7 de março de 2026

ALÉM DA BR – Uma lista de lançamentos focada no processo criativo das canções (#4)

Já é um sucesso o nosso quadro ALÉM DA BR, focado em artistas não-brasileiros. Com o ALÉM DA BR, já divulgamos mais de três mil músicas de artistas de todas as partes do mundo. Agora, apresentamos um novo lado desta lista, no qual iremos focar no processo de composição e criativo. Para isso, selecionaremos sempre cinco artistas, que irão contar com suas próprias palavras como foram estes processos de sus novas músicas. Vale dizer que o conteúdo produzido por eles tem exclusividade da Arte Brasileira, escrito sob encomenda. A sequência foi escolhida via sorteio, ou seja, não há “melhores e piores”.

Vamos nessa?

Shannon Walker“Wax & Wane” – (Canadá)

Escrevi “Wax & Wane” cerca de 3 anos antes de lançá-la. Na época, eu ainda era tímido em relação ao meu processo de composição. Fiquei especialmente tímido com “Wax & Wane”, pois é um reflexo direto da minha alma. Queria mantê-la escondida e longe de julgamentos, mas estou muito feliz por finalmente ter conseguido gravá-la e lançá-la como meu segundo single.

Wax & Wane surgiu como inspiração para mim, a partir da minha própria luta com as emoções – com um dia me sentindo ótimo e o outro horrível. No passado, eu lutava contra essas emoções e tentava controlá-las. Agora sou capaz de reconhecê-las como uma curva natural no meu dia a dia – é humano sentir. E não há dois dias iguais – assim como a lua se movendo centímetro a centímetro, centímetro a centímetro, ao redor da Terra. E essa mesma lua só é refletida de volta para nós centímetro a centímetro, centímetro a centímetro também, tornando-a um ser vivo em constante mudança como eu.

Não sou a mesma pessoa que era quando escrevi Wax & Wane. Aprendi muito sobre esse processo insanamente maravilhoso de compor. Mesmo quando ouço Wax & Wane agora, sinto esse orgulho nostálgico transparecer — como se eu finalmente tivesse conseguido capturar um momento no tempo, um pedaço de mim, e entregá-lo ao mundo.

Comentário de Shannon Walker

Jetlagged “Tree of life” – (Alemanha)

“Tree of Life” nasceu de um fim de semana criativo em que nós três alugamos um loft com estúdio de gravação para compor uma nova música. O ambiente era leve, cheio de sofás, com uma vista linda para as árvores e para o rio Main. Até tinha uma cesta de basquete na parede — que usamos bastante, haha.

Sebas, nosso guitarrista, começou a tocar um ritmo que ele já tinha levado, com uma vibe meio indie dos anos 90 e 2000, tipo Jimmy Eat World com um toque de Blink 182. Tobi entrou com uma linha de baixo, e eu imediatamente peguei meu violão e criei o dedilhado que hoje é parte essencial da música.

Pedi então para o Tobi — que escreve letras lindas — criar algo com uma metáfora da árvore. E ele veio com essas imagens poéticas incríveis: a árvore como símbolo da vida, com raízes fortes fincadas na “Mãe Terra”, crescendo eternamente… Mas a canção também mergulha em temas mais sombrios: decadência, morte, e o desejo de deixar uma marca no mundo.

As melodias vocais surgiram naturalmente e, em cerca de duas horas, tínhamos a base da música como ela é hoje. No dia seguinte, gravamos harmonias vocais e pequenos detalhes. Foi tudo muito orgânico — como a própria árvore da vida em que a música se inspira. Tomara que todas as músicas surgissem assim! Esperamos que vocês curtam tanto quanto nós curtimos criar.

“Tree of Life” reflete as inquietações mais profundas do ser humano: o medo de envelhecer, de nossa própria finitude, e a pergunta sobre que tipo de marca deixaremos neste mundo.

Esperamos que “Tree of Life” leve esperança aos lares e aos corações das pessoas. Mudanças podem ser assustadoras — ver nossos pais envelhecendo, tornar-se pai ou mãe, tantas coisas às vezes nos apavoram… Mas há uma beleza nesse processo. E talvez possamos encontrar paz ao aceitar essa imperfeição que somos — e que é a própria vida.

Comentário de Jetlagged

Peter Kruse“Fall Asleep (Lullaby)” – (EUA)

Eu queria falar um pouco sobre essa música e por que a escrevi. Sou da região de Chicago e, ocasionalmente, temos nevascas aqui, durante os meses de inverno. Lembro-me de uma nevasca em que meus amigos e eu ficamos presos em uma vala com o jipe ​​dele. Nos revezamos para sair e tentar tirá-lo dali. Depois de algumas horas tentando, finalmente conseguimos destravar o jipe ​​e voltamos para a casa dele. Havia um grupo de nós lá, apenas assistindo a filmes e sentados perto de uma lareira. A sensação de aconchego e segurança era muito profunda depois de ficarmos presos naquela nevasca gelada e congelante por tanto tempo.Esta música foi criada para trazer uma sensação de aconchego e conforto. Gravei e compus ela recentemente e espero que ajude as pessoas a adormecerem e se lembrarem daqueles dias quentes com entes queridos por perto.

Comentário de Peter Kruse

Ornate“Colors” – (EUA)

Meu nome é Ornate, sou produtor e compositor e moro e cresci em Nashville, Tennessee. Esta nova faixa se chama “Colors” e é a terceira de um EP de cinco músicas sobre os cinco estágios do luto, onde cada música representa um estágio do luto. O interessante sobre essas músicas é que eu as escrevi todas na íntegra antes de perceber que elas poderiam ser sequenciadas para contar esse arco narrativo. Eu componho muita música em geral, e foi só quando eu disse em voz alta “Isso foi Aceitação”, depois de ouvir uma dessas músicas, que percebi que poderia montar um projeto dessa forma.

Colors, por tratar da fase de luto da “Barganha”, é uma peça fundamental neste projeto, pois é o ponto médio do ciclo do luto. É fragmentado e uma fase caracterizada por desespero, esperança e uma tentativa de reverter o irreversível.

“Colors for me” foi escrito sobre um parceiro que tentava me mudar, como um artista repintando uma tela repetidamente, para corresponder ao que ele queria que eu fosse. A pessoa que eu amava não me aceitava como eu era, e com o tempo percebi que havia me transformado em alguém que eu não reconhecia.

No refrão, canto “Sou um homem perdido em minhas emoções, mal conseguindo mantê-las vivas. Me odeiam, então vistam um casaco, artistas fazem um show, se nos encontrarmos de novo, vocês conseguem consertar?”. Isso para mim representa uma barganha até a medula, e a letra funciona como um apelo — talvez se eu ceder eles fiquem . “Colors”, como música, é empoderadora e curativa, e aprendi muito escrevendo essa música, com o quanto me curvei, que ainda estava bravo com a situação vários anos após a separação e com o custo romântico do compromisso.

É sobre a ideia de que você pode controlar seus resultados emocionais se simplesmente fizer ou disser a coisa certa, mas isso é uma ilusão, e é algo que eu precisava dizer — mesmo que fosse só para mim. Espero que gostem da música e obrigada por dedicarem um tempo para ler.

Comentário de Ornate

Jack Weaver“Mariposa” – (Reino Unido)

“Mariposa” nasceu de um dos momentos mais transformadores da minha vida: tornar-me mãe. A música é inspirada na nossa linda filha, Skye-Marie, cuja presença abriu meu coração de maneiras que eu jamais imaginei. Nós a chamamos carinhosamente de Mariposa, a palavra espanhola para “borboleta”, porque ela representa a pura metamorfose — delicada, poderosa e radiante.

A ideia para a música surgiu nas horas silenciosas e sagradas do início da paternidade — aqueles momentos de quietude em que o tempo se suaviza e tudo parece suspenso no amor. Eu queria capturar a essência espiritual do nascimento, o equilíbrio divino entre mãe e pai e o milagre de uma nova vida. A imagem da borboleta parecia a metáfora perfeita: emergir do casulo do desconhecido para algo novo, frágil e de tirar o fôlego.

Compor “Mariposa” foi mais como ouvir do que escrever. A melodia surgiu suavemente, quase como uma canção de ninar sussurrada pela própria natureza. Segui seu exemplo, permitindo que acordes suaves e texturas orgânicas moldassem o som. Continuei retornando aos ritmos naturais da Terra — seus ciclos de morte e renascimento — como uma força fundamental na letra e na produção. Era importante para mim que a música soasse como uma prece ou oferenda, algo que se pudesse cantar para uma criança ou para a Terra.

De muitas maneiras, o processo criativo refletiu a experiência do parto — intuitivo, emocional e repleto de admiração. Eu não queria pensar demais. Queria que a música soasse como um sopro: sem esforço, honesta e cheia de vida. Cada nota carrega minha gratidão — não apenas pela minha filha, mas pelo papel sagrado da maternidade e pela energia feminina que sustenta a criação.

Como última faixa do álbum, “Mariposa” é uma despedida suave e uma bênção. É um lembrete para valorizar cada momento, honrar a beleza em transição e cantar para a vida enquanto ela se desdobra. Sinto-me muito honrada em compartilhá-la desta forma e espero que toque os ouvintes com a mesma suavidade e maravilha que a inspiraram.

Comentário de Jack Weaver

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