30 de abril de 2026

[ENTREVISTA] Escritor Jey Leonardo, sua história, o cotidiano, feridas e aprendizados.

Escrever nos tempos atuais não é uma coisa tão fácil quanto imaginamos. E por que? Simples, o século da depressão e o seu pico durante o corona. Jey Leonardo, 29 anos, nasceu no dia 12 de novembro de 1990 em João Pessoa, capital paraibana.  

Um jovem escritor no qual faz um sucesso estrondoso nas redes sociais, com seus textos escritos em um layout (uma imagem; plano de fundo preto com a escrita em branco). Jey escreve mais sobre cotidiano, experiência que vive e que também observa nas outras pessoas. Considerado por mim, um romancista mesmo contrariando a opinião própria do mesmo é que, se considera um cronista. O escritor lançou o primeiro livro “Talvez não seja tarde” (Multifoco, 2016), é um romance. E o segundo livro intitulado “Só você pode curar seu coração quebrado” (Planeta, 2019). É uma coletânea de textos, crônicas e microcontos divididos em quatro partes que conversam entre si.

 

 

HISTÓRIA DE JEY contada por ele mesmo

Nasci em João Pessoa, capital paraibana, mas sempre vivi em Sapé, cidade que é o berço do poeta Augusto dos Anjos. Por aqui, devido à influência de Augusto, existem muitos artistas e a cidade por si só respira arte e cultura nas suas mais diversas manifestações. Minha disciplina favorita na escola sempre foi redação. Tinha prazer em escrever longos textos, criar narrativas e fantasiar a realidade através de histórias que faziam minha mente flutuar. Isso me fez ganhar alguns concursos locais e estaduais de redação.

Minha ligação com a escrita começa efetivamente em 2009. Como sou bastante antenado às novas tecnologias, resolvi criar um Twitter nesse mesmo ano e ali passei a escrever em 140 caracteres tudo que se passava em minha vida. Contudo, somente em 2010, ano que saí de casa com intuito de estudar, pois havia sido aprovado no curso de Agroecologia na cidade de Picuí, é que comecei a escrever bem mais. Isso aconteceu, sobretudo, porque eu sentia bastante falta da minha família, da minha casa, minha cidade e amigos. Acabei me sentindo órfão e essa sensação me fez mergulhar no universo da escrita, no qual eu dedicava tempo escrevendo e desabafando nas redes sociais como estava me sentindo.

Com a repercussão, os posts viralizaram e foram chegando muitos seguidores, até que em 2015 recebi o convite para publicar o primeiro livro. Foi então que percebi que as coisas ficaram mais sérias. Me assustei, claro. E a partir disso migrei para as demais redes sociais, passei a divulgar os textos nelas também. 

O resultado disso tudo, atualmente, gira em mais de 1 milhão de pessoas que diariamente consomem meu conteúdo. Além de dois livros publicados. O último, intitulado “Só você pode curar seu coração quebrado” (Planeta, 2019), inclusive entrou para lista dos mais vendidos do Brasil, na sua categoria “ficção”. A escrita sempre representou muito para mim. É minha válvula de escape e se trata de algo que faço com muito amor. A maior recompensa é poder abraçar as pessoas através das palavras e ser capaz de levar algo para seus corações.

 

 

Luan FH – Jey, percebi uma seriedade e uma intensidade a mais no trecho “A escrita sempre representou muito para mim”, então me responde uma coisa: hoje em dia você consegue respirar melhor durante um dia terrível, somente ao escrever?

Jey: Quando escrevo é como se pudesse estar diante dos meus fantasmas, sabe? É uma oportunidade que tenho de enfrentá-los, de encará-los e dessa forma conseguir expulsá-los de mim. Claro, às vezes demora bastante e eu preciso de várias sessões desse exorcismo. Mas certamente a escrita, na minha vida, funciona como uma oportunidade de eternizar tudo que carrego, bem como um lembrete sobre coisas que nunca mais quero viver outra vez. São experiências. Sendo que também gosto de escrever sobre coisas leves, eternizar os momentos de gratidão.

 

Luan FH – Qual é o seu autor(a) favorito(a)? E ele(a) te inspira de algum modo? (Se quiser fazer uma resposta longa, fique à vontade). 

 Jey: É Augusto dos Anjos, não poderia ser diferente. A forma peculiar, obscurantista e por vezes assustadora presente nos versos de Augusto me encanta, inspira e ensina. É muito difícil conseguir fazer o que dos Anjos fez. Certamente um dos maiores gênios da literatura brasileira, que conseguiu ser eterno com apenas uma obra, o “Eu”.

 

“Quando escrevo é como se pudesse estar diante dos meus fantasmas, sabe? É uma oportunidade que tenho de enfrentá-los, de encará-los e dessa forma conseguir expulsá-los de mim.”

 

Luan FH – Você pretende visitar algum outro estado ou cidade para encontrar fãs, ou fazer alguma palestra?

Jey: Pretendo sim, está nos meus planos. Não por agora, porque estou estudando outras formas de me aproximar do meu público. Penso em migrar para conteúdos como vídeos e na produção de e-books

 

Luan FH – Você já foi reconhecido na rua?

Jey: Sim, já aconteceram situações em que as pessoas perguntaram se eu era eu mesmo, o Jey do Instagram. Apesar de não aparecer muito nas minhas redes sociais. É inusitado, rs.

 

 

Luan FH – Me conta como foi a reação da sua família ao saber de todo seu sucesso?

Jey: Minha família é a minha maior base. No começo todos por aqui estranharam quando revelei que havia sido convidado para publicar meu primeiro livro. Tomaram um susto! Porque eles não compreendiam que a minha relação com a internet estava indo tão longe. Mas nunca deixaram de me apoiar e de acreditar nos meus sonhos. Meu pai, minha mãe e irmãos, têm muito orgulho de tudo isso e seguem acreditando em mim. Sou grato demais por ter nascido nessa família linda.

 

Luan FH – Qual foi a maior realização que você fez por causa do teu talento?

Jey: A maior delas, sem dúvidas, é fazer o que amo. Em consequência disso vamos conquistado outras coisas, ocupando outros espaços. Acredito que o sucesso do meu segundo livro foi uma das maiores realizações na minha carreira. É muito gostosa a sensação de saber que muitas pessoas leram, se emocionaram e pretendem levar algo extraído das páginas para a vida.

 

Luan FH – Eu sempre gosto de fazer essa brincadeira no final de qualquer entrevista. Acho bacana e libertador… Você tem quantas linhas quiser para poder escrever tua visão sobre qualquer coisa. (A vida, o mundo, as pessoas, o amor, o desafeto, melancolia e etc). 

Jey: Desde que estes tempos de incerteza começaram, ironicamente, eu tive a certeza de que a humanidade nunca mais seria mesma. A começar por mim. Durante os últimos quatro meses eu já me transformei mais de um milhão de vezes. Estamos vivendo uma época muito difícil, em que as relações humanas precisam ser repensadas e, talvez, valorizadas. Todos estávamos habituados a uma cultura da frieza, do afastamento, do desprezo, da punição, da indiferença. Até que, devido a uma circunstância maior, fomos todos obrigados a nos manter distantes sem que houvesse alternativa.  Acredito que essa situação atual seja capaz de funcionar como um alerta e eu espero, de todo coração, que as pessoas sejam mais brandas em suas tomadas de decisão e que a crueldade de alguns seja transformada em amor. Porque é esse o caminho e é isso que todos precisamos.

 

“Desde que estes tempos de incerteza começaram, ironicamente, eu tive a certeza de que a humanidade nunca mais seria mesma. A começar por mim. Durante os últimos quatro meses eu já me transformei mais de um milhão de vezes. Estamos vivendo uma época muito difícil, em que as relações humanas precisam ser repensadas e, talvez, valorizadas.”

 

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