13 de janeiro de 2026

LITERATURA DO RAP, por Luiz Castelões

O rap é o mais importante gênero musical-literário do final do séc. XX.
Assim como o post de rede social é o gênero literário do início do séc. XXI.

O rap usa a palavra como principal tijolo pra construção musical.
Daí eu o classificar não somente como “música”, mas também e principalmente como “literatura”.

Então, hoje, citaremos versos dessa literatura, que é breve, urgente, emocional, lúcida. A literatura de versos selecionados do “BRAP”, o rap brasileiro.

Porque… depois de décadas de rap brasileiro, já há Memória. E alguns versos se destacam como particularmente memoráveis, associados ao impacto emocional e estético que causaram em sua primeira escuta.

Tod@s lembram, por exemplo, da reação à primeira escuta de “Diário de um detento” (1997) dos Racionais MCs. Até hoje arrepia! Especialmente nesses 2 versos:

SER HUMANO É DESCARTÁVEL NO BRASIL /
COMO MODESS USADO OU BOMBRIL

Mas também nesses:

METRALHADORA ALEMÃ OU DE ISRAEL /
ESTRAÇALHA LADRÃO QUE NEM PAPEL

(A metáfora desses 2 últimos versos é a de que, num mundo de supostos mocinhos e vilões internacionais, a indústria da guerra de ambos os lados lucra, mesmo que indiretamente, com o genocídio do negro brasileiro.)

Caetano e Gil já haviam feito referência ao episódio que narram os Racionais MCs, em “Haiti” (de 1993), uma versão tropical de RAP, quando recitaram (seguidos de um pavoroso silêncio, só interrompido pelo cello de Jacques Morelembaum):

E QUANDO OUVIR O SILÊNCIO /
SORRIDENTE DE SÃO PAULO /
DIANTE DA CHACINA…

(Sob esses 3 versos, habita uma biblioteca inteira. Eles dialogam com os versos posteriores dos Racionais MCs – de que “o ser humano é descartável no Brasil…” –, ao mesmo tempo em que lembram que o Estado de Direito em tese não admite execuções sumárias, ainda que uma parte do Brasil seja a favor de “bandido bom é bandido morto” [mas só para certos bandidos]…)

Outro destaque do BRAP é “Emivi” (2002) de MV Bill, que se destaca pela invenção de uma espécie de “rap-barroco”, construído sobre contrastes, “claro-escuro”:

FAÇA UM DESPACHO PRA MIM /
DEPOIS FAÇA UMA ORAÇÃO PRA MIM.

PEÇA LIBERDADE PRA MIM /
DEPOIS PEÇA UMA CADEIA PRA MIM.

MANDE UMA AFRICANA PRA MIM /
DEPOIS MANDE UMA NAZISTA PRA MIM…

Finalmente (para não nos alongarmos demais no espaço restrito da micro-literatura de internet), não poderia deixar de citar esses 2 versos clássicos do desarmamento, do Rappa e da Triz, ambos desfazendo a arminha:

A LUZ DA MINHA LUTA /
SUA BALA NÃO APAGA. (Triz, “Elevação Mental”, 2017)

TAMBÉM MORRE QUEM ATIRA! (O Rappa, “Hey Joe”, 1996)

(…)

Cada vez mais, RAP, literatura e universidade se reúnem no espírito do nosso tempo, já que os três constituem territórios onde a palavra manda – representantes eloquentes de uma logocracia contemporânea…

Crítica escrita por Luiz Castelões em dezembro de 2023

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