3 de junho de 2026

[RESENHA] A literatura brasileira é seca, é úmida, é árida, é caudalosa.

            Desde a civilização mais antiga, a vida humana é orquestrada pelas estações do ano.  No poético livro “bíblico de Eclesiaste”s, o autor sussurra pelos milênios que há tempo para plantar e para colher; para viver e para morrer.

            O bicho humano é selvagem desde a semente. O rasgar e suceder dos ventos, biomas e climas insculpem rachaduras em seus calcanhares. A vida engatinha pela vida.

            O Brasil — país de extensões continentais — é um prato cheio [até a borda] para os personagens literários ambientados do lado de cá do oceano (qual oceano, afinal?).

A literatura brasileira é seca, é úmida, é árida, é caudalosa.

Comecemos por Graciliano Ramos e o imortal “Vidas Secas”. A obra desliza sinuosa feito serpente pelos calcanhares ressecados de uma família sertaneja que luta pela existência no nordeste brasileiro. 

O mormaço enxugado torna a lágrima chorada apenas sal e sujeira. O menino mais velho e o menino mais novo sentem a vida amarga de perto. Infância debaixo de sol. Debaixo de deserto.

Então viajamos para o pantanal sul-mato-grossense de Manoel de Barros. Por lá, Bernardo rega o rio todas as manhãs. Ele é quase árvore. Passarinho faz ninho em sua cabeça. O horizonte úmido é esticado pela Bugrinha a cada brinquedo de palavra.

A literatura brasileira é seca, é úmida, é árida, é caudalosa.

No cerrado, várias árvores só prosperam quando são queimadas. Analogia adequada que desagua no “Grande Sertão: Veredas” do genial Guimarães Rosa. Na aridez do interior central do país, Riobaldo escancara um ambiente pouco convidativo.

Já em “O Tempo e o Vento”, Érico Veríssimo ambienta sua narrativa na geografia do Pampa, o único bioma brasileiro restrito a apenas um Estado (Rio Grande do Sul).

A literatura brasileira é seca, é úmida, é árida, é caudalosa.

A vida do brasileiro é seca, é úmida, é árida, é caudalosa. As secas e as cheias regem e oprimem, ditam o ritmo e norteiam o ciclo das encarnações. É incrível como o lapso temporal de um ser humano é influenciado pelo elemento imaterial (e divino) do tempo em seu aspecto natural.

E em seus calcanhares literários, o que há escrito?

Agradecimentos cordiais ao grande amigo (e também poeta) Deyvid W. Barreto Rosa, Engenheiro Ambiental e Civil, mestre e doutorando na área de Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos, que enriqueceu as mal traçadas linhas desta crônica torta com seus saberes e sapiências de professor.

Celebrações pelo mundo: eventos culturais que transformam qualquer viagem

Viajar é mais do que conhecer paisagens ou tirar fotos em pontos turísticos. É também mergulhar de cabeça na alma.

LEIA MAIS

“Pra não dizer que não falei das flores”, o hino contra a ditadura

  Dizer que a música “Pra não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré foi um hino contra.

LEIA MAIS

Lupa na Canção #edição21

Muitas sugestões musicais chegam até nós, mas nem todas estarão aqui. Esta é uma lista de novidades mensais, com músicas.

LEIA MAIS

É tempo de celebrar o folclore brasileiro (Luiz Neves Castro)

FOLCLORE BRASILEIRO – Em agosto, comemoramos o Mês do Folclore no Brasil com a passagem do Dia do Folclore em.

LEIA MAIS

O disco que lançou Zé Ramalho

Zé Ramalho sempre foi esse mistério todo. Este misticismo começou a fazer sucesso no primeiro disco solo do compositor nordestino,.

LEIA MAIS

Uma aula sobre samba paulista com Anderson Soares

Patrimônio cultural imaterial do nosso país, o samba foi descrito e explicado por incontáveis fontes, como estudantes do tema, jornalistas,.

LEIA MAIS

A literatura feminina e os seus desafios

LITERATURA FEMININA: Eu fiquei sem escrever algo concreto por dois meses. Um bloqueio talvez ocasionado pelo meu anseio por coisas.

LEIA MAIS

CONTO: O Medo de Avião e o Vôo na Contramão (Gil Silva Freires)

Alcindo ganhou uma passagem pra Maceió. Acontece que era uma passagem de avião e Alcindo tinha pavor de avião. O.

LEIA MAIS

Por que os artistas gospels fazem lançamentos com playbacks?

É comum (e até tradicional) que artistas da música gospel realizem lançamentos acompanhados de playback, uma faixa a mais sem.

LEIA MAIS

As várias versões da “Balada do Louco”

No documentário “Loki – Arnaldo Baptista” (2008), o ex-mutantes Arnaldo Baptista é definido como “a própria personificação” do eu lírico.

LEIA MAIS