23 de outubro de 2026

O cemitério velho da cidade de Patu

Cemitério velho de Patu

 

Seguindo na Rua Capitão José Severino até o seu final, antes de adentrar pela Praça Padre Henrique Spitz, observa-se, do lado direito, um muro branco com um portão de ferro escondido entre as casas. Eis o que fora, provavelmente, o primeiro cemitério da cidade, hoje conhecido como Cemitério Velho.

Embora pequeno, configura-se como um raro conjunto de feições uniformes. É esse o simbolismo da arte tumular ou funerária. Os vivos erguem monumentos aos que partiram, homenageando-os, para a lembrança se perpetuar postumamente, não deixando que as tantas veredas e vicissitudes do cotidiano ocupem o lugar daquilo que se faz necessário evocar, bem como marcas indeléveis que durante certas convivências imprimiram virtudes ou defeitos, orgulhando-se, alguns, por deter vestígios de seus ancestrais.

Não é certo que todos os jazigos ali encontrados detenham aspectos de quando foram erguidos, sobretudo no que diz respeito ao fato de todos serem caiados de um imaculado branco, refratador da translúcida luz presente nos áridos sertões adentro.

Cemitério velho de Patu

A simetria bilateral pode ser apontada como princípio orientador de quase todos os túmulos. Ao se traçar uma linha vertical no meio do túmulo, consegue-se dividir o monumento em duas partes perfeitamente iguais. Em uma arquitetura extremamente simples, em que predominam as linhas retas e os ângulos de 90º, constata-se um padrão regido por uma lógica triádica.

Cemitério velho de Patu

Com efeito, predominam os jazigos como se fossem caixas cúbicas, sobrepondo-se em número de três, e toda essa estrutura se queda sobre uma larga caixa retangular, como se apoiasse todo o pequeno edifício, simbolicamente lançando para o alto. Há de lembrar o significado do número três na Bíblia e nos rituais da Igreja Católica. Evoca-se a presença da Santíssima Trindade: Espírito Santo, Pai e Jesus.

Outrossim, há de observar os túmulos lançando para o alto sua espécie de escadaria, sugerindo àquele que se encontra homenageado seu inexorável caminho em busca do alto, da glória e de uma redenção da realidade, lugar de dores e atribulações.

O que consideramos como símbolo é uma representação ou discurso que lança o seu significante para um outro lugar, que não aquele onde está registrado. Ou seja, a arte funerária busca dizer algo diferente do que se contempla. É uma metáfora: como se fosse uma coisa no lugar da outra, imprimindo uma eficácia: quer seja voltada para a jornada da morte, quer seja remetendo às imagens ancestrais.

Com efeito, é o caso da presença de uma rosácea em um dos jazigos. Esse elemento arquitetônico, bastante empregado nas catedrais góticas da Europa, organiza-se como um rendilhado com quatro pétalas — quadrifólio. O simbolismo da rosa diz respeito ao caminho espinhoso palmilhado no decorrer da existência, para, enfim, ascender a uma outra dimensão: a Glória, na qual se descansa eternidade adentro.

Cemitério velho de Patu

A simplificação das formas dos túmulos do Cemitério Velho assenta-se sobre um despojamento geométrico das formas, não permitindo que o visitante se deixe possuir pela quantidade de elementos que são detalhes para adornar. Não há ostentação ou quaisquer elementos remetendo aquilo para quem contempla, a algo que possa conduzir para seu íntimo, sua subjetividade, deixando-se possuir por emoções ou excesso de sentimentos. Há muito mais um respeito pela ancestralidade, pelo memento more, conduzindo-o para uma resignação face à morte. Não somente compreender que estamos no mundo em caráter provisório, mas também que tudo é impermanente, se esvai, se esfarela, restando a todos os sencientes compreender cada dia como um dia a menos. Assim, há de se adquirir uma atitude resignada, pois não podemos interferir em um processo integrante da condição humana. Resta o dobrar-se face às forças da vida, aceitando para deter uma melhor qualidade de vida.

Por fim, da antiga necrópole, arrodeada por casas de moradores devido ao crescimento da cidade, restou apenas uma parte do muro branco com seu portão de entrada. Ainda vigora, para um ou outro que busca a herança dos antepassados — aqueles assinalados por uma espécie de necessidade latejante em sua alma — e que por meio da escrita ou de outras formas de arte, buscam cumprir certas ordens que circulam no seu sangue, deixando registrado o que o vento do tempo sopra continuamente, na sua busca de a tudo destruir ou apenas deixar alguns vestígios.

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