29 de setembro de 2026

ALÉM DA BR – Uma lista de lançamentos focada no processo criativo das canções (#1)

Já é um sucesso o nosso quadro ALÉM DA BR, focado em artistas não-brasileiros. Com o ALÉM DA BR, já divulgamos mais de três mil músicas de artistas de todas as partes do mundo. Agora, apresentamos um novo lado desta lista, no qual iremos focar no processo de composição e criativo. Para isso, selecionaremos sempre cinco artistas, que irão contar com suas próprias palavras como foram estes processos de sus novas músicas. Vale dizer que o conteúdo produzido por eles tem exclusividade da Arte Brasileira, escrito sob encomenda. A sequência foi escolhida via sorteio, ou seja, não há “melhores e piores”.

Vamos nessa?

Tidal Peak – “Wilderness Years” – (Austrália)

“Wilderness Years” surgiu numa noite de experimentação noturna. Eu nunca tinha usado samples antes e, olhando a biblioteca de samples do meu software de gravação (Cubase), encontrei uma caixa e um bumbo com um som crepitante, tipo vinil. Importei os samples para o projeto de gravação e adicionei um leve delay, depois os coloquei em loop, gravando minha bateria eletrônica Roland TR-08 por baixo para dar um pouco mais de potência.

Para mim, adquiriu uma qualidade insistente, pulsante e hipnótica. Instantaneamente, eu tinha uma melodia na cabeça, então, na mesma noite, gravei alguns acordes de Rhodes com vários sintetizadores, alguns acordes de guitarra e até o solo de guitarra no final. Então, parei por algumas semanas, pois tinha acabado de começar um novo emprego e não tinha muito tempo para isso.

Quando finalmente voltei a ouvir, algo me prendeu, especialmente os sintetizadores monótonos que me fizeram lembrar de casa, ou seja, algum lugar onde você não mora mais, mas ainda sente nostalgia. Para esse fim, a faixa foi… Perfeito para a segunda metade do álbum, que é uma suíte conceitual sobre minha antiga cidade natal, Yeppoon, no litoral. A letra da faixa falava sobre revisitar lugares antigos na praia enquanto tentava relembrar certos romances e amizades que não existem mais. Quando comecei a cantar, fiz questão de dar à faixa um toque de nostalgia emocional. É definitivamente uma das minhas faixas mais carregadas de emoção até agora.

Comentário de Tidal Peak

Azeul Beats – “Prescilla” – (Filipinas)

“Prescilla” é uma faixa muito pessoal — que ocupa um lugar especial no meu coração. Ela leva o nome da minha esposa, que tem sido uma fonte inesgotável de amor, força e inspiração na minha vida. Desde o início, eu queria que essa música soasse honesta e atemporal, algo que realmente refletisse o que ela significa para mim, além do que eu jamais conseguiria expressar em palavras.

A melodia surgiu em um momento de silêncio e, a partir daí, a música começou a se desenvolver naturalmente. Adotei um processo criativo que permitiu que novas ideias e texturas emergissem organicamente. Ao longo do caminho, usei algumas ferramentas modernas para ajudar a moldar o som com mais clareza e guiar a direção até que tudo parecesse certo emocional e sonoramente.

O que torna “Prescilla” significativa para mim é a sua simplicidade. Não se baseia em grandes declarações, mas sim nas pequenas coisas que tornam o amor verdadeiro tão poderoso: o sorriso dela, o conforto de estar perto dela e seu apoio constante em todas as fases da vida. Esses momentos cotidianos se tornaram a base tanto para a letra quanto para a sensação geral da música.

A produção foi mantida intencionalmente minimalista para que cada palavra e nota respirasse. Cada parte do arranjo foi escolhida com cuidado, para deixar a emoção transparecer sem distrações e para refletir a beleza silenciosa da conexão que compartilhamos.

Em sua essência, “Prescilla” é uma carta de amor em forma de música. É profundamente pessoal, mas espero que quem a ouvir também encontre um pouco da sua própria história nela. Porque, no fim das contas, todos nós buscamos um amor que seja seguro, inspirador e real — e é disso que esta música trata.

Comentário de Azeul Beats

iDaWiLL – “Big Wan Dem”

“Big Wan Dem” foi inspirado pelo profundo respeito que temos pelos mais velhos, especialmente em lugares como Serra Leoa, onde a idade traz consigo um tipo único de honra e privilégio. Eu queria capturar essa dinâmica — como ser mais velho muitas vezes significa receber um certo nível de reverência e influência dentro da comunidade.

Fiz a demo da música pela primeira vez há alguns anos. Naquela época, ela tinha uma pegada bem mais pesada de rap e hip-hop. A versão original adotou um estilo mais agressivo e lírico, que refletia meu estágio criativo na época.

Recentemente, revisitei a faixa com novos ouvidos e uma nova perspectiva. Decidi mudar a vibe, tornando-a mais divertida e energética, mas sem usar o rap pesado. Queria que a música soasse mais leve e divertida, algo que as pessoas pudessem curtir facilmente, mas que ainda respeitasse a mensagem por trás dela.

Durante todo o processo, cuidei de cada parte da produção sozinho. Escrevi, produzi, fiz os arranjos e a engenharia da versão final, garantindo que cada elemento estivesse alinhado com a nova visão que eu tinha para a faixa.

Criar “Big Wan Dem” foi um momento de ciclo completo para mim — uma chance de honrar a tradição, mantendo a música atual e identificável. Tenho orgulho de como ela evoluiu e estou animado para compartilhá-la com o mundo.

Comentário de iDaWiLL

전현재 (JEON NOW) – “Don’t worry” – (Coreia do Sul)

“Don’t Worry” não é apenas uma música — é uma vibe. Em um mundo que está sempre correndo e nos puxando em mil direções, é um lembrete suave para desacelerar, respirar e confiar no processo. É sobre deixar de lado o peso que carregamos e encontrar um pouco de paz no caos. “Don’t Worry” é aquela voz tranquila que te diz que, mesmo quando tudo parece fora de controle, você ainda está exatamente onde precisa estar.

Um vocal leve é ​​colocado em um piano pequeno, mas emotivo, para transmitir uma mensagem que não é chamativa, mas sincera.  Tentei reduzir o número de instrumentos e fazer com que a música soasse lo-fi.

Essa música é perfeita para cafés, bares, lojas de roupas, etc., e quando você está sozinho ao amanhecer ou quando quer dar o tom com seus entes queridos.

Comentário de 전현재 (JEON NOW)

Mila Banaru – “Follow me” – (Alemanha)

“Follow Me” nasceu de uma necessidade interior de explorar aquela parte de nós que muitas vezes evitamos: a sombra. A ideia central da música é um convite à autenticidade, à coragem de seguir nossos desejos mais profundos, mesmo quando eles não se alinham com a imagem de “boa pessoa” que tentamos manter.

Fui inspirada pelo pensamento de Carl Jung, que dizia que nossa sombra — esse lado reprimido e mais escuro — é, na verdade, uma fonte de poder. Em vez de negá-la, deveríamos integrá-la e aprender a ouvi-la. Follow Me fala justamente dessa voz interior que sussurra verdades incômodas, mas libertadoras.

Normalmente, meu processo criativo começa com uma melodia que simplesmente me vem à mente. Depois escrevo a letra e, por fim, passo para a produção. Toco piano e componho sozinha minhas músicas, da ideia inicial até a versão final. É um processo pessoal, sincero e muitas vezes intuitivo.

A linha melódica da canção foi o ponto de partida — uma expressão simultânea de vulnerabilidade e força. A partir dela, construí uma atmosfera cinematográfica, quase ritualística, onde o piano se torna o guia de uma jornada interior. Cada som foi escolhido com cuidado, cada pausa deixada intencionalmente para convidar à reflexão.

Para mim, Follow Me é um convite para mergulhar dentro de si, sem mais medo dos nossos desejos mais autênticos. Não é uma música que traz respostas — ela abre portas. E se conseguir tocar uma corda sensível em quem ouve, então seu propósito foi alcançado.

Comentário de Mila Banaru

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