21 de outubro de 2026

“Quer casar comigo?” (Crônica integrante da coletânea “Poder S/A”, de Beto Ribeiro)

Todo dia era a mesma coisa. Marieta sempre esperava o engenheiro chegar. “Ele é formado!”, era o que ela sempre contava para a mãe. Já sonhava com o casamento e a inveja das amigas. “A Marieta casou com um engenheiro!”, diriam.

Naquela quarta-feira seria diferente. Ah, seria. Marieta estava decidida a falar com o moço-engenheiro. Ele quase não a via, sempre dava apenas um bom-dia rápido quando passava pelo seu balcão. Marieta era a recepcionista da firma onde o casal desta história trabalhava.

 Enquanto pensava na decoração de seu futuro casamento, Marieta encaminhava mais uma ligação para um dos diretores mal-humorados da empresa. O engenheiro a tiraria daquele lugar. Tinha certeza disso. Afinal, engenheiro ganha bem, acreditava. E ele chegou. Seu marido, seu salvador, o herói de sua novela das oito passaria por ela. “Calma, Marieta, calma”, repetia, num mantra descompassado.

– Bom dia – disse o moço.

– Bom dia… – respondeu Marieta.

Quando ele ia passar o crachá para abrir a porta que separava a recepção dos escritórios, Marieta falou alto:

– Bom dia, seu Engenheiro.

Ele voltou até a mesa da recepção.

– Desculpe, você falou comigo?

– Sim – ela respondeu, rindo um pouco, como se fosse uma romântica virgem.

– Sim… Senhor Engenheiro.

– Engenheiro? – ele perguntou.

– Sim – ela diz, um pouco sem graça. – Ué… Você não é engenheiro?

– Não. Nossa, engenheiro… Por que você acha que eu sou engenheiro?

Marieta viu seu castelo desmoronar. Afinal, não fora construído por um engenheiro.

– Ué – Marieta responde, repetindo a palavra “ué” –, na sua camisa está escrito “Eng”.

O moço olha para o bolso de sua camisa e vê o bordado ENG.

– Não, não… – agora é a vez dele de rir. – Este bordado são minhas iniciais: Eduardo Nilson Gouveia. Por isso ENG.

Marieta não ri mais.

– Eu sou CFO da empresa – apresenta-se, pronunciando a sigla em inglês. – Prazer – estendeu a mão –, meu nome é Eduardo.

Ela deu a mão sem a menor vontade e fechou a cara. Jamais pensaria em se casar com uma pessoa que faz um tal de CIEFÔU. A recepcionista não quis perguntar o que era CIEFÔU não por vergonha, mas porque realmente não a interessava. “Deve ganha mal, coitado”, apostou. Ela queria homem que lhe desse luxo. “Jamais que eu vou dar bola pra gente CIEFÔU”, Marieta decretou para sua vida.

Na volta para casa, Marieta resolveu mentir para a mãe, inventando que não tinha gostado do beijo do Engenheiro. “Imagine, nunca vou contar pras minhas amigas que eu queria casar com um tal de CIEFÔU”, decidiu, passando em frente a uma construção sem nenhum engenheiro e com muitos operários gritando “gostosa”.

Mal sabia Marieta que o CIEFÔU/CFO era nada mais, nada menos que o diretor financeiro da empresa, com salário de cinco dígitos e bônus na casa de um milhão por ano. E sabe que ele até que tinha gostado da recepcionista?

—

Beto Ribeiro, escritor e autor do livro Poder S/A.

Uma aula sobre samba paulista com Anderson Soares

Patrimônio cultural imaterial do nosso país, o samba foi descrito e explicado por incontáveis fontes, como estudantes do tema, jornalistas,.

LEIA MAIS

Diante do novo, “O que Pe Lu faz?”

Sucesso teen da década passada com a Restart e referência no eletrônico nacional com o duo Selva, Pe Lu agora.

LEIA MAIS

Como nasce uma produção musical? O caso de “Lord Have Mercy” diz que vai além

O cantor e compositor norte-americano Michael On Fire tem em “Lord Have Mercy” um de seus hinos mais potentes. Michael.

LEIA MAIS

Zé Alexanddre, o antes e o depois do The Voice+

Em tempos de queda de audiências na mídia tradicional, o The Voice permanece intacto. Os participantes saem do amadorismo, conquistam.

LEIA MAIS

Existe livro bom e livro ruim?

Muitos já me perguntaram se existe livro bom e ruim, eu costumo responder que depende. Se você leu um livro.

LEIA MAIS

Analice Uchôa: o vinco da arte nas dobras da realidade

Se acaso me tivessem dado o jugo e o poder de apontar a obra de um pintor naïf como um.

LEIA MAIS

Carlos Gomes: um naïf registra e exulta uma pintura lúdica

O homem benigno faz bem à sua própria alma, mas o cruel perturba a sua própria carne. Provérbios, 11, 17.

LEIA MAIS

“O único assassinato de Cazuza” (Conto de Lima Barreto)

HILDEGARDO BRANDÂO, conhecido familiarmente por Cazuza, tinha chegado aos seus cinqüenta anos e poucos, desesperançado; mas não desesperado. Depois de.

LEIA MAIS

Maringa Borgert guia passeio pela história, cultura e artes do Mato Grosso do Sul

O Mato Grosso do Sul é um estado independente e unidade da Federação desde o final dos anos 1970 quando.

LEIA MAIS

ENTREVISTA – Literatura de Renan Wangler reforça ancestralidade e luta da população negra

A população negra precisa estar conectada com a literatura, cultura e arte, dessa forma podemos estar conectados com a nossa.

LEIA MAIS