15 de outubro de 2026

Entre vários assuntos, Camões abre o jogo no álbum FLÔRES [ENTREVISTA]

Por Bruno Machado

 

É em frente à um cenário de floricultura que Camões foi fotografado para o álbum FLÔRES. Esse ambiente não foi nada a toa, porque tem uma intenção de retratar o amor e seu valor cotidiano.

Nas faixas do álbum, o músico demonstra ser bastante variado, e ao mesmo tempo, diferenciado musicalmente, ao fazer um resgate da música brasileira com ritmos estrangeiros. 

Com muita franqueza e também bom humor, FLÔRES contém 9 faixas, que estão entre o orgânico e o eletrônico, se tornando inclusive, com ritmos bem dançantes.

 

Abaixo, veja na íntegra uma entrevista que fizemos com o músico.

 

Para ouvir as músicas completas, clique no botão verde no quadro abaixo.

 

FLÔRES retrata a forma irônica que você trata o amor e o cotidiano. Pode nos falar um pouco mais sobre isso?

Vivo o paradoxo de muito artista por aí. Ou da minha geração. Ser romântico e arisco ao mesmo tempo. Ao longo do tempo, vendo como eu podia machucar as pessoas e me machucar também, fui ficando cético em relação a qualquer tipo de romance. Comecei a desconfiar que coisas como paixão vem de sentimentos pouco nobres como carência, dependência, ciúmes, etc… Entretanto, se relacionar é o que me move. As trocas sagazes da vida. As alegrias e as desilusões. Tudo isso que podemos gerar uns nos outros.

 

O álbum é dividido em dois momentos e reproduzem visão sobre sua geração… Comente.

Então, num plano geral, as letras vão de um momento mais alegre da perspectiva de um amante do cotidiano com seus dramas, de alguém que gosta do que vive, inclusive do que não é ideal (em SÓ NA CENA, CUMBIA, NOVA AURORA e PISTA. 3), para um momento mais introspectivo. Nesse segundo momento me questiono sobre minhas relações amorosas (em Interlúdio BAD VIBE, TROCA SAGA, ANA e PARATY) e a minha relação com o trabalho (em TÉDIO).

Acho válido destacar as inéditas SÓ NA CENA, TROCA SAGAZ e TÉDIO. 

Em SÓ NA CENA falo sobre minha condição de artista independente no Rio de Janeiro. Aqui é uma cidade com uma cena complicada com escassez de palcos de médio porte e que as pessoas (inclusive eu) têm dificuldades de consumir música independente, principalmente na Zona Sul. Tem aquela coisa de se considerar bacana demais pra pagar por uma festa, bacana demais pra pagar por um show ao vivo, bacana demais pra perder tempo num show de um artista independente que não é exatamente o que você curte, mas tá fazendo um trampo sincero e esforçado. Bacana demais pra achar algo desconhecido bom pra cacete e compartilhar com todo mundo. Enfim, são pequenos egocentrismos que impedem da arte circular pela cidade com maior fluidez. Sou vítima e réu. Sempre me policio pra receber de coração aberto o que chega pra mim de outros artistas.

Em TROCA SAGAZ me assumo como bobão, apaixonado por um casal de um universo do qual não pertenço. Acho que uma forma de combater o machismo (nesse caso, uma viagem pontual de um homi artistão) é transparecer o quanto ele está presente em nós. Não subjugando ninguém, claro. Mas falando das mancadas que você dá e das viagens que você tem pra que outro cara possa se identificar. Enfim, fica aí a abertura para um debate. 

Em TÉDIO tento transcrever toda a agonia, depressão e frustração da minha geração com essa coisa de ter que ser produtivo, de ter que dar certo. Quero dizer, crescemos ouvindo que devemos seguir o nosso sonho, ser o que quisermos, entretanto, fracassar nunca foi uma opção que nos foi dada. Ócio tampouco. E assim se forma uma cobrança constante na nossa cabeça que vai dilacerando nosso olhar positivo sobre a vida. Parece que tem sempre algo errado e isso faz com que exageremos nas transas, nas drogas, nas mudanças. Por fim, o Tédio que descrevo na canção é a abstinência de um novo objetivo que um viciado em cumprir demandas e traçar novas metas pode sentir.

 

 

Do que se trata as letras das músicas de FLÔRES?

Cresci tocando violão de nylon, o instrumento fundamental da Bossa Nova. Os acordes e a relação com instrumentos das minhas maiores referências na música brasileira está presente em mim. Em ANA e PARATY pode se notar essa influência. Em ANA toquei o violão. Já PARATY, levando em conta a melodia e os acordes, ela pode ser considerada uma Bossa Nova. Em outras canções como NOVA AURORA busquei referência em caras como Jorge Ben e Seu Jorge, mas vinculando essa influência ao gênero Disco e a sonoridade oitentista dos synths (obs: ouçam MANGUEIRA do Seu Jorge!). E em TÉDIO devo admitir que tentei descaradamente fazer uma melodia que soasse com uma música da Marina.

 

Você foi influenciado por ritmos brasileiros em FLÔRES, não é? E como você os trabalhou?

O álbum é um compilado de referências que obtive como DJ e pesquisador musical. Tentei imitar um monte de coisa e acabou saindo isso aí.

Na vibe synth oitentista tentei imitar: Daft Punk. HONNE, Breakbot, Glass Animals, Bruno Mars.

Na vibe Jazzy / Bossa Nova tentei imitar: Marcos Valle, Moonchild, João Donato, Chico Buarque.

Na vibe MPBista tentei imitar: Seu Jorge, Tribalistas, Marina Lima

Na vibe R&B cool contemporâneo tentei imitar: HOMESHAKE, Frank Ocean

 

 

Para você, o que é o álbum musicalmente?

Minha ideia era ter lançado há um ano atrás. Sendo obsessivo, perfeccionista e querendo participar de todas as etapas, inclusive mixagem e masterização, atrasou um pouquinho.

Aprendi que botar um álbum na rua dá MUITO mais trabalho do que parece. Principalmente quando você quer masterizar por contra própria e se envolveu há um ponto na produção que nada nunca tá bom. Lançar pra mim sempre foi abandonar as produções. 

Entre músicos e compositores existe um consenso que as últimas músicas a entrarem no álbum sempre são as preferidas por um momento. E não foi diferente. Tenho um carinho especial por TROCA SAGAZ e INTERLÚDIO BAD VIBE. 

INTERLÚDIO foi gravada ao vivo. Ou seja, voz e guitarra juntos. Microfonei todo o meu quarto. No ampli, um mic condensador com a figura de 8 pra pegar a guitarra e a ambiência e na voz, outro mic condensador. Tudo no mesmo quarto. Foi de ressaca em uns 8 takes e essa me soa a música mais sincera de todo o álbum.

 

https://www.youtube.com/watch?v=0f0X8pmQL5M&feature=youtu.be

 

 

 

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