponha em prática se houver vontade. Por parte de algumas espécies de temperamento, resguardam-se no anonimato, em sua rotina de trabalhos domésticos, nunca aderindo a certos fenômenos ou hábitos surgidos há duas ou três décadas. Resta a impotência de aguentar tanta bobagem, de maduros e de jovens. Dou um pelo outro e não quero troco.

5.
J. Medeiros

Podemos nos deter com mais vagar e paciência sobre alguns poemas do livro. Vejamos o poema Eros (2002). Um corpo encontra-se enquadrado em linhas negras, formando o que quase é um quadrado. No interior, um corpo impregnado de desejo. Existem, somente, duas curvas riscadas de preto, sugerindo que metade do corpo vivencia a busca do contato íntimo e metade está lacrada em um retângulo (metade do falso quadrado). No interior, em ambos os lados, vocábulos estão cortados, talvez por pudor: não mostram a palavra e os sussurros em seu desenho integral, pois eles estão presentes na comarca regida por Eros — o corpo e de suas demandas.

A bem da verdade, nem sempre podemos responder com uma afirmativa, pois o desejo resguarda muitos meandros, alguns dos quais, em determinadas pessoas, funcionam como punição ou autossabotagem. Essa postura não se constitui como regra geral. O ser humano, quando se trata do corpo como discurso, é bastante complexo. Que ninguém se engane: as enfermidades, as dores musculares, os pontos-gatilhos, o corpo como presença, com seu semblante no rosto, não passam de metáforas, de um conjugado de sintomas, a proclamar os hiatos e lacunas das necessidades não vivenciadas pelo

espírito. O corpo sabe o léxico do espírito, soletra as sílabas, envia emissários com vocábulos inteiros para que o corpo se dê conta do que se passa em nosso interior. Presta atenção quem quer.

Eros era o deus grego de uma paixão marcada por arrebatamento e desejo físico. Filho de Afrodite, distribuía suas flechas aos humanos, que se quedavam apaixonados e com exagerado apetite para se entregar à luxúria e aos gozos possibilitados pelo sexo. Eros e Psique, o amor físico e a mente. Podemos evocar o conhecido poema de Fernando Pessoa, cujo título é justamente Eros e Psique.

E, inda tonto do que houvera, À cabeça, em maresia,

Ergue a mão, e encontra hera, E vê que ele mesmo era

A princesa que dormia.

A quintilha final resguarda uma grande surpresa, talvez nem tanto, pois inconscientemente já sabemos que, ao buscar uma relação afetiva (philia) ou um amor (eros), buscamos a nós mesmos, sobretudo quando a outra pessoa detém as virtudes. Como escreveu Orides Fontela: “Amamos por espelho / mas haverá outra maneira de amar”.

6.

Podemos encontrar trabalhos com uma mão lançando palitos de fósforos, como se quisesse acender brasas para iluminar as trevas de um mundo de sombras, pleno de pessoas que preferem esconder tudo o que se refira à sua vida: viagens que vão fazer, fotografias dos filhos ou do cônjuge, fragilidades…

Nunca falam de si e da maneira como escolheram viver. Preferem seguir a etiqueta de como se deixar fotografar, seguindo uma ordem da qual ninguém sabe, ninguém viu, de onde se originou, o certo é que não tem muitas décadas, essa forma “correta” de se fazer retratar e passar uma imagem que acaba todo mundo se parecendo, todo mundo leva o mesmo estilo de vida, todo mundo gosta das mesmas coisas. Isto é fato, constata-se, basta observar.

Há que se indagar como uma poesia mais refinada, no que diz respeito à preferência pelas razões intelectuais ou compreensão de como o Ar do tempo exala suas essências, suas geometrias e sua gramática. O que diz as condições históricas e sociais para proporcionar o surgimento de uma poesia que não

seja de crítica. Ora, a literatura sempre habitou as herdades nos quais habitavam os que inventavam uma outra realidade. Nunca aceitou, de jeito qualidade, o que revelava simulacro e ilusões caminhando pelos cercados outorgados de paradigmas produzidos pelas classes dominantes e seus seguidores.

Enfim, preferem as redes sociais, com sorrisos forçados e uma taça na mão. Seguem a regra do coro dos contentes, em uma sociedade marcada por paranoias e medos infundados. Os relacionamentos interpessoais pouco duram ou inexistem. Vale uma representação tecida com os paradigmas ditados pela tirania do ideológico, ou seja, o pensamento das classes dominantes que parecem naturais, quando, na verdade, são produtos dos que detêm o mando, historicamente construídos e determinados por grupos com o poder nas mãos. Isso é o que chamam de “normal”.

7.

Por fim, esclareço que as digressões, como se fossem espécies de colagens de minha autoria, neste ensaio, foram resultado de uma leitura cuidadosa e empática desse definitivo livro de poesias coligidas do grande artista visual

J. Medeiros. Este acrescentou à História das Artes o que de melhor se fez por aqui.

Passei muito tempo com o livro, demorando-me sobre o que se apresentava impresso no branco do papel, sabendo de antemão que tudo ali era deliberado e fruto de um trabalho cujos alicerces detinham um forte apelo ao racional, à deliberação de escrever algo sobre determinado topos, ao conhecimento de geometria, de cromatismos, da leitura dos poetas e artistas visuais a quem prestou homenagem.

O artista nada tem de inocente. Sua obra reverbera, talvez, como uma das melhores de seu fazer artístico, e resplandece como estrela, no alto, de grande magnitude. Lamentavelmente, quase não gerou discípulos. Fundou, junto com outros, uma tradição no Rio Grande do Norte. Pouco se encontra algum continuador de sua imensa seara, com frutos atemporais e plenos de universalidade. A posteridade não perde por esperar: temos alguém antenado com os melhores do mundo no que diz respeito ao poema-processo, às artes visuais, a tudo que remete à imagem e seus usos no universo da estética.

 

 

OBS:.As opiniões expressas neste ensaio são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da Revista Arte Brasileira.

 

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