10 de agosto de 2026

Tropicalismo: o movimento que revolucionou a arte brasileira

 

A designação de Tropicália para o movimento que mudou os rumos da cultura brasileira em meados e fim dos anos 1960 foi dada por Hélio Oiticica. O artista que, segundo suas próprias palavras, “não podia imaginar toda a sua extensão”, queria sim, apesar disso, dizer implicitamente, que ele “definia um novo sentimento no panorama cultural geral.”

A Tropicália com suas novas propostas em cinema, teatro, música popular e nas artes plásticas foi uma síntese desse novo pensamento que nas suas manifestações inter-relacionava as metas específicas de cada uma delas.

 

O Tropicalismo também foi assunto no nosso canal. Confira:

 

Mas mesmo quando se pensa de forma ampla e globalizadora a respeito do tropicalismo, subjaz a ideia de que não havia um direcionamento único capaz de dizer-se “o caminho” da Tropicália.  A ponto de existirem opiniões como a de José Celso Martinez Corrêa que em 1977 apontava: “O tropicalismo nunca existiu. O que existiram foram rupturas em várias frentes.”

Rupturas que foram se processando e desenvolvendo sem consciência plena de sua interligação e abrangência ou de qualquer ideia criadora geral que norteasse todas as manifestações que assumiu na arte e na cultura.

 

ALÉM DA MÚSICA

(Cena do filme “O Bandido da Luz Vermelha”, obra que marcou o período tropicalista)

 

Das muitas vertentes artísticas, o cinema proporcionou talvez o maior alvoroço em termos de massificação. Um filme como “Macunaíma” de Joaquim Pedro, um cruzamento do cinema novo com o tropicalismo, brotou num contexto de dependência cultural e econômica do assim chamado primeiro mundo. O que levou a releitura da rapsódia radical de Mário de Andrade num viés social, político e econômico onde o ser brasileiro foi motivo de celebração-depreciação.

O lado B do tropicalismo, mais virulento e extremado, encarnado por Torquato Neto, Capinan, Tom Zé, Rogério Duarte e Hélio Oiticica, por exemplo, aproxima-se pela trajetória e atitude das artes de Rogério Sganzerla, José Agripino de Paulo, Júlio Bressane e Ivan Cardoso. Sendo o filme síntese dessa relação, marginália e marginal, transformando método carnavalesco em teoria de montagem, “O Bandido da Luz Vermelha” de Rogério Sganzerla.

No teatro, a 1ª. Feira Paulista de Opinião reunia os principais dramaturgos brasileiros da época, contando com Lauro César Muniz, Bráulio Pedroso, Gianfrancesco Guarnieri, Jorge Andrade, Plínio Marcos e Augusto Boal. O espetáculo, de um modo geral, será marcado pelo enfrentamento desaforado ao poder.  Os rumos que tomava a oposição ao regime levariam a arte, assim como todos os setores significativos da sociedade brasileira, a se retrair e a repensar suas propostas de atuação para sobreviver à censura.

 

A MUDANÇA

(A irreverência da banda tropicalista Os Mutantes, formada pelos irmãos Arnaldo Baptista e Sérgio Dias a graciosa Rita Lee)

 

A música popular produziu um sem número de nomes emblemáticos tais como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Os Mutantes e muitos outros. Mas na música, a iconoclastia e a transgressão ganhavam contornos de apropriação do mundo mercadológico, como dizia Caetano Veloso a respeito das lições de Gil: “(…)nós não podíamos seguir na defensiva, nem ignorar o caráter de indústria do negócio em que nos tínhamos metido.(…)”.

As artes visuais viviam o rigor e a subjetividade do concretismo e do neoconcretismo e as experimentações da Op arte e da Pop arte. Artistas como Rubens Gerchman e Antonio Dias participam da exposição “Nova Objetividade” em março de 1967 no MAM do Rio de Janeiro. Ivan Serpa, aderindo formalmente à abstração, ao lado de Ferreira Gullar e Mário Pedrosa funda o Grupo Frente em meados de 1954. Lygia Pape, junto com Hélio Oiticica, em 1959 é uma das signatárias do Manifesto Neoconcreto. A arte transformou-se em múltiplas vertentes e pensamentos únicos e individuais, trazendo a radicalidade do subjetivo para o centro da proposta artística.

 

CONCLUSÃO

Em Tropicalismo, antropologia, mito, ideograma, Glauber Rocha explica que o tropicalismo trouxe de dentro os “nostri succhi (nossos sucos gástricos)”, trouxe uma consciência da “realidade brasileira em todos os sentidos e a todas as profundidades”.

Podemos dizer que a Tropicália levou a uma retomada do conceito de antropofagia sem utopias nacionalistas.  Com a proposição de questionamentos sobre o que somos e o que pensamos sobre o que somos, foi uma verdadeira revolução em todos os aspectos do viver.

 

Crítica de Mauricio Duarte com exclusividade à Arte Brasileira

 

 

 

 

MÚSICA CAIPIRA: Os caipiras de 1962 ameaçados pela cultura dos estrangeiros

Em 1962, Tião Carreiro e Carreirinho, dois estranhos se comparados ao mundo da música nacional e internacional, lançavam o LP.

LEIA MAIS

Francisco Eduardo: retratos, andanças e marinas fundam uma poética

Veredas são caminhos abertos, livres entre florestas inóspitas ou suaves e são símbolos de ruas de escassez de cidades com seus bairros de.

LEIA MAIS

Podcast Investiga: Elis Regina em detalhes (com Julio Maria)

O experiente jornalista musical e biografo Julio Maria é autor do livro “Elis Regina. Nada Será Como Antes”. A obra.

LEIA MAIS

Carlos Gomes: um naïf registra e exulta uma pintura lúdica

O homem benigno faz bem à sua própria alma, mas o cruel perturba a sua própria carne. Provérbios, 11, 17.

LEIA MAIS

Curso Completo de História da Arte

Se você está pesquisando por algum curso sobre história da arte, chegou no lugar certo! Aqui nós te apresentaremos o.

LEIA MAIS

O disco que lançou Zé Ramalho

Zé Ramalho sempre foi esse mistério todo. Este misticismo começou a fazer sucesso no primeiro disco solo do compositor nordestino,.

LEIA MAIS

Fábio Di Ojuara: umas tantas facetas de uma obra multiforme

Uma noite, sentei a Beleza nos meus joelhos. – E acheia-a amarga. E injuriei-a.Armei-me contra a justiça.Fugi. Ó feiticeiras, ó.

LEIA MAIS

Gabriel Gabrera e sua aliança com o blues

O mineiro Gabriel Gabrera é de afinidade indiscutível com o blues, gênero musical que conheceu muito novo, e nele permanece.

LEIA MAIS

Muitos artistas querem o mercado; Tetel também o quis, mas na sarjeta encontrou sua liberdade

Tetel Di Babuya — cantora, compositora, violinista e poeta — é um projeto lançado por uma artista do interior de.

LEIA MAIS

Por que Sid teima em não menosprezar o seu título de MC?

Sobre seu primeiro single de 2022, ele disse que “quis trazer outra veia musical, explorar outros lados, brincar com outros.

LEIA MAIS