14 de janeiro de 2026

SP/RJ: Bloco dos Dubladores se manifesta contra o uso indiscriminado da inteligência artificial no enredo “IA, mas não foi”

O carnaval deste 2024 nas metrópoles Rio de Janeiro e São Paulo também questiona o uso indiscriminado das Inteligências Artificiais (IAs). Pelo menos é o que propõe o bloco Diversão Brasileira, conhecido como “Bloco dos Dubladores”, fundado em 2011 pelo dublador Renan Freitas.

O enredo deste ano tem o título cômico “IA, mas não foi”. A proposta é ser um uma espécie de protesto contra a substituição do ser humano pela máquina, em especial na dublagem. Renan Freitas destaca que o bloco é uma mensagem de otimismo e resistência, assim como de conscientização de que somente o ser humano tem “alma e coração”.

A seguir, veja a entrevista do jornalista Matheus Luzi com Renan Freitas sobre as IAs na dublagem.

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Renan Freitas é conhecido por dublar atores como Michael B. Jordan e Jackson Whittemore, e vários outros personagens de destaque do cinema, televisão e desenhos animados.

Matheus Luzi – Como vocês, dubladores, receberam a disseminação das IAs?

Renan Freitas – A princípio como uma coisa distante, que seria impossível de atingir nossa categoria, pois a habilidade humana de transmitir emoção, entonação e nuances linguísticas ainda é difícil de ser replicada completamente por sistemas automatizados. Mas num mundo onde reduzir custos faz parte dos negócios, será que, automatizando e reduzindo a quase 0 o custo com a mão de obra humana, os distribuidores e donos de filmes estarão preocupados com a qualidade artística? Ou pior, será que o público reclamaria e deixaria de consumir os filmes dublados por ser uma IA interpretando? Isso assusta e nos deixa preocupados.

Matheus Luzi – Qual sua posição sobre as IAs serem uma ameaça a dublagem humana?

Renan Freitas – Eu só vejo como ameaça se não regulamentamos. Acho possível que a tecnologia trabalhe em conjunto com a arte, como já acontece a um tempo. Na dublagem mesmo, quando eu comecei em 1995, a forma que os estúdios captavam nossas vozes, o recurso usado era muito limitado, era analógico. Tínhamos apenas dois canais de áudio para gravar os dubladores. Se na cena do filme houvessem 5 homens falando ao mesmo tempo, precisaríamos de 5 dubladores gravando juntos e dividindo o mesmo microfone, um trabalho artesanal e tanto, pois se um dublador errasse a fala teríamos que voltar e gravar desde o início daquela cena.
Isso porque quando eu comecei já tinha acontecido mudanças na dublagem e o mercado sempre foi se adaptando. Desde que eu comecei na dublagem passamos por novas mudanças. O analógico virou digital, o que permitia gravar dubladores sozinhos em estúdio e depois na mixagem juntaram todas as vozes da cena. Ganhamos em tempo de gravação e acima de tudo na qualidade do áudio. E na pandemia mais uma mudança significativa: A dublagem remota – Dubladores gravando de sua casa apenas clicando em um link de conferência, como se estivessem em estúdio, claro que tivemos que nos adaptar e montar home studio com o mínimo de qualidade profissional para gravarmos as produções. Dublador na sua casa, diretor de dublagem na sua casa e o técnico de áudio em casa também. Isso permite segurança a nossa saúde e tempo de concluir projetos rapidamente. Eu mesmo que trabalho no RJ e em SP, muitas vezes precisava de dois dias para ir em SP e voltar pro RJ pra gravar um projeto que hoje com a dublagem remota faço em 2 horas, gravando de casa. Muitos filmes continuam sendo dublados dessa forma hoje em dia, mesmo depois da pandemia, e cada vez mais estamos melhorando a qualidade e a eficiência. Claro que tem projetos que temos que ir em estúdio e que não podem ser remotos por questões de segurança de dados.
Mas veja, em toda evolução a mão de obra humana nunca deixou de existir, a emoção, a verdade, as nuances e formas de falar do ser humano nunca sumiram.
Agora, achar que uma máquina pode “interpretar” é assustador. Pois eu sei que a máquina não tem alma, ela não vai passar a emoção da forma que nós humanos passamos, mas para isso temos que regulamentar a nossa profissão para que seja feita por humanos, aí não teríamos a IA como ameaça. Ela pode ser uma aliada até.

Matheus Luzi – Para você, até onde as IAs podem ir? Ou seja, o que ela não faz que, até o momento, somente humanos são capazes?

Renan Freitas – As IAs fizeram avanços significativos em várias áreas, como matemática, estatísticas, cálculos em geral. Mas ainda há limitações notáveis às capacidades humanas, como compreensão de texto, criatividade, adaptação, tomada de decisão. A máquina só replica em cima de algo que já aconteceu e serve de banco de dados pra ela. Ela nunca terá coração e alma, importantes mecanismos do humano na hora de criar algo original.

Matheus Luzi – Já é possível sentir os impactos das IAs no mercado profissional da dublagem? Já se registra demissões, algo do tipo?

Renan Freitas – Até o momento estou sabendo que no mercado de game nos EUA se fala sobre usar a IA para fazer personagens secundários, o que significa um impacto muito grande no nosso mercado. Mas sobre demissão ainda não ouvi falar. Mas algo tem que ser feito para ontem, pois tudo tá acontecendo muito rápido.

Matheus Luzi – Como resistir a tudo isso?

Renan Freitas – No meu entendimento só regulamentando, tanto que movimentos como o DUBLAGEMVIVA (BRASIL) e UVA (mundo) estão unidos para que nosso trabalho só possa ser feito por humanos. Assegurando não só os dubladores, mas todos profissionais envolvidos no processo de dublagem, o que protege também os tradutores, técnicos de áudio, diretores, produção, mixagem etc. E também levando para os fãs tudo que está acontecendo, tem que ser um movimento de conscientização.

Matheus Luzi – Deixo este espaço em aberto para você comentar o que quiser, que achar relevante e o que eu não perguntei.

Renan Freitas – Seguindo essa linha de conscientizar decidimos levar esse assunto para o carnaval. Nosso enredo esse ano fala exatamente sobre a Inteligência Artificial e as incertezas que ela traz para nós dubladores. De uma forma leve iremos levar para o cenário do carnaval do RJ e de SP um tema que precisa ser debatido e levado para todos. O bloco Diversão Brasileira (conhecido como Bloco dos Dubladores) leva para a folia o debate sobre o “Fantasma do Futuro” que é a Inteligência artificial. Será o momento de ter fãs e dubladores juntos, fazendo barulho no carnaval e mostrando que a máquina não tem alma. Só copia, mas não cria!

SERVIÇO

(O bloco contará com a participação de diversos dubladores, incluindo a presença confirmada do ator, dublador e diretor de dublagem Manolo Rey, responsável por dar voz a personagens de atores como Tobey Maguire e Will Smith, além do icônico Gaguinho em Looney Tunes.)

SÃO PAULO-SP

Data: 3 de fevereiro às 14h30

Local: Praça Cívica Lapa

RIO DE JANEIRO-RJ

Data: 10 de fevereiro às 14h30

Local: Praça dos Cavalinhos, Tijuca

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