2 de maio de 2026

[ENTREVISTA] Disco de Jacque Falcheti e Retrato Brasileiro homenageia os 110 anos de Noel Rosa

(Capa do álbum)

A cantora Jacque Falcheti já passou pela Europa, África e América Latina levando a música brasileira como estrela. Ela tem dois CD’s lançados e premiados por diversos prêmios e festivais. Agora, Jacque, ao lado da banda Retrato Brasileiro, está lançando um disco em homenagem aos 110 anos do sambista Noel Rosa.

A escolha do repertório foi bem curiosa e muito minuciosa. De início, foram 250 composições analisadas pelo grupo e pela artista, e com a bibliografia sobre vida e obra de Noel, eles chegaram a apenas 10 canções, entre elas, algumas que ganharam menos destaque no gosto popular.

Outro ponto interessante é a sonoridade do álbum. A cargo do trio Retrato Brasileiro, os instrumentos usados nas gravações foram baixo acústico, vibrafone e guitarra (Sim, guitarra!), entre outros. Com isso, a proposta é oferecer ao público uma nova visão das obras de Noel, com uma pegada mais minimalista, sofisticada e moderna.

O repertório do disco apresenta a grande diversidade rítmica do universo de Noel Rosa. Apesar de ser conhecido por seus sambas, neste trabalho, Jacque mostra suas emboladas, foxtrot, samba-canção, choro e a marchinha.

Matheus Luzi – Fale um pouco de você, da sua carreira…

Jacque – Sou natural de Ribeirão Preto/SP e há 12 anos me dedico à música, sou formada em Música pela Universidade Federal de São Carlos e pelo Conservatório Dramático e Musical de Tatuí/SP. Iniciei minha carreira profissional em 2016 com o lançamento do meu primeiro disco intitulado “Passim” em duo com Flávio Vasconcelos gravado em Portugal pelo Musibéria. Em 2017 lancei meu segundo com o grupo Flor de Aguapé de choros cantados. Já realizei turnês internacionais por 11 países, incluindo Europa, África e América Latina. Também excursei por 08 Estados do Brasil. Já fui premiada por alguns editais de cultura como Ministério da Cultura, Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo (Proac-2017, 2019 e 2020), SESI, Correios, Funarte, entre outros. Fui contemplada pelo edital da Gravadora Experimental do curso de produção fonográfica da Fatec-Tatuí/SP para gravação do disco “Noel Rosa 110 anos”, junto ao trio Retrato Brasileiro em 2019. Acabei de gravar o segundo disco do “Passim” em duo com Flávio Vasconcelos, premiado pelo Proac-editais que será lançado em 2021.

Matheus Luzi – Como surgiu essa ideia?

Jacque – Eu tive contato com a obra de Noel Rosa durante minha graduação m música. Lembro-me bem do dia que ouvi “Cem mil réis” na minha aula de canto e fui fisgada pelo balanço da melodia e poesia bem-humorada e cronista de Noel. Depois disso comecei a buscar sua obra para ouvir e para cantar em projetos que estava iniciando de samba, isso em 2010. De lá pra cá sempre carreguei obras do Noel na bagagem nas turnês afora e fui aprendendo sua obra. Comecei a pensar em gravar sua obra e revirar sua obra para encontrar algumas pérolas, já que Noel faleceu cedo, mas deixou mais de 250 composições. Mas não havia encontrado ainda a combinação e motivação para tirar a ideia da cabeça. Mas no meio de 2019, em um encontro com o trio Retrato Brasileiro em um show deles na minha cidade, combinamos de tocarmos algo juntos, uma participação minha no show deles e então levantamos algumas músicas em comum e acabamos fazendo uma lista só de Noel. A participação acabou não acontecendo pelas agendas sufocadas, mas a ideia permaneceu ali de certa forma. Num dia, após nosso encontro, acordei de madrugada para beber água e havia sonhado com Noel Rosa, peguei o celular para pesquisar sobre sua vida e acabei olhando a data de seu aniversário e vi que faria 110 anos em 2020, foi um começo pra ideia se materializar na cabeça de fato, imediatamente lembrei dos meninos do Retrato e na formação inusitada de vibrafone, guitarra e contrabaixo soando na obra de Noel. Fiz o convite a eles e disse sobre um edital da Fatec de Tatuí que estava acontecendo para gravação de álbum, se eles topariam participar com essa ideia, responderam na mesma hora que sim e iniciamos nossas pesquisas e encontros e em 04 meses tínhamos o projeto registrado em disco pela gravadora Experimental da Fatec de Tatuí.

(Jacque Falcheti e a banda Retrato Brasileiro – Crédito: divulgação)

Matheus Luzi – Fale das faixas do álbum.

Jacque – As canções foram arranjadas por nós, imaginando mesmo um mosaico da obra de Noel em que pudéssemos citar melodias suas famosas e também gravar canções suas ainda desconhecidas. A embolada “Minha Viola” que abre o disco é também a primeira gravação de Noel, que para gente era bastante significativa e como uma boa embolada improvisada acrescentamos um verso inédito para Noel. A segunda é um foxtrote “Estátua da Paciência” canção pouca gravada e que ficou mais de 50 anos perdida, essa do Noel em parceria com Jerônimo Cabral. A 3ª é João Ninguém, obra-prima de Noel e um dos seus personagens mais famosos. A 4ª “Mulato Bamba”, um dos primeiros registros de samba que falam de homens gays neste universo dos bambas. A 5ª canção é “Tipo Zero” um samba-choro bem-humorado cheia de trocadilhos. A 6ª canção é “Remorso” que ganha nesse disco sua segunda gravação! A 7ª “Você é um colosso”, também gravada poucas vezes, bem desconhecida de sua obra. A 8ª “Meu Barracão”, samba de Noel feito para seu amor Julinha que traz a palavra bossa sendo citada nas canções e fala do bairro Penha, bastante citado na obra de Noel até mais do que a Vila Isabel, bairro querido onde nasceu e viveu. 9ª “Maria Fumaça”, criada para o filme “Cidade Mulher” que infelizmente se perdeu com o tempo e que traz uma mulher destemida, fora dos padrões. 10ª fechamos com dois sambas: “Samba da boa vontade” de Noel e João de Barro e “Quem ri melhor” que trazem doses de otimismo e realidade de outrora que soam atuais.

Matheus Luzi – O que Noel representa para você, e na sua visão, para o Brasil?

Jacque – Para mim ele é uma conexão do passado com o presente e das raízes do povo brasileiro que eu quero aprender. Dos vários ritmos, das histórias de amor, do cotidiano, do humor, da filosofia, do samba, do coletivo, do Brasil plural. Pra mim e para muitos ele é considerado um marco na canção brasileira, que inovou na maneira de compor e contar histórias com melodia e poesia. Cronista que nos deixou em notas musicais histórias do Brasil.

Matheus Luzi – Como foi o processo de seleção das músicas? Como foi sua pesquisa sobre Noel Rosa?

Jacque – Escolhemos cada canção a dedo mesmo. Ouvimos todas as canções disponíveis de Noel para escolher 10. Eu cataloguei as canções numa tabela, onde ia ouvindo, comentando e selecionando as canções que foram menos gravadas e que me chamavam atenção. A lista das escolhidas começou com 40, depois 20, depois 14, até chegar em 10. Paralelo a isso fui lendo as histórias, os livros dedicados ao Noel, assistindo documentários, filmes, durante meses fiquei imersa em sua obra, só falava dele e só sonhava com ele! rs

(Jacque / Divulgação)

Matheus Luzi – Como você enxerga este álbum? O que ele traz de bom?

Jacque – Acredito que colocamos neste álbum nossa identidade, seja na maneira de executar as canções como nos arranjos que pra mim culmina em um mosaico, como a capa do disco, muitos Noel, de várias cores, misturando-se, onde a composição “Choro” de Noel é usada para solo numa canção, “Coisas Nossas” é usada de introdução em sambas menos famosos, a introdução de “João Ninguém” famosa é usada como coro com lalaias para serem cantados juntos e por aí vai, numa formação inusitado de vibrafone, guitarra e contrabaixo somados à voz.

Matheus Luzi – Fale sobre a ideia de colocar guitarra no disco, algo meio inusitado.

Jacque – Quando pensei em gravar a obra de Noel eu sabia que a primeira coisa que queria era buscar uma formação diferente das tradicionais, dos regionais, não só para ser diferente ou por não gostar dos regionais, muito pelo contrário, exatamente por cantar bastante nessa formação em outros projetos, estava buscando explorar enquanto intérprete vivências com outras formações. E quando surgiu a ideia, lembrei do trio Retrato Brasileiro com Gabriel Peregrino no Vibrafone, Guilherme Sakamuta na guitarra e Theo Fraga no contrabaixo e tudo se encaixou, pois já havia ouvido a sonoridade dos meninos enquanto grupo e gostava da unidade.

Matheus Luzi – Como você defini a sonoridade do álbum?

Jacque – Eu gosto da palavra mosaico quando me refiro a este disco, porque é isso, não é um disco de samba, é um disco com samba, embolada, foxtrote, bossa nova, choro, samba-canção. É um quarteto com voz, vibrafone, guitarra e contrabaixo mas que hora emulam instrumentos como cavaquinho, repique de anel, surdo, cuíca, tamborim sem trocar a formação. É um disco em homenagem ao Noel que traz 10 canções, mas que ocultas, para bons amantes da obra de Noel, traz mais que 10 canções. Eu acho que é um disco feito de muitas formas e cores, como queremos ser.

Matheus Luzi – Fique a vontade para falar o que quiser.

Jacque – Gravamos este disco na Fatec de Tatuí em dezembro de 2019 com uma equipe de 10 pessoas, durante 05 dias, das 10h da manhã às 22h da noite. Os técnicos e engenheiros de produção e de som foram talentosos e dedicados com tudo que criamos, e todo esse disco também representa este mosaico de cores e pessoas juntas, cada qual em sua forma. Obrigada a todos os envolvidos!

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