5 de setembro de 2026

JanaWan e CowMila Wanderley: quando a xilogravura delineia-se como estética e não como artifício utilitário

E enquanto fixamos
claros signos
flui o silêncio.

Orides Fontela

1.

Este ensaio contemplará a obra de duas mulheres, mãe e filha. O registro de cada uma vai mudar à medida em que eu avançar no texto. Para efeito de compreensão, considerarei JanaWan como a) e CowMila como b).

JanaWan (Natal, 1974) e CowMila (Natal, 1995). Ambas tiveram o mesmo início. Tudo começou na oficina Rossini Perez de Gravuras, oferecida pela Fundação José Augusto. Erick Lima (da Bodega da Xilogravura) era o professor titular. As duas são membros da Casa do Cordel. Foram as coordenadoras da 8ª e 9ª edição da coleção Dez Mulheres Potiguares, da Casa do Cordel. Funciona como um coletivo, porém, cada uma mantém sua individualidade.

Com relação às mulheres, JanaWan foi a responsável pela capa do cordel de Célia Albuquerque (Pinceladas do Amor), como também pela capa do cordel de Nati Cortez (O pioneirismo feminino na literatura de cordel e na literatura infanto-juvenil da literatura norte-rio-grandense).

2.

a) Em relação a JanaWan Wanderley, vou arrolar algumas das mais importantes xilogravuras da artista para começo de conversa: Pórtico dos Reis Magos, Forte dos Reis Magos, Teatro Alberto Maranhão, Igreja Matriz Sagrada Família (Rocas), Igreja de Nossa Senhora da Apresentação (Sé Velha), Igreja Matriz Santa Teresinha (Janduís).

As xilogravuras de templos da Igreja Católica e de outros monumentos da cidade do Natal mais se assemelham a desenhos, no sentido de que, mais do que terem sido submetidas aos tacos de madeira entalhados, funcionam como se fossem um carimbo, após passados pelo rolo de tinta, para conseguir o resultado final.

Quero dizer que parecem ter sido desenhadas com uma caneta de nanquim ou algo parecido, gerando uma compleição perfeita dos prédios do sagrado ou de qualquer elemento da paisagem. Acontece, nesse caso, uma dissonância em relação ao que sucede com os demais artistas que, ao ter em mãos um bloco de madeira, retiram tudo o que não deve aparecer na imagem final. Ou seja, ao retirar as partes que não querem que fiquem na gravura, fazem com que repontem ícones em relevo.

O que parece ocorrer nos tacos nos quais JanaWan busca reproduzir uma imagem integrante da paisagem urbana, por exemplo, o Teatro Alberto Maranhão, é que traça poucos riscos, com poucas linhas escavadas, para que a imagem apareça e fique em evidência apenas o que é essencial. Ou seja, com esse artifício, ela define os contornos de um retrato muito legítimo e assemelhado à imagem do teatro, com todos os detalhes, por incrível que possa parecer.

É isso o que temos diante dos olhos: a legítima imagem das edificações mencionadas acima, plasmadas em preto e branco, com grande parcimônia de elementos. Trata-se de um despojamento que faz o negro ressaltar, ordenando a configuração por um minimalismo de extrema dificuldade de alcançar quando se trata de arte.

Podemos afirmar que se trata de uma arte totalmente destoante de seus pares, sempre fazendo representar os humanos em evidência, a fauna e a flora da caatinga, preferindo observar e reter em seu trabalho a exata perfeição de como se encontra no mundo real. Bem claro que todo mundo sabe que a arte existe por conta do excesso de lacunas que habitam em nosso ser.

A arte propõe outra realidade paralela e é sempre crítica, demonstrando um inconformismo com a rotina e suas atribulações, suas vicissitudes, suas enfermidades que nos provocam sofrimento, seja mental ou físico. O pendor artístico de JanaWan parece lançar suas fronteiras para os lados da arquitetura, conduzindo-a a um conhecimento, mesmo rudimentar ou intuitivo, da geometria e do desenho descritivo.

3.

São xilogravuras de rara beleza, inscrevendo a gravurista como inimitável ao se comprazer com o que é arquitetura que rege seu trabalho: o teatro, as inúmeras igrejas, o Forte dos Reis Magos, deixam implícito que são lugares frequentados pelo humano, mas, quando de sua retratação, encontram-se como fachadas a se tornarem objeto de um desenho, com seu despótico silêncio de aguardo. Ao nos depararmos com suas xilogravuras, imediatamente as reconhecemos e as relacionamos com o que integra nossa paisagem geográfica. Não resta dúvida alguma de que aquilo é um elemento da nossa paisagem íntima, nós que aqui residimos desde muito.

É muito interessante o fato de que sua obra quase não se determina por serem capas de folhetos de cordéis, como quase sempre acontece, mas a xilogravura com o seu ethos (caráter) de manifestação artística. A gravura na obra da artista se inscreve como uma forma buscando a aura da estética; quase sempre não é utilitária nem funcional. Reverbera suas antíteses entre o claro e o escuro, o preto e o branco, para se propor a demonstrar sua exímia capacidade de dar conta de edifícios a partir do desbastar de um pedaço de madeira.

Com efeito, quase sempre a figura humana encontra-se presente nas xilogravuras, remetendo às suas imagens arcaicas advindas da Idade Média de Portugal. Desde lá, os cordéis eram pendurados em fios de barbante ou cordas, para serem expostos, apreciados e comprados pelos que não apenas faziam as compras mas também os usavam para exercitar o lúdico, fruto de uma sociedade baseada na oralidade, no decorar as estrofes de uma aventura amorosa ou de algum acontecimento que ficou conhecido e os cordelistas deixavam registrados nas sequências de esquemas métricos e esquemas rítmicos, engendrando um ritmo cadenciado, não muito difícil de se decorar.

Acontece que tudo foi elaborado com primoroso cuidado, assim como se tivesse ficado muito tempo sobre os tacos, tendo o cuidado de desbastar com as goivas. O resultado é sempre uma xilogravura que mais se assemelha a uma fotografia. Não fica nada de fora: todos os detalhes são ressaltados, com o intento de dar conta das linhas principais e das secundárias, edificando nossas construções históricas.

4.

b) Agora chegou a vez de CowMila Wanderley. Mãe e filha frequentaram a mesma escola, o mesmo mestre; contudo, diferem bastante, mormente nos referentes (temáticas) e no desbaste da madeira. Filiando-se às tradições das xilogravuras, assemelha-se mais aos xilógrafos que se encontram na Escola de Xilogravura de Mossoró. Assim, suas xilogravuras pertencem mais ao que lateja vivo nas cidades do Rio Grande do Norte, onde se produzem capas de cordéis.

Não é que suas gravuras vão remeter ipsis litteris, mas o traço de efetuar o desbaste para a produção do desenho por meio do preto e do branco parece muito com os que deram respostas a uma linha de continuidade viva. Podemos citar apenas três trabalhos da artista. Há uma preocupação em ressaltar figuras femininas, como se buscasse retirar do anonimato aquelas a quem a História do Rio Grande do Norte muito deve: Castelo de Areia (duas meninas brincam na praia), Iemanjá. Creio que sua magnum opus é 50 Tons de Deusa.

Essa é uma leitura de O Nascimento de Vênus, de Sandro Botticelli. A personagem da xilogravura encontra-se na mesma posição da deusa do pintor italiano, sendo que a artista CowMila investiu-se de isolar Vênus. Em vez de colocá-la sobre uma concha, saindo do mar, deixou a deusa no meio de uma floresta, com grandes árvores ao fundo; um lobo uiva do lado esquerdo da deusa.

Existe uma grande profusão de ornamentos, como folhas contornando toda a tela. Ademais, temos arbustos, folhas e flores ladeando a deusa despida e escondendo os seios e as partes íntimas com os cabelos segurados pelas mãos, em um gesto de pudor. O desenho do corpo da mulher está primoroso, com suas proporções exatas, requintado e cheio de graça. Encontra-se pleno de ornatos que a fazem ser senhora do lugar.

 

OBS:.As opiniões expressas neste ensaio são de responsabilidade exclusiva do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da Revista Arte Brasileira.

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