14 de setembro de 2026

Depoimento de Nelson Motta sobre seu disco em parceria com Lulu Santos (LULU E NELSINHO)

Com 15 músicas e uma inédita na voz de Lulu Santos (Tempo em Movimento), o novo álbum (Lulu e Nelsinho) de uma das maiores duplas de compositores do país foi disponibilizado nesta sexta-feira (2) para download no Google Play e no iTunes. As 16 faixas são uma coletânea de canções compostas pela dupla. O disco chegará às lojas no dia 9 deste mês.

 

 

“Acho que sou o parceiro mais constante do Nelsinho. Ao saber que ele seria homenageado no Grammy, achei que eu tinha que me juntar aos ensejos. Achei justo fazer esta coletânea dedicada a essas 16 músicas, que formam de fato um álbum de canções do decorrer das nossas vidas, com as transformações da gente, do tempo e do cenário em que essas histórias se transcorreram”, explicou o Lulu Santos de 63 anos.

 

Veja a seguir o depoimento de Nelson Motta sobre o disco “Lulu e Nelsinho” e sobre sua relação com o músico:

 

“Conheci Lulu com 23 anos, em 1976, quando aluguei o equipamento de som da sua banda Vímana para uma temporada do musical “Feiticeira”, com Marília Pêra, no Teatro Casa Grande do Rio de Janeiro. Além de outros músicos do Vímana que tocavam na peça, Lulu veio como técnico de som. Com a saída do guitarrista Hélio Delmiro da banda, ele me pediu para substituí-lo, disse que já sabia todos os arranjos, que estava louco para tocar.

O musical, apesar de lindo, foi um retumbante fracasso, o tempo era de radicalização política com pouco espaço para musicais delicados. E Lulu não só sabia e tocava muito bem todos os arranjos, como se dedicou de corpo e alma ao espetáculo, o que, em ambiente de fracasso comercial, com 100 pessoas na platéia, não é para os fracos – ou pouco generosos. E se tornou um amigo querido, com sua jaqueta de oncinha e cabeleira revolta.

Em 1980 fizemos nossa primeira parceria, o rock “Tesouros da juventude”, que foi o tema de abertura do programa “Mocidade Independente”, que apresentei durante seis meses na TV Bandeirantes.

Logo depois, quando trabalhava com minha querida amiga Scarlet Moon, no talk show diário “Noites Cariocas”, na TV Record Rio, muitas vezes depois das gravações, ia para casa deles na Fonte da Saudade, onde viviam com três filhos pequenos de Scarlet, que tiveram em Lulu um precoce pai querido. Ficávamos de papo, piadas e doideiras e surgiram as primeiras músicas.

“Areias escaldantes”, primeiro de uma série que chamamos “rocks palestinos”, por alguma coisa meio Oriente Médio que ouvíamos nas melodias, que depois também inspiraram o rock “Palestina”, que tem menos a ver com política do que com as aventuras de uma espiã sedutora e perigosa que atua nos oásis verdejantes… sim, nós víamos mais que uma médio-orientalidade…

Da Palestina à Califórnia em poucos compassos. Em 1981, o diretor Bruno Barreto me chamou para fazer a trilha do filme “Menino do Rio”, dirigido por Antonio Calmon. Filme de praia, surf, romances juvenis, cheio de rocks e baladas. Precisávamos de um tema para um surfistinha adolescente que morre no fim. Whaaal. Quando Lulu veio com a melodia a frase me veio imediatamente à cabeça: garota eu vou pra Califórnia… afinal, a melodia era tão… californiana. E logo terminamos a canção do garoto que sonha em ir para a Califórnia ser artista de cinema, que tocaria em todas as cenas do garoto preparando a comoção do publico para a cena em que se afoga. Sucesso instantâneo no filme, no rádio, nas festas e nas lojas de discos.

Das praias da Califórnia para as Dunas do Barato de Ipanema, entre surfistas e gatinhas. Pouco depois da morte do poeta Vinicius de Moraes, Lulu veio com aquela melodia irresistível, uma espécie envolvente de bolero havaiano, fluente e sensual. Logo que ouvi a melodia me veio a frase “a vida vem em ondas como o mar”, do poema “Dia da Criação”, de Vinicius, que se encaixava perfeitamente na melodia, homenageava o poeta e era o ponto de partida para o desenvolvimento da letra de “Como uma onda”, em que misturei leituras recentes de Jorge Luís Borges e textos budistas, o “tudo flui” da filosofia do grego Heráclito, com o ambiente de praia e maresia carioca, num zen tropical. Gostamos muito quando a letra ficou pronta, mas fiquei com receio que parecesse metida a filosófica e pretensiosa, e para amenizar coloquei o subtitulo de “Zen surfismo”, como um trocadilho de humor.

“Como uma onda” foi feita para o filme “Garota Dourada”, que tentava surfar na onda do sucesso espetacular do “Menino do Rio”, e no filme seria cantada por Ricardo Graça Mello.

Como o filme demorou muito a ser lançado e a gravação de Lulu começou a tocar no rádio com sucesso imediato, quando o filme estreou já era um mega sucesso há meses… ninguém aguentava mais a música… rsrs… e o filme foi um fracasso retumbante. Mas a música seria nosso maior sucesso – até hoje!

Na trilha do filme tinha outra nossa bem engraçada, que fizemos para um personagem cômico, interpretado por Sérgio Mallandro, “Tric tric”.

Seguindo em nossa fase praieira, veio “Sereia”, feita para o musical infantil “Pirlimpimpim”, da TV Globo, e cantada pela sereia Fafá de Belém, entre cascatas de luz, citando o verso “luz do divinal querer”, de antigo bolero brega de Anisio Silva.

Em 1983, insanamente apaixonado por uma psicanalista enlouquecida, escrevi a que talvez considere minha melhor letra para a lindíssima melodia do Lulu: “Certas coisas”. Balada pesada, séria, emocionada e racional, que fizemos pensando em Roberto Carlos, mas, na época, ele não gravava musicas começadas por “não”… rsrs. Mas ouvi-la com Milton Nascimento, duas décadas depois, foi uma imensa alegria.

O romance terminou mal e para esquecer a psicanalista fui morar na Itália e a essas alturas Lulu já fazia muitas letras, cada vez melhores, e encontrou a perfeita integração de música e letra, se tornou autossuficiente.

Numa viagem ao Brasil, no verão de 84, Lulu veio com um baião diferentaço. Nordestino e carioca, caloroso e solar, com o Brasil em pleno verão… e em plena crise econômica. A letra brinca com estereótipos das letras “nordestinas” dos anos 70, falando em retirantes, flagelados e desempregados, não num ponto de vista social, mas sentimental.

“Dinossauros do rock” é nossa única canção em que a letra foi feita primeiro e Lulu fez a música em cima, acrescentando alguns versos. É uma brincadeira com o mundinho do rock brasileiro dos anos 80 que andava muito metido e nós fizemos uma gozação, que também era com nós mesmos.

“Atualmente” e “De repente” são canções irmãs, com levadas mais R&B, com letras parecidas, que para mim foi um sinal de esgotamento de uma fórmula poética.

No final dos anos 80, furioso com o fim de um romance, fiz um samba-rap desabafo, meio lupiciniano, “Eu, não !”, mas como não sei fazer música, mostrei para o Lulu para terminar e ele disse que já estava ótima. Mas precisava ser melhor estruturada de ritmo e harmonia, como Lulu fez com carinho e competência.

Como uma onda no mar, a vida nos trouxe de novo à nossa praia trinta e cinco anos depois, quando Lulu me mandou uma linda melodia, quintessência de seu estilo, e fiz a letra de “Tempo em movimento”, que, naturalmente, é sobre nós, Lulu e Nelsinho.”

Nelson Motta, novembro de 2016

 

 

 

 

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