4 de setembro de 2026

CONTO: O Medo do Mar e O Risco de Se Banhar (Gil Silva Freires)

Adalberto morria de medo do mar, ou melhor, mantinha-se distante do mar exatamente pra não morrer. Se há quem não nasceu pra surfista, Adalberto não havia nascido nem pra catar conchas na areia da praia.

Pra ele aquelas ondas indo e vindo, indo e vindo, indo e vindo na inspiravam a mínima confiança. Ainda mais pra um sujeito como ele, que ficava péssimo de sunga e, pior, nadava tanto quanto uma bigorna.

Ele preferia ficar em São Paulo, curtindo os feriados ali mesmo no Grajaú, onde não havia aquela água salgada horrível e o constante risco de se afogar. Os outros que enfrentassem sozinhos os tubarões.

– Oceano, pra mim, só na televisão – Adalberto dizia. – Prefiro ficar aqui, com a casa só pra mim, tomando minha cervejinha.

Toda a família havia viajado pro litoral e Adalberto combinou com uns amigos – também desapegados à praia – uma festinha particular. Às dez horas eles chegariam, acompanhados de algumas garotas devidamente contratadas.

Como o Sol começava a cair, Adalberto bebeu a saideira e foi pra casa. Tomaria um longo banho e relaxaria até que chegasse a hora do “vamos ver”.

Entrou no banheiro tropeçando nas próprias pernas e cantarolando um pagode. Ligou a torneira e deixou a banheira encher. Foi até a cozinha e pegou mais uma cerveja na geladeira, para tomar enquanto se refrescava na segurança de seu banheiro. Entrou na água com a garrafa de cerveja na mão e emergiu confortavelmente até o peito. Ficou ali, pensando nas safadezas de logo mais e tomando cerveja pelo gargalo.

A cerveja na cabeça foi dando sono e Adalberto acabou adormecendo na banheira cheia. Deslizou, deslizou e afundou. Acordou assustado, pensando estar no meio de um pesadelo marítimo. Ao tentar levantar-se, escorregou e caiu, batendo a cabeça na borda.

Afundou de novo e morreu afogado ali na banheira, onde não tinha tubarão, mas também não tinha salva-vidas.

Escrito por Gil Silva Freires em 19/02/1996

Entre a sinestesia e a sistematização, Zé Ibarra se consolida como voz de sua geração

PERFIL ⭐️ Em meio a exuberante flora do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Zé Ibarra comenta com fluidez e.

LEIA MAIS

Grata à Deus, Marcia Domingues lança a canção “Feeling Lord”

“Feeling Lord” é a nova canção autoral da cantora e compositora paulistana Marcia Domingues. Com letra em inglês, ela revela.

LEIA MAIS

Cuba, a Ilha da Utopia

Artigo escrito em maio de 2024 pelo maestro Kleber Mazziero sob encomenda para a Arte Brasileira Em fevereiro de 2023,.

LEIA MAIS

Por que Sid teima em não menosprezar o seu título de MC?

Sobre seu primeiro single de 2022, ele disse que “quis trazer outra veia musical, explorar outros lados, brincar com outros.

LEIA MAIS

Resenha do filme “O Dia em que Dorival Encarou o Guarda”, de 1986 (por Tiago

Olá a todos! Feliz ano novo! Vida longa e prospera! Bom, a primeira obra do ano se chama “O Dia.

LEIA MAIS

O Abolicionista e escritor Cruz e Sousa

A literatura brasileira se divide em várias vertentes e dentro dela encontramos diversos escritores com personalidades diferentes e alguns até.

LEIA MAIS

Chiquinha Gonzaga: compositora mulher mestiça

A mítica compositora Chiquinha Gonzaga (1847-1935) representa um divisor de águas na história da música brasileira. Nela, convergem 3 marcos.

LEIA MAIS

O cemitério velho da cidade de Patu

  Seguindo na Rua Capitão José Severino até o seu final, antes de adentrar pela Praça Padre Henrique Spitz, observa-se,.

LEIA MAIS

Gabriel Acaju: “ABAIXO O ESTADO CENTRAL DE SAGACIDADINHEIRO!”

Para compreender o segundo álbum de Gabriel Acaju é necessário um mergulho na história criada pelo artista, história essa que.

LEIA MAIS

CONTO: Fixação Autêntica e Gêmeas Idênticas (Gil Silva Freires)

Antônio Pedro estava casado havia mais de um ano e ainda não tinha aprendido a distinguir sua esposa da irmã.

LEIA MAIS