17 de março de 2026

João Andrade: o vergado arco da geometria nos objetos de arte

     Minha loucura, outros que me a tomem
   Com o que nella ia.
   Sem a loucura que é o homem
   Mais que a besta sadia,
  Cadáver adiado que procria?

Fernando Pessoa

1.

 

João Andrade

João Andrade (Natal, RN, 1962), desde pequeno, já criava imagens, mas não ficava só nisso. Procurava enxergar aquilo que não era visto por parte da população. Uma coisa é olhar, outra é ver, enxergar. E assim o fazia, buscando no seu entorno nuvens, raízes, manchas, por assim dizer. Também não sabia os motivos que o impulsionavam a seguir esses vetores, só sabia que vinha de suas entranhas, dos lados recônditos do seu íntimo, das vísceras.

Talvez não tenha havido época tão propícia a ser representada pela arte abstrata, que rompe com o realismo acadêmico, encontrando os objetos a serem postos nas telas, por exemplo. Quer seja o Geometrismo Abstrato ou o Geometrismo Lírico, no sentido de que a realidade, com grande força, se permite não ser retratada, haja vista uma dificuldade que inibe o papel da arte: propor uma outra forma de ser, determinar outro mundo, outras divisões, reorganizar, tendo em vista o fato de que a convivência com o tangível, aquilo que se apalpa através dos sentidos, não mais satisfaz. Então, eis uma outra realidade, que todos sabem que é coisa de um mundo inventado.

João Andrade

A arte é essa outra coisa, esse jeito de ser diferente, mesmo que não passe de pura abstração ou metáfora. O que interessa é um outro lugar, mesmo que seja uma tela em uma parede. Em uma época como a nossa, proporcionadora de emergir construtos artísticos mais relacionados às formas que não existem, chegando aos limites de reter paralelo à realidade, com parecenças que remetam a objetos de uma realidade que nos circunda.

Quando quase todos, em uníssono, indagam-se sobre o que se passa nessas horas, que mais se assemelham a uma espécie de ponto de mutação, de transformação, de um devir que também tantos buscam: onde se vai parar ou quais serão as formas de ser ou estar, de indumentárias bizarras, de alfaias recobrindo os altares onde poucos tentam buscar respostas. A grande maioria segue sem deixar rastros.

2.

João Andrade

O certo é que predominam no perímetro do terreno no qual a arte sempre encontrou seu tino e seu viés, o de emergir tendo em vista as terras férteis, de onde reverberam seus arbustos, suas folhas e suas flores.

Isso é o que ficou conhecido como Abstracionismo Lírico, formas nas quais predominam as ondulantes linhas curvas, em tentativas vãs de imitar o que circunda na chamada realidade, nunca alcançando esses informes fenômenos ou objetos estáticos, como se fossem monólitos fincados, em uma espera silenciosa, nos chãos áridos das terras ermas.

Ademais, pode-se acrescentar elementos, tais como a texturização: dar relevo com massa ou tinta a uma superfície da tela. Ou, ainda, modelagem: fazer o molde em relevo de uma peça (um rosto) sobre a tela.

3.

João Andrade

Para encerrar, podemos evocar os trabalhos nos quais, mesmo sendo de natureza abstracionista lírica, sucede uma parcimônia de meios para organizar um trabalho com espesso minimalismo e grande simplicidade, fazendo saber através de cores vibrantes como se escorressem dentro de limites estritos, de retângulos verdes ou de um azul-real, reverberando sua luminosidade e cintilação, reforçadas pelo intenso contraste de um vermelho sangrando gotas, a descer na vertical.

O melhor disso tudo é o quão simples pode ser uma obra de arte quando se faz uso de poucos ornamentos, quando as tintas sangram apenas para um lado, proclamando no seu deslizamento uma vereda de salpicos e poucos Campos de Cores a serem preenchidos, já que o emprego de algumas cores basta por si, pela sua magnificência.

Assim basta para circunscrever uma ideia que havia de antemão, sem maiores elementos decorativos, pausada em linhas quase sempre curvas. Fazendo ver, reiterando que não passa de Geometrismo Lírico, cuja opulência afirma a predominância da linha curva, de meios circundantes, das formas orgânicas e de quase nenhuma atração pelos ângulos retos, lançando sua simbologia para a delicadeza, feito sépalas e pétalas de flores.

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