24 de junho de 2026

Chiquinha Gonzaga: compositora mulher mestiça

Chiquinha Gonzaga

A mítica compositora Chiquinha Gonzaga (1847-1935) representa um divisor de águas na história da música brasileira.

Nela, convergem 3 marcos principais: o musical, o feminino e o racial.

Em relação ao aspecto musical, a obra dela foi das primeiras vezes em que a música de um(a) compositor(a) brasileiro(a) de música escrita refletiu traços inequívocos de brasilidade, em vez de funcionar como mera XEROX de modelos estéticos europeus; antes (e mesmo depois) de Chiquinha, a música escrita feita no Brasil era difícil de distinguir das referências europeias (clássicos, barrocos, românticos e afins); em alguma medida, esse colonialismo da música escrita brasileira permanece vastamente presente até hoje; neste sentido, sua obra é uma afirmação da possibilidade do brasileiro de existir como sujeito de sua própria Música! De existir como sujeito!

Já em relação ao aspecto feminino, Chiquinha representa a possibilidade de vislumbrar a Mulher como sujeito da música brasileira (em vez de vê-la sempre como mera vítima do patriarcado) e, assim, sua obra oferece a oportunidade de traçar Matriarcados através da História da Música, em vez de apenas genealogias masculinas; neste sentido, sua vida e obra são uma afirmação do feminino! VAI, MULÉ!!!

E, finalmente, em relação ao aspecto racial: Chiquinha é mestiça, preta e branca, o arroz com feijão do Brasil, e reconheceu sua ancestralidade ao longo da vida tanto em obra quanto em sua atuação em prol da abolição. Ela representa uma oportunidade de ver o mestiço como sujeito de sua própria história, e não como mero fruto dos projetos nacionais de embranquecimento e do abuso; ou seja, se não se trata mais do mito equivocado da democracia racial, tampouco se trata de condenar seres humanos que resultaram das origens dupla (europeia-africana) ou tripla (europeia-africana-americana) do Brasil. Sua vida e obra são uma afirmação do plural!

O mundo dos compositores eruditos brasileiros ainda é acachapantemente branco OMO. Não há praticamente mestiço. Muito menos negro. É a apoteose do colonialismo, espelho branco pra rostos mestiços, a eterna negação do Brasil.

Isso dá a medida do desafio que foi pra Chiquinha Gonzaga,
E que é, ainda, hoje… .. .

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