11 de setembro de 2026

[ENTREVISTA] Danilo Gusmão lança “OGÓ – um álbum visual em quatro atos”

(Mayara Rios / Divulgação)

Em 2018, o cantor, compositor e instrumentista Danilo Gusmão lançou, nas plataformas de streaming, o álbum “OGÓ”, trabalho cuja as temáticas chamou a atenção pelo seu teor de sensibilidade e originalidade, algo que aconteceu o mesmo em relação ao que se pode esperar do quesito musical das faixas.

“OGÓ” foi um disco tão importante na vida de Danilo que ele decidiu levar suas músicas em turnê composta por oito apresentações que rodariam o Brasil. Apesar de ter conquistado o apoio financeiro do ProAC, a pandemia inviabilizou o projeto, mas em meio a muita criatividade, o músico encontro uma saída inteligente.

A ideia foi realizar a turnê de forma online. Nisso, nasceu “OGÓ – um álbum visual em quatro atos” que, como o próprio nome já diz, separa o álbum em quatro partes, em outras palavras, em quatro EPs que foram lançados ao longo de 2020 e 2021. No trabalho, os EPs foram apresentados, não somente de forma musical, mas também de maneira cênica, o que estava prometido para os shows presenciais que não foram possíveis.

“O intento inicial do projeto de aproximar artista e público se reconfigurou, mas o desejo de potencializar a criação artística como forma de luta cotidiana contra sistemas de opressão e em favor das coletividades possíveis se manteve, ainda mais emergencialmente diante do necessário distanciamento a que fomos submetidos”, analisa Danilo. 

Cada EP trouxe, tematicamente, as canções de “OGÓ” em novos arranjos e estruturados como se, realmente, fossem apresentados presencialmente e com grande plateia. O primeiro lançamento foi “Peleja” que reúne canções com inspirações políticas e sociais com afiado diálogo com o atual cenário brasileiro. Depois, veio “Poema”, um passeio pela palavra como ferramenta transformadora do mundo. O terceiro, “Aqui”, versou sobre a materialidade daquilo que é transcendental. Por último, “Além”, em um chamado de paz à Exu e todas as forças, veio para abrir 2021 com esperança e renovação.

Matheus Luzi – Danilo, obrigado por topar essa entrevista. Aqui vai minha primeira pergunta: de uma maneira geral, o que é o álbum “OGÓ – um álbum visual em quatro atos”?

Danilo Gusmão – É um filme de um show com nuances de performance e teatro. São quatro atos, como EPs audiovisuais, que compõem o vídeo, mas podem ser assistidos e ouvidos individualmente ou em combinações diversas. A maior parte das canções interpretadas está no meu primeiro álbum, “OGÓ”, mas há também inéditas nessa versão audiovisual. “OGÓ – um álbum visual em quatro atos” é um trabalho feito por muitas mãos e mentes generosas. É uma oferenda. O passo mais largo que concretizei até aqui ao lado de minhas canções. Um modo de agradecer e dar de comer a Exu, aos ouvidos de quem vier e a tudo que me trouxe até aqui.

Matheus Luzi – Certamente esse projeto é marcante para você. Seria possível notar alguma diferença entre o Danilo antes e depois de “OGÓ”?

Danilo Gusmão – Completamente possível. Produzir esse trabalho permitiu com que eu tomasse contato com etapas e componentes do fazer musical que nem imaginava. É algo que tem me profissionalizado muito e muitas vezes me deixado bem ansioso também. Eu que sou poeta e fazia do violão um companheiro para mostrar uma canção ou outra para amigos, em saraus e tais, acabei mergulhando num ambiente muito mais complexo do que imaginava. O trabalhador independente da música, antes de poder compor uma equipe de criação e trabalho que o assista, é responsável por áreas de trabalho e traquejos profissionais que não conhece, mas já é impulsionado a aprender de imediato. Assessoria de imprensa, gestão de mídias sociais, direitos autorais, distribuição, produção de conteúdo e lá vai ferro. Isso tudo dá um susto na gente, mas depois melhora. Resumidamente, o Danilo que sou agora é diferente pois, antes de “OGÓ”, eu fazia canções e agora eu trabalho com música.

Matheus Luzi – Acredito ser muito oportuno você resumir a questão musical e poética dos 4 EPs que culminaram no álbum.

Danilo Gusmão – O primeiro, “peleja”, é um EP visual sobre resistência e luta política, com canções como “Oração a Dandara”, que homenageia tanto Dandara Kettley quanto Dandara dos Palmares. Em “poema”, segundo ato, as canções se estruturam sobre um eixo mais íntimo da minha composição, permeando emoções mais profundas, em combinação com experimentações poéticas mais explícitas. O terceiro, “Aqui”, traz canções que tem como tema central a materialidade daquilo que é transcendental. A orixalidade serve de imagética condutora das reflexões, que buscam desarticular a polaridade entre espiritualidade e carnalidade. O quarto e último Ato-EP visual, intitulado “Além” propõe um espelhamento com “Aqui”, exemplificando centralmente na figura do orixá Exu a força transcendental de tudo aquilo que é material.

“Antes de ‘OGÓ’, eu fazia canções e agora eu trabalho com música.”

Matheus Luzi – Todas as músicas de “OGÓ” foram compostas por você? O que havia na alma de Danilo Gusmão nos momentos de composição das faixas de “OGÓ”?

Danilo Gusmão – Todas, exceto pelo poema que inicia “Oração a Dandara”, que é de Maurício Oliveira, à época meu aluno e agora estudante de teatro na Unicamp. Não sei ao certo o que havia na alma quando compus as canções, até porque a geografia da alma é bastante inexata para mim, mas cada uma delas nasce de momentos de convergência entre vivência, reflexão e trabalho. As vivências são várias: a chegada de minha filha, a militância, a religião, a partida de pessoas importantes, tristezas e alegrias, sensações cotidianas etc. Essas coisas que vão botando nosso corpo pra existir pelos dias afora e nos fazem refletir. Aí a canção é o meu principal canal expressivo dessas percepções, é onde mais dedico meu labor e onde também encontro alguma vazão terapêutica.

Matheus Luzi – Quais faixas do álbum você considera mais importantes/relevantes? Ou não tem isso? E se sim, por que? Acho interessante o público saber essa resposta.

Danilo Gusmão – É sempre uma escolha difícil eleger uma só faixa ou mesmo um só dos 4 atos que compõem o álbum. Como a voz do povo é a voz dos meus, vou recomendar as canções mais ouvidas nas plataformas: “Casa”, “Oxum”, “Maria” e “Bandeira”.

Matheus Luzi – Quais foram suas referências e inspirações para gravar “OGÓ”?

Danilo Gusmão – Muitas, mas centralmente alguns discos como “Padê” (Kiko Dinucci e Juçara Marçal), “Trilha, Toada e Trupé” (A Barca), “Totalmente de mais” (Caetano Veloso) “Os Afro-Sambas” (Vinicius de Moraes e Baden Powell), “Xirê Reverb” (Guga Stroeter, Orquestra HB e Aloísio Menezes), “Na Eira” (Ponto BR), “Mar de Sophia” (Maria Bethânia), “Aché Ilê Obá” (Pai Caio de Xangô), Refavela (Gilberto Gil), “Ascensão” (Serena Assumpção), “Benedito” (Jonathan Silva), “Golpe de vista” (Douglas Germano), “Aos vivos” (Chico César), “Nômade” (Lenna Bahule) e “Dois cordões” (Alessandra Leão).

“É sempre uma escolha difícil eleger uma só faixa ou mesmo um só dos 4 atos que compõem o álbum. Como a voz do povo é a voz dos meus, vou recomendar as canções mais ouvidas nas plataformas: ‘Casa’, ‘Oxum’, ‘Maria’ e ‘Bandeira’.”

Matheus Luzi – Você tem alguma história ou curiosidade interessante para nos contar referente a esse assunto? Se tiver mais de uma, sinta-se à vontade para dizer.

Danilo Gusmão – Poxa, uma curiosidade e uma grande alegria é que, quando gravei “OGÓ” em 2018, bem antes dele virar um álbum visual, pude partilhar canções com três dos artistas que estão nessa lista de referências: Lenna Bahule, Alessandra Leão e Jonathan Silva. Inclusive, é válido dizer que gravar esse disco foi uma das maiores aventuras da minha vida, pois decidi que o gravaria ao vivo numa diária de estúdio, com 15 musicistas e com público no mesmo ambiente do estúdio. Não chego a me arrepender, mas não faria um disco assim de novo [hahaha]. Agradeço eternamente a todos amigos e amigas que toparam essa empreitada e, principalmente, ao Jonas Tatit, que regravou coisas, mixou, masterizou e fez daquele dia maluco um disco que me orgulha muito. A última curiosidade é que mais recentemente, na gravação da versão visual do trabalho, tive a sorte de trabalhar com o generoso André Magalhães (Padê, Ponto BR, Kiko Dinucci, A barca etc) na mixagem e na masterização das canções.

Matheus Luzi – Agora deixo você livre para comentar o que quiser.

Danilo Gusmão – Só quero agradecer a você, Matheus, à revista Arte Brasileira pelo convite e a toda a equipe de profissionais que estiveram comigo na construção desse álbum visual, que é meu trabalho mais importante como artista até aqui. Muito obrigado!

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