24 de junho de 2026

Entre aparelhos e canções: o adeus de Eunice

Por Fredi Jon, do grupo Serenata&Cia (abril de 2026) – Naquela noite de inverno, na Serra da Cantareira, o frio não era o que mais incomodava. Havia algo mais denso no ar, uma espécie de silêncio que não era vazio, era carregado. Como se a casa, lá no alto da escada longa e difícil, soubesse que estava vivendo seus últimos capítulos com alguém que sempre foi o seu centro.
Sueli não começou essa história pensando na vizinha. Ela queria uma serenata para a própria mãe. Algo bonito, delicado. Mas bastou atravessar o portão, bastou ouvir o que vinha do outro lado do muro… e tudo mudou.
Eunice tinha voltado para casa.
Não para melhorar. Para se despedir.
A cama hospitalar foi montada na sala porque não havia como subir. Aparelhos ligados, um enfermeiro atento, a família em volta tentando, cada um à sua maneira, aceitar o inevitável. E, no meio dessa travessia, surgiu um detalhe quase esquecido, mas poderoso: Eunice sempre achou serenatas a coisa mais linda do mundo. Nunca recebeu uma.
Às vezes, a vida não pede planejamento. Ela pede coragem.
E Sueli teve.
Naquela noite, Fredi Jon subiu a escada acompanhado da produtora Fernanda. Degrau por degrau, sem pressa. Como quem entende que não está indo fazer um show, está entrando numa despedida.
A casa estava cheia. Mas o barulho não vinha das pessoas. Vinha de dentro delas.
Eunice estava ali. Frágil, pequena diante dos aparelhos, mas imensa na história que carregava. Não falava. Não conseguia. Mas os olhos… os olhos diziam tudo.
Quando a primeira música começou, ninguém precisou entender. Todo mundo sentiu.
Fredi não cantava apenas. Ele devolvia àquela mulher pedaços da própria vida. Entre uma canção e outra, costurava histórias que ouviu ali mesmo: a mãe firme, a mulher generosa, a presença que sustentou tantos. Era como se, aos poucos, Eunice fosse sendo lembrada em voz alta… antes de ser silêncio.
Ela chorava.
Não com desespero. Com reconhecimento.
Do lado de fora, dois tucanos gritavam alto, quase interrompendo tudo. Ou talvez reforçando. Como se a natureza também estivesse inquieta, sem saber se assistia ou se participava daquele momento.
Gaspar não se conteve. Chorava sem defesa, sem vergonha. Os filhos se abraçavam tentando segurar algo que já escapava. Amigos olhavam sem saber onde colocar a própria dor.
E, no centro… Eunice.
Sem força no corpo. Mas, naquele instante, completamente viva.
Quando a última música terminou, não houve aplauso. Só um silêncio profundo, mas diferente. Mais leve. Como se algo tivesse sido resolvido ali, sem precisar ser explicado.
Na saída, Sueli agradeceu com os olhos cheios. Gravou um vídeo, emocionada, dizendo que nunca esqueceria aquilo.
Mas uma semana depois… ela ligou.
Cancelou a serenata da própria mãe.
Sem muitos detalhes. Sem justificativa.
E ficou a pergunta, dessas que não se respondem fácil:
Eunice partiu… e o luto atravessou as paredes, tornando impossível qualquer celebração tão próxima?
Ou Sueli entendeu algo naquela noite que a maioria de nós demora a aprender, que existem gestos que não podem esperar o momento perfeito… porque o momento perfeito, às vezes, é o último?
Talvez a resposta não importe.
O que importa é que, naquela noite, alguém não morreu sem viver um último sonho.
E isso… muda tudo.


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