19 de julho de 2026

Loury Alverga: caligrafias do simples e do silêncio

Morreu a solidão aquela vez
ou nasci eu de minha solidão?

Pablo Neruda

1.

Loury Alverga

Ao nos debruçarmos sobre a trajetória de Loury Alverga (Natal, 1957), descortina-se um artífice que parece haver compreendido uma das tarefas mais hercúleas da fatura estética: o advento da simplicidade. Convém notar que o simples jamais se oferece de forma gratuita ao sujeito criador; antes, exige um lento e penoso trabalho de depuração, análogo ao do entalhador que, de tanto extirpar os excessos da madeira, faz irromper a imago que repousava latente em seu cerne. Longe de brotar de uma suposta indigência técnica ou ausência de elaboração, essa clareza resulta, em verdade, de uma rigorosa disciplina da mirada, ou seja, uma ascese pontuada por sucessivas renúncias ao supérfluo, até que subsista no suporte pictórico unicamente o que detém estofo essencial.

Loury Alverga

Em virtude desse aprendizado silencioso, a visualidade de Loury Alverga resguarda-se de ser seduzida pela efervescência narrativa, pela multiplicação fortuita de figurantes ou pela exuberância ornamental que, amiúde, degenera a imagem em mero simulacro de espetáculo. Ao revés, sua práxis encontra pouso e estabilidade precisamente naquilo que pareceria insuficiente ou desprovido de nota aos olhos eivados pela pressa. Um rústico conduzindo o gado à ordenha, uma mulher curvada sobre o espelho d’água do rio, um mascate anunciando sua mercadoria pelo dobre metálico de um triângulo, um jangadeiro medindo forças com o fluxo das ondas ou um poço em torno do qual o vulgo comunga o labor do líquido elemento: eis os acontecimentos mínimos, quase invisíveis para a vertigem cronológica da contemporaneidade, nos quais o pintor perscruta e resgata uma dignidade digna de permanência.

Para além de um simples registro etnográfico do cotidiano rural, depreende-se que há um vetor mais profundo a suturar a totalidade de sua lavra. Loury parece perseguir, por via das tintas, uma autêntica ética do essencial: seu pincel limpa o enquadramento de quaisquer ruídos que possam distrair o fruidor daquilo que verdadeiramente ampara a condição humana – o trabalho, o tempo ancestral, o silêncio e a solenidade dos pequenos gestos. É mister ressaltar que, por essa razão, suas partições espaciais recusam o entulhamento; a multidão se ausenta de suas telas, permitindo que as figuras surjam isoladas ou dispostas em pequenos agrupamentos, de sorte que cada personagem preserve um hiato de recolhimento interior para dialogar consigo antes de se lançar ao congraçamento com o mundo.

Loury Alverga

Essa deliberada ausência de aglomeração, todavia, não engendra o abandono, mas, sim, a instauração de uma estesia do recolhimento. Estabelece-se assim uma nítida dicotomia entre o isolamento geográfico e a solidão alienante das grandes metrópoles, onde os homens transitam emparelhados, mas destituídos de um autêntico encontro. A solitude que habita a pintura de Loury possui outra têmpera: ela provém do ofício e da intimidade telúrica. É a solidão mística do pastor antes do amanhecer, do pescador que desafia o vórtice marinho, da lavadeira que acompanha o curso lento do rio ou do ambulante que repete cotidianamente o seu itinerário ritualístico. Trata-se, em suma, de um amálgama sagrado construído entre o corpo do trabalhador e a imensidão da paisagem, mediado pela matéria do mundo.

Essa profunda apreensão da existência alcança sua consumação máxima na própria arquitetura geométrica e na distribuição das telas. O firmamento ocupa, com frequência, metade ou mais da metade da superfície da tela, recusando a condição de reles pano de fundo para se constituir como um vasto campo de respiração. Enquanto a terra atua como o quadrante que acolhe a fadiga e os gestos do trabalho humano, o céu dilata a mirada do fruidor, obstaculizando que a cena pareça um enclausuramento sufocante. Talvez seja nessa amplidão celeste que resida o verdadeiro silêncio de sua pintura: uma quietude que não oprime as personagens face ao destino, mas que as alarga diante do infinito.

2.

Essa deliberada economia de elementos estruturais não significa, de modo algum, indigência ou pobreza narrativa. Ao revés, revela uma rara e soberana confiança na capacidade demiúrgica que a imagem possui de sinalizar mais do que aparenta em sua epiderme. Redunda daí uma das maiores virtudes da fatura pictórica de Loury: o artista compreende com agudeza que a estesia não necessita do excesso ou do simulacro para se fazer notar. A fulguração poética prescinde da abundância; há ocasiões em que basta a presença de um único rústico, de um suporte náutico, de uma árvore solitária ou de uma vereda poeirenta para que a totalidade do cosmos se descortine. A simplicidade, sob esse enquadramento, abdica de ser mera ausência de recursos para ascender ao estatuto de linguagem autônoma.

Loury Alverga

Diante disso, torna-se patente que suas telas caminham em sentido diametralmente oposto ao espírito vertiginoso do nosso tempo. Habita-se hoje sob o império absoluto da pressa e da velocidade mecânica – tudo clama por uma urgência efêmera. Os centros urbanos agigantam-se verticalmente, as jornadas tornam-se insuficientes e os significantes sucedem uma cadência industrial que impede a mirada de reter qualquer substância. O tempo contemporâneo converteu-se na linha reta e inflexível de Cronos, gerando angústia por recusar a quietude e a demora contemplativa. A arte de Loury, todavia, insurge-se silenciosamente contra essa engrenagem profana.

Para sabotar essa pressa, cada composição atua como um convite irrecusável à permanência do fruidor. Inexiste na obra qualquer tentativa de precipitar o acontecimento no plano empírico; as cenas desenvolvem-se em uma temporalidade ancestral, muito próxima daquela observada por quem retira o sustento do labor manual. O pescador não acelera o movimento heraclitiano das águas; a lavadeira não apressa o fluxo do rio; o criador que conduz o gado entende que os viventes possuem seu próprio ritmo orgânico. A extração do líquido elemento do poço depende da cadência dos braços e não da impaciência matemática do relógio. O mascate percorre as artérias urbanas sem pressa, pois seu ofício depende justamente do compasso dos passos e do dobre metálico do triângulo que enuncia a sua passagem.

Essa dilatação temporal aproxima a pintura de Loury de um universo nitidamente ritualístico e sagrado. Longe de se esgotar na mera execução mecânica de tarefas cotidianas, trata-se de reiterar gestos arcaicos que atravessam gerações. Há uma liturgia plena de silêncios, algo sutil que sela o cotidiano, no qual cada labor obedece a uma ordem de matriz originária, transmitida não por manuais escolares, mas pelo convívio dileto entre mestres e aprendizes, pais e filhos. Talvez por isso os seus personagens jamais transmitam o sabor do improviso ou do acaso; mesmo quando flagrados em plena lida, revelam-se integrados e reconciliados com o próprio destino.

Esse aspecto de harmonia íntima torna-se ainda mais evidente quando perscrutamos o tratamento conferido às fisionomias. Em grande parte de seus suportes, os rostos permanecem parcialmente eclipsados pela sombra, resguardados pelo chapéu de palha, ocultos pela rotação do corpo ou simplesmente distanciados da mirada do observador. Em uma leitura ligeira, poder-se-ia interpretar tal solução como um artifício para universalizar as figuras humanas. Embora esse propósito se mostre válido, há um fenômeno de estesia muito mais delicado operando no enquadramento da tela.

Ao subtrair da face o protagonismo absoluto, o pintor desloca deliberadamente a nossa atenção para o verdadeiro núcleo de identidade de suas personagens: o gesto. O homem abdica de ser reconhecido pela estrita individualidade fisionômica para ser consagrado pelo trabalho que executa. A identidade passa a residir menos no simulacro da aparência e mais na verdade da ação telúrica. É o lembrete plástico de que determinadas ocupações tradicionais carregam em si um estofo de dignidade arcaica, anterior e superior ao próprio nome daquele que as desempenha no mundo.

Curiosamente, essa ausência ou esse ocultamento parcial do rosto recusa produzir estranhamento ou sugerir o desamparo. É mister cindir a solidão que provém da exclusão e da quebra de vínculos daquela solidão habitada que emana de suas telas. A solitude na lavra de Loury possui outra têmpera: o pescador não se mostra só por haver sido relegado ao esquecimento, mas porque o vórtice marinho exige dele concentração e ascese. A lavadeira curva-se sobre a torrente não por isolamento social, mas porque seu labor tece uma conversação mística entre o corpo, a água e a matéria do tempo. O ambulante cruza ruas vazias sabendo que sua presença anuncia congraçamentos futuros, e aquele que retira água do poço evoca um ato profundamente comunitário, pois o líquido sagrado jamais pertence a um único sujeito.

Por conseguinte, essa pintura estabelece um agudo contraponto com a experiência alienante das grandes metrópoles contemporâneas. Nas aglomerações urbanas, a multidão paradoxalmente intensifica a sensação de isolamento, fazendo com que os homens transitem emparelhados, porém desconhecidos uns dos outros. Loury inverte essa lógica perversa: suas paisagens recusam as massas acumuladas. O vazio permanece no espaço, todavia, configura um vazio fecundo, um hiato necessário em que cada personagem preserva o recuo indispensável para existir em sua plenitude. A ausência da multidão devolve ao ser aquilo que a cidade lhe extirpa: a possibilidade de respirar e contemplar.

Loury Alverga

Essa apreensão poética e existencial do espaço esclarece outra característica estrutural de sua pintura, qual seja: a ocupação do firmamento, que abarca frequentemente metade ou mais da partição da tela. Como já dissemos, longe de figurar como mera solução de fundo paisagístico, sua recorrência denota algo mais profundo: o céu atua como uma imensa pausa visual, uma zona de silêncio cósmico. Enquanto o quadrante terrestre condensa os gestos fatigantes do trabalho e da subsistência, a amplidão celeste dilata o pensamento do fruidor, impedindo que a cena se resuma a um enclausuramento sufocante e oferecendo uma abertura permanente para o infinito.

Não se mostra irrelevante que esse firmamento dialogue de forma ininterrupta com uma paleta cromática dominada pelos tons ocres, pelos vermelhos queimados, laranjas e marrons. Tais tonalidades terrosas remetem de imediato ao barro primitivo, à poeira das estradas sertanejas, ao couro ressequido pelo sol, à madeira das embarcações e à pele marcada pelo labor cotidiano. Nada há de fortuito nessa escolha: a terra deixa de ser mero cenário empírico para transmutar-se em extensão do próprio corpo humano. As personagens parecem moldadas dessa substância terrosa e a ela regressar diariamente, como se partilhassem do mesmo amálgama substancial.

À guisa de findar, é precisamente essa comunhão sagrada entre o homem, o seu ofício e a paisagem telúrica que confere à pintura de Loury Alverga o seu tônus silencioso e poderoso. Seu pincel não busca o espanto pelo extraordinário, mas elege revelar aquilo que, de tão cotidiano, corre permanentemente o risco de sofrer o olvido. É nesse exato instante que sua obra atinge o cume reservado aos grandes artífices: transmutar o aparentemente simples em pura experiência de estesia e contemplação. O espectador abdica da condição de reles observador de uma cena rural para reconhecer, fixada naquela imago, uma verdade profundamente humana: a necessidade urgente de resgatar o sentido dos pequenos gestos repetidos que sustentam a nossa permanência no tempo. Eis o triunfo de um silêncio, irrompendo sem pejo, deixando-se levar por um carimbo quase sempre recebendo a marca de desenhos plenos de parcimônia que se lançam de metáforas cujo lastro é o despojamento eivado do simples.

 

OBS:.As opiniões expressas neste ensaio são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da Revista Arte Brasileira.

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