18 de julho de 2026

“Quer casar comigo?” (Crônica integrante da coletânea “Poder S/A”, de Beto Ribeiro)

Todo dia era a mesma coisa. Marieta sempre esperava o engenheiro chegar. “Ele é formado!”, era o que ela sempre contava para a mãe. Já sonhava com o casamento e a inveja das amigas. “A Marieta casou com um engenheiro!”, diriam.

Naquela quarta-feira seria diferente. Ah, seria. Marieta estava decidida a falar com o moço-engenheiro. Ele quase não a via, sempre dava apenas um bom-dia rápido quando passava pelo seu balcão. Marieta era a recepcionista da firma onde o casal desta história trabalhava.

 Enquanto pensava na decoração de seu futuro casamento, Marieta encaminhava mais uma ligação para um dos diretores mal-humorados da empresa. O engenheiro a tiraria daquele lugar. Tinha certeza disso. Afinal, engenheiro ganha bem, acreditava. E ele chegou. Seu marido, seu salvador, o herói de sua novela das oito passaria por ela. “Calma, Marieta, calma”, repetia, num mantra descompassado.

– Bom dia – disse o moço.

– Bom dia… – respondeu Marieta.

Quando ele ia passar o crachá para abrir a porta que separava a recepção dos escritórios, Marieta falou alto:

– Bom dia, seu Engenheiro.

Ele voltou até a mesa da recepção.

– Desculpe, você falou comigo?

– Sim – ela respondeu, rindo um pouco, como se fosse uma romântica virgem.

– Sim… Senhor Engenheiro.

– Engenheiro? – ele perguntou.

– Sim – ela diz, um pouco sem graça. – Ué… Você não é engenheiro?

– Não. Nossa, engenheiro… Por que você acha que eu sou engenheiro?

Marieta viu seu castelo desmoronar. Afinal, não fora construído por um engenheiro.

– Ué – Marieta responde, repetindo a palavra “ué” –, na sua camisa está escrito “Eng”.

O moço olha para o bolso de sua camisa e vê o bordado ENG.

– Não, não… – agora é a vez dele de rir. – Este bordado são minhas iniciais: Eduardo Nilson Gouveia. Por isso ENG.

Marieta não ri mais.

– Eu sou CFO da empresa – apresenta-se, pronunciando a sigla em inglês. – Prazer – estendeu a mão –, meu nome é Eduardo.

Ela deu a mão sem a menor vontade e fechou a cara. Jamais pensaria em se casar com uma pessoa que faz um tal de CIEFÔU. A recepcionista não quis perguntar o que era CIEFÔU não por vergonha, mas porque realmente não a interessava. “Deve ganha mal, coitado”, apostou. Ela queria homem que lhe desse luxo. “Jamais que eu vou dar bola pra gente CIEFÔU”, Marieta decretou para sua vida.

Na volta para casa, Marieta resolveu mentir para a mãe, inventando que não tinha gostado do beijo do Engenheiro. “Imagine, nunca vou contar pras minhas amigas que eu queria casar com um tal de CIEFÔU”, decidiu, passando em frente a uma construção sem nenhum engenheiro e com muitos operários gritando “gostosa”.

Mal sabia Marieta que o CIEFÔU/CFO era nada mais, nada menos que o diretor financeiro da empresa, com salário de cinco dígitos e bônus na casa de um milhão por ano. E sabe que ele até que tinha gostado da recepcionista?

Beto Ribeiro, escritor e autor do livro Poder S/A.

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